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#Comédias#Literatura Brasileira

O Juiz de Paz da Roça

Por Martins Pena (1838)

Escrivão, lendo − Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V.S.ª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher.”

Juiz − É de verdade que o senhor tem o filho da égua preso?

José da Silva − É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.

Juiz − Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.

José da Silva − Mas, Sr. Juiz...

Juiz − Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia.

José da Silva − Eu vou queixar-me ao Presidente.

Juiz − Pois vá, que eu tomarei a apelação.

José da Silva − E eu embargo.

Juiz − Embargue ou não embargue, embargue com trezentos mil diabos, que eu não concederei revista no auto do processo!

José da Silva − Eu lhe mostrarei, deixe estar.

Juiz − Sr. Escrivão, não dê anistia a este rebelde, e mande-o agarrar para soldado.

José da Silva, com humildade − Vossa Senhoria não se arrenegue! Eu entregarei o pequira.

Juiz − Pois bem , retirem-se; estão conciliados. (Saem os dous.) Não há mais ninguém? Bom, está fechada a sessão. Hoje cansaram-me!

Manuel João, dentro − Dá licença?

Juiz − Quem é? Pode entrar.

Manuel João, entrando − Um criado de Vossa Senhoria.

Juiz − Oh, é o senhor? Queira ter a bondade de esperar um pouco, enquanto vou buscar o preso. (Abre uma porta do lado.) Queira sair para fora.

CENA XII

Entra José.

Juiz − Aqui está o recruta; queira levar para a cidade. Deixe-o no quartel do Campo de Santana e vá levar esta parte ao general. (Dá-lhe um papel.)

Manuel João − Sim senhor. Mas, Sr. Juiz, isto não podia ficar para amanhã? Hoje já é tarde, pode anoitecer no caminho e o sujeitinho fugir.

Juiz − Mas aonde há de ele ficar? Bem sabe que não temos cadeias.

Manuel João − Isto é o diabo!

Juiz − Só se o senhor quiser levá-lo para sua casa e prendê-lo até amanhã, ou num quarto, ou na casa da farinha.

Manuel João − Pois bem, levarei.

Juiz − Sentido que não fuja.

Manuel João − Sim senhor. Rapaz, acompanha-me. (Saem MANUEL JOÃO e JOSÉ.)

CENA XIII

Juiz − Agora vamos nós jantar. (Quando se dispõem para sair, batem à porta.) Mais um! Estas gentes pensam que um Juiz é de ferro! Entre quem é!

CENA XIV

Entra Josefa Joaquina com três galinhas penduradas na mão e uma cuia com ovos.

Juiz − Ordena alguma cousa?

Josefa [Joaquina] − Trazia este presente para o Sr. Juiz. Queira perdoar não ser cousa capaz. Não trouxe mais porque a peste deu lá em casa, que só ficaram estas que trago, e a carijó que ficou chocando.

Juiz − Está bom; muito obrigado pela sua lembrança. Quer jantar?

Josefa Joaquina − Vossa Senhoria faça o seu gosto, que este é o meu que já fiz em casa.

Juiz − Então, com sua licença.

Josefa Joaquina − Uma sua criada. (Sai.)

CENA XV

Juiz, com as galinhas nas mãos − Ao menos com esta visita lucrei. Sr. Escrivão, veja como estão gordas! Levam a mão abaixo. Então, que diz?

Escrivão − Parecem uns perus.

Juiz − Vamos jantar. Traga estes ovos. (Saem.)

CENA XVI

Casa de Manuel João. Entram Maria Rosa e Aninha com um samborá na mão.

Maria Rosa − Estou moída! Já mexi dous alqueires de farinha.

Aninha − Minha mãe, aqui está o café.

Maria Rosa − Bota aí. Aonde estará aquele maldito negro?

CENA XVII

Entram Manuel João e José.

Manuel João − Deus esteja esta casa.

Maria Rosa − Manuel João!...

Aninha − Meu pai!...

Manuel João, para José − Faça o favor de entrar.

Aninha, à parte − Meu Deus, é ele!

Maria Rosa − O que é isto? Não foste para a cidade?

Manuel João − Não, porque era tarde e não queria que este sujeito fugisse no caminho.

Maria Rosa − Então quando vais?

Manuel João − Amanhã de madrugada. Este amigo dormirá trancado naquele quarto. Donde está a chave?

Maria Rosa − Na porta.

Manuel João − Amigo, venha cá. (Chega à porta do quarto e diz:) Ficará aqui até amanhã. Lá dentro há uma cama; entre. (JOSÉ entra.) Bom, está seguro. Senhora, vamos para dentro contar quantas dúzias temos de bananas para levar amanhã para a cidade. A chave fica em cima da mesa; lembrem-se, se me esquecer. (Saem MANUEL JOÃO e MARIA ROSA.)

CENA XVIII

Aninha, só − Vou dar-lhe escapula... Mas como se deixou prender?... Ele me contará; vamos abrir. (Pega na chave que está sobre a mesa e abre a porta.) Saia para fora.

José, entrando − Oh, minha Aninha, quanto te devo!

Aninha − Deixemo-nos de cumprimentos. Diga-me, como se deixou prender?

José − Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o Juiz, que me mandou agarrar.

Aninha − Coitado!

José − E se teu pai não fosse incumbido de me levar, estava perdido, havia ser soldado por força.

Aninha − Se nós fugíssemos agora para nos casarmos?

(continua...)

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