Por Martins Pena (1845)
JOÃO – Precipitado ou não precipitado, não lhe dou minha filha! (Durante a continuação desta cena João passeia pela cena, dando voltas de um para outro lado; passa por trás da carroça, vai até o fundo, volta, etc., e Júlio o segue sempre falando.)
JÚLIO – Mas senhor, Vossa Senhoria não tem razão em responder-me deste modo. Eu decerto teria escolhido melhor ocasião; há porém acontecimentos que nos levam, mau grado nosso, a dar um passo que à primeira vista parece loucura. A causa deve ser indagada. E isto é o que Vossa Senhoria deveria fazer. Não se trata de um negócio de pouca monta. A minha proposição não deve ser assim recebida. Sei que a sua filha é um partido vantajoso ainda mesmo para um homem ambicioso, mas em mim não se dá essa idéia. Procuro os dotes morais de que é ornada, as virtudes que a fazem tão amável e encantadora. Conheço-a de perto, tenho tido a honra de freqüentar sua casa. Rogo a Vossa Senhoria que me dê um momento de atenção. Esse exercício violento pode-lhe fazer mal... Minha família é muito conhecida nesta cidade; não é rica, é verdade, mas nem sempre a riqueza constitui felicidade. Meu pai foi desembargador, e minha aliança com a filha de Vossa Senhoria não pode envergonhar. Sou negociante, ainda que principiante; posso ainda fazer grande fortuna e ouso dizer que a Sra. D. Clementina não me vê com indiferença...
JOÃO, voltando-se muito zangado para Júlio – Não lhe dou minha filha, não lhe dou, não lhe dou! E tenho dito.
JÚLIO – Atenda-me!
JOÃO – Aonde viu o senhor dar-se caça a um pai de semelhante maneira?
JÚLIO – Desculpe-me, é o meu amor a causa de...
JOÃO – Homem, não me quebre mais a cabeça! Não quero, não quero e não quero, e vá-se com os diabos! Não só de minha presença, como de minha casa. Vá-se, vá-se! (Empurrando.)
JÚLIO, com altivez – Basta, senhor! Até agora recebia uma denegação e com paciência a sofri; mas agora é um insulto!
JOÃO – Seja lá o que quiser.
JÚLIO – E eu não me demorarei um só instante em sua casa.
JOÃO – Faz-me muito favor. (Júlio sai arrebatado.)
CENA X
João, só, (e depois Luís.)
JOÃO – E que tal lhe parece a impertinência? Irra! Casar-se com minha filha! Um pobre diabo que só vive do seu insignificante ordenado. Agora, ainda que fosse rico, e muito rico, não lha dava. (João vai a entrar no quarto e aparece Luís no fundo, gritando.)
LUÍS – Tio João? Tio João?
JOÃO – Outro!
LUÍS, junto dele – Quero pedir-lhe um grande favor. Trata-se de minha prima.
JOÃO, à parte – Mas tu também? (Procura no chão uma pedra. )
LUÍS – Tenho hoje reparado com mais atenção na sua beleza e sabidas qualidades.
JOÃO – Não acho eu uma pedra?
LUÍS – Que procura, tio João? Não sei por que fatalidade tenho eu estado cego a tantas perfeições. (João pega no copo que vê sobre o banco de relva.)
JOÃO – Se me dás mais uma palavra, arrumo-te com este copo pelas ventas.
LUÍS – Olhe que tem um ovo dentro!
JOÃO – Tenha o diabo! Salta, não me esquentes as orelhas!
LUÍS – Não o contrariemos, que ele tem veneta e me perderei. Está bem, tio. Até logo. (Sai.)
CENA XI
João e depois Manuel.
JOÃO, só – Ainda virá mais algum? (João vai a entrar no quarto do ilhéu e este aparece do outro lado da cena. João, à parte:) Oh, diabo! (Disfarça o seu intento, fingindo perseguir na parede da casinha um inseto que lhe escapa.)
MANUEL, à parte – Ai, o que está o senhor a fazer? (João continua no mesmo jogo.) A saltar? (Aproximase dele, que faz que o não vê.) Ah, senhor? (João no mesmo jogo.) Senhor? (Pegando-lhe pelo braço:) O que apanha o senhor?
JOÃO, voltando – Quem é? Ah, é você, Sr. Manuel? Homem, estava atrás de uma lagartixa que subiu pela parede.
MANUEL – Ai, senhor, deixe viver o bichinho de Deus.
JOÃO – O que quer comigo?
MANUEL – Tinha um favor que pedir ao senhor, mas envergonho-me.
JOÃO – Pois um homem deste tamanho tem vergonha? Anda, diga o que quer, e depressa, que aqui está muito sereno.
MANUEL – Queria que o senhor me perdoasse os dois meses que faltam para acabar meu trato.
JOÃO – Nada, nada, não pode ser. Dei duzentos mil-réis pela sua passagem e pela de sua mulher, para que me pagassem com os seus trabalhos. Calculo-os a vinte mil-réis por mês. Já lá se vão oito; falta ainda dois para ficarmos justos de conta. Não dispenso.
MANUEL – Mas senhor...
JOÃO – Quando acabar-se o tempo do seu trato, faremos novo ajuste. Não terei dúvida de dar-lhe mais alguma coisa. (À parte:) A minha ilhoazinha não sai daqui.
MANUEL – Tenho trabalhado muito, e já o senhor devia estar contente comigo, e não olhar a tão pouca coisa.
JOÃO – Fale-me amanhã; agora não são horas. Vá arrumar capim na carroça que vai de madrugada para a cidade.
MANUEL – E se o meu trabalho...
JOÃO, empurrando-o – Já lhe disse que amanhã... (Manuel sai. João, só:) Daqui não me sai ele. Virá ainda alguém? (Vai para entrar no quarto e chegam do fundo, correndo, quatro meninos com pistola e bicha na mão e chegam até à frente do tablado.)
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.