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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— A senhora me faz saudades de minha terra. Lembrei-me de minha casa, e das tardes em que passeava assim por aqueles sítios com minha mãe e minha irmã. 

 

— O senhor tem mãe e irmã! Como deve ser feliz! disse Lúcia com sentimento. 

 

— Quem é que não tem uma irmã! respondi-lhe sorrindo. E minha mãe ainda é muito moça para que eu tivesse a desgraça de a haver perdido. 

 

— Perdi a minha muito cedo e fiquei só no mundo; por isso invejo a felicidade daqueles que têm uma família. Há de ser tão bom a gente sentir-se amada sem interesse! 

 

Depois de uma hora de conversa despedi-me, e voltei sem ter arriscado um gesto ou uma palavra duvidosa. 

 

— Já vai? disse Lúcia vendo-me tomar o chapéu. 

 

— Não posso demorar-me mais tempo. Se a minha visita não lhe aborrece, voltarei outro dia. 

 

— Deu-me tanto prazer! Até amanhã; sim? 

 

E apertou-me a mão cordialmente. 

 

Na rua achei-me tão ridículo com os meus vinte e cinco anos e os meus escrúpulos extravagantes, que estive para voltar. Como podia eu temer um engano, depois do que sabia dessa mulher? 

 

Encontrei-me à tarde com Sá no Hotel da Europa, onde costumava jantar. Estava ainda muito viva a lembrança do que me sucedera naquela manhã para não aproveitar a ocasião de falar-lhe a respeito, tendo porém o cuidado de ocultar o papel que havia representado na pequena comédia. 

 

— Tens visto a Lúcia? perguntei-lhe. 

 

— Não; há muito tempo que não a encontro. 

 

— Tu a conheces bem, Sá? 

 

— Ora! Intimamente! 

 

— Tens toda a certeza de que ela seja o que me disseste na Glória? 

 

— E esta! Pois duvidas?... Vá à casa dela; já te apresentei. 

 

— Supunha que fosse apenas uma dessas moças fáceis, a quem contudo é preciso fazer a corte por algum tempo. 

 

— O tempo de abrir a carteira. Andas no mundo da lua, Paulo. Queres saber como se faz a corte à Lúcia?... Dando-lhe uma pulseira de brilhante, ou abrindo-lhe um crédito no Wallerstein. 

 

— Não é sem razão que te pergunto isto; encontrei-a há dias, e a sua conversa, os seus modos, pareceram-me tão sérios! 

 

— Por que lhe falaste nesse tom? Naturalmente a trataste por senhora como da primeira vez; e lhe fizeste duas ou três barretadas. Essas borboletas são como as outras, Paulo; quando lhes dão asas, voam, e é bem difícil então apanhá-las. O verdadeiro, acredita-me, é deixá-las arrastarem-se pelo chão no estado de larvas. A Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância. 

 

Acabamos de jantar e não tocamos mais no assunto. 

 

— Tens que fazer sábado depois do teatro? perguntou-me Sá com um sorriso maligno. 

 

— Nada, senão dormir.  

 

— Pois vá cear comigo. Dormirás durante o dia. Asseguro-te que não perderás o teu tempo. 

 

— Até sábado, então. 

 

Esta conversa desgostou-me; porque me fez parecer ainda mais ridículo aos meus olhos. 

 

Tinha uma vaga desconfiança, pelo tom do convite, de que Lúcia iria à casa do Sá; e protestei que antes disso me reabilitaria de minha estúrdia ingenuidade. 

IV 

 

No dia seguinte à mesma hora voltei à casa de Lúcia; achei-a ao piano. 

 

— O que estava tocando? 

 

— Nem sei!... Uma valsa que aprendi de ouvido. 

 

— Continue! 

 

— Não sei tocar, não! Estava brincando; não tinha que fazer. Como passou de ontem? 

 

— Bem, obrigado. Já vê que a minha segunda visita não se demorou muito. 

 

— Ainda assim não compensa a demora da primeira. 

 

— Sentiu essa demora?... Qual! ontem nem me conheceu. 

 

— Tanto como na Glória. Ainda que se tivessem passado anos, creio que em qualquer parte onde me encontrasse com o senhor, o reconheceria. 

 

— Por que motivo então fingiu ontem não se lembrar de mim, logo que entrei? 

 

— Por quê?... Queria ver uma coisa. 

 

— E não se pode saber o que era? 

 

— Não é preciso! 

 

— Há de me dizer!... 

 

E tomei-lhe as mãos que estavam frias e trêmulas. 

 

— Pois bem, eu lhe digo. Queria ver se ainda se lembrava do nosso primeiro encontro, respondeu ela furtando o corpo ao meu abraço. 

 

— Duvidava?... Não tinha razão; talvez fosse eu o que melhor guardasse essa lembrança. 

 

Lúcia abanou a cabeça lentamente: 

 

— Que vestido levava eu naquela tarde? perguntou sorrindo. 

 

A pergunta embaraçou-me. Quando admiro uma mulher bonita, a impressão que ela produz em mim não me deixa ver mais que a sua beleza. 

 

— Nem se recorda! 

 

— É um defeito meu. Não reparo na toilette das moças bonitas pela mesma razão por que não se repara na moldura de um belo quadro. 

 

— Que desculpa!... E eu por que reparei no seu traje, na cor de sua sobrecasaca, em tudo; até na sua bengala? Não é esta; a outra era mais bonita; tinha o castão de marfim. Está vendo que me lembro perfeitamente, e entretanto não tenho esses objetos diante dos olhos! 

 

— Ah! É este o vestido? 

 

— O vestido, as jóias, o penteado, o leque, aquele que o senhor apanhou. Nem desse se lembrava! Só falta o chapéu! Quer vê-lo? 

 

(continua...)

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