ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Porque já te vejo meio tentada a uma nova vingança...
- Eu? Ora qual!
- Que tem? Não é crime...
- Não é decerto; mas... veremos.
- Ah! serás capaz?
- Capaz? disse Emília com um gesto de orgulho ofendido.
- Beijar-te-á ele a ponta do sapato?
Emília ficou silenciosa por alguns momentos; depois apontando com o leque para a botina que lhe calçava o pé, disse:
- E hão de ser estes.
Emília e Adelaide se dirigiram para o lado em que se achavam os homens. Tito, que parecia conversar intimamente com Azevedo, interrompeu a conversa para dar atenção às senhoras. Diogo continuava mergulhado na sua meditação.
- Então o que é isso, Sr. Diogo? perguntou Tito. Está meditando? - Ah! perdão, estava distraído!
- Coitado! disse Tito baixo a Azevedo.
Depois, voltando-se para as senhoras:
- Não as incomoda o charuto?
- Não senhor, disse Emília.
- Então, posso continuar a fumar?
- Pode, disse Adelaide.
- É um mau vício, mas é o meu único vício. Quando fumo parece que aspiro a eternidade. Enlevo-me todo e mudo de ser. Divina invenção!
- Dizem que é excelente para os desgostos amorosos, disse Emília com intenção.
- Isso não sei. Mas não é só isto. Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda a parte. Já é um grande progresso... Mas estou eu a aborrecer com uma dissertação tão pesada. Hão de desculpar... que foi descuido. Ora, a falar a verdade, eu já vou desconfiando; Vossa Excelência olha com olhos tão singulares...
Emília, a quem era dirigida a palavra, respondeu:
- Não sei se são singulares, mas são os meus.
- Penso que não são os do costume. Está talvez Vossa Excelência a dizer consigo que eu sou um esquisito, um singular, um...
- Um vaidoso, é verdade.
- Sétimo mandamento: não levantar falsos testemunhos.
- Falsos, diz o mandamento.
- Não me dirá em que sou eu vaidoso?
- Ah! a isso não respondo eu.
- Por que não quer?
- Porque... não sei. É uma cousa que se sente, mas que se não pode descobrir. Respira-lhe a vaidade em tudo: no olhar, na palavra, no gesto... mas não se atina com a verdadeira origem de tal doença.
- É pena. Eu tinha grande prazer em ouvir da sua boca o diagnóstico da minha doença. Em compensação pode ouvir da minha o diagnóstico da sua... A sua doença é... Digo?
- Pode dizer.
- É um despeitozinho.
- Deveras?
- Vamos ver isso, disse Azevedo rindo-se.
Tito continuou:
- Despeito pelo que eu disse há pouco.
- Puro engano! disse Emília rindo-se.
- É com toda a certeza. Mas é tudo gratuito. Eu não tenho culpa de cousa alguma. A natureza é que me fez assim.
- Só a natureza?
- E um tanto de estudo. Ora vou expor-lhe as minhas razões. Veja se posso amar ou pretender: primeiro, não sou bonito...
- Oh!... disse Emília.
- Agradeço o protesto, mas continuo na mesma opinião: não sou bonito, não sou...
- Oh!... disse Adelaide.
- Segundo: não sou curioso, e o amor, se o reduzirmos às suas verdadeiras proporções, não passa de uma curiosidade; terceiro: não sou paciente, e nas conquistas amorosas a paciência é a principal virtude; quarto, finalmente: não sou idiota, porque, se com todos estes defeitos pretendesse amar, mostraria a maior falta de razão. Aqui está o que eu sou por natural e por indústria.
- Emília, parece que é sincero.
- Acreditas?
- Sincero como a verdade, disse Tito.
- Em último caso, seja ou não seja sincero, que tenho eu com isso? - Eu creio que nada, disse Tito.
Capítulo II
No dia seguinte àquele em que se passaram as cenas descritas no capítulo anterior, entendeu o céu que devia regar com as suas lágrimas o solo da formosa Petrópolis.
Tito, que destinava esse dia a ver toda a cidade, foi obrigado a conservar-se em casa. Era um amigo que não incomodava, porque quando era de mais sabia escapar-se discretamente, e quando o não era, tornava-se o mais delicioso dos companheiros.
Tito sabia juntar muita jovialidade a muita delicadeza; sabia fazer rir sem saltar fora das conveniências. Acrescia que, voltando de uma longa e pitoresca viagem, trazia as algibeiras da memória (deixem passar a frase) cheias de vivas reminiscências. Tinha feito uma viagem de poeta e não de peralvilho. Soube ver e sabia contar. Estas duas qualidades, indispensáveis ao viajante, por desgraça são as mais raras. A maioria das pessoas que viajam nem sabem ver, nem sabem contar.
(continua...)
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