Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Atrás da catedral de Ruão

Por Mário de Andrade (1947)

Descendo do bonde na praça, embora a rua da farmácia ficasse ali mesmo, Mademoiselle é invadida por um vendaval misterioso, sem nexo. Como é que estava andando assim noutra direção, subindo a praça, enveredando para a catedral! O bom senso a obrigou a se definir, não era possível “se tromper” tamanhamente “de lisière”. Mademoiselle se dirigiu para a farmácia, inquieta muito, batida por desilusões. Comprou o alho sativo e mais vários tubinhos de pérolas alvas. Chegou à porta, pôs o embrulho na bolsa, estava escurecendo agora a inquietação já se transformava num desvario completo. Ficou ali, olhando a gente muita que passava apressada. Não sabia. Como que uma voz a chamava, uma voz fortíssima, atordoando. Não era voz, era o brouhaha dos bondes, dos autos, da gente. Mas o destino é que mandava os passos dela. Tinha que voltar e em vez o destino, não era o destino nem a voz não, “quelle sottise!” em vez estava subindo exagitada, frolando nos homens. Contrária a sua direção, Mademoiselle sobe, chamada pela catedral. Apressa o passo, estava quase correndo. O pavor a tomara, era um vento medonho na praça, sopro de sustos tamanhos que os arranha-céus se desmoronam com fragor. Chega o fragor. Chega o medo horrível, mil braços que a enforcassem, mil bocas, “une chair vive contre une chair vive”, lhe rasgam a blusinha, no ventre! e ela tropeça sem poder mais. Tem que parar. Se encostou nas pedras da abside, ia cair. Os homens passando afobados, meio se viraram na indecisão, sem se decidir a perguntar se aquela velhota quer alguma coisa. Pode estar doente, pedir auxílio, perdiam tempo. Passavam. Afinal o guarda deu tento na coitada.

— A senhora precisa alguma coisa?

Mademoiselle tirou a mão dos olhos, muito envergonhada, refeita de súbito com a pergunta. “Non, merci”, mas se percebendo noutra “lisière”, consertou: Não, obrigada. E agora, já sem sustos mais, num desalento vazio, termina de contornar o “derrière” da catedral. Já não era mais ela que “bousculava”os outros, como diriam as meninas, a multidão, é que a busculava, a empurrava, a sacode. Mademoiselle não enxerga mais, não sente. Nem percebe que afinal toma o terceiro ou quarto “Angélica” chegado. Nunca que imaginasse o acontecido, o mal de sexo já está grande por demais, e Mademoiselle precisa duma experiência maior pra alcançar a verdade.

As ruas agora já estavam mais visíveis na entressombra, mais largas, seguindo por avenidas ricas. Mademoiselle enfim reconheceu com franqueza que já vinham descendo pela avenida Angélica. Voltava pouco a pouco à vida. Mas se estivesse no seu natural iria até a rua das Palmeiras e tomava outro bonde que a levasse à Sebastião Pereira, onde ficava o segundo andar da sua pensão. Sem elevador. Mademoiselle gosta pouco de caminhar. Mas eis que dá um puxão brusco na campainha, o bonde pára espirrando. Mademoiselle desce e se lembra de enxugar o nariz, pra que desceu!

Cortando pelas ladeiras oblíquas se dirige à pensão, anda. Acontece que assim, no crespúsculo caseiro, numa última esperança de antemão desenganada, Mademoiselle passa pelo “derrière” da igreja de Santa Cecília. Assim mesmo uns sustinhos a tomaram, o respiro cresceu, foi agradável.

Mademoiselle chega sem muita desolação ao seu segundo andar. Havia um rol da engomadeira, difícil de ajustar, blusas e blusas. Mademoiselle examina as rendas com aplicação. De vez em quando pára, trata de enxugar o nariz, ah! o remédio. Se esquecera dos remédios mas agora é tarde. Vamos deixar o remédio para depois do jantar. Mademoiselle ergueu súbito a cabeça, voltou-a pro lado, esperando, olhos baixos. Ficou assim por algum tempo, ansiosa, no mal-estar quase suave, e como nada sucedesse, como sempre, retornou ao cuidado de encrespar com mais minúcia a rendinha engomada da blusa. Agora vivia assim, na virulência nova da sua solidão, eis que estremecia. Lhe vinha a sensação até brutal de ter alguém junto de si. Sobrestava, tinha que sobrestar por força a ocupação qualquer em que estivesse, meio que se voltava e ficava esperando, oihos baixos. Nunca que ela olhasse com franqueza o lado, o canto, a porta donde lhe vinha a presença do homem. Ela desoladamente sabia não haver ninguém ali.

Mas daquela aventura horrível lhe fica um fraco pelo “derrière” das igrejas. Não vê igreja solta, que não lhe brote a fatalidade de passar por detrás. A desilusão não a desilude nunca. Mademoiselle passa numa brisa agradável de apreensões, apesar do pleno dia, que ela nunca sai de-noite mais, tem um medo! Sabe de-cor os sacristãos cuidadosos que não deixam nas reentrâncias das absides a prova dos homens “gluants” da noite. Não vem mais no seu bonde, da casa de Dona Lúcia até a pensão. Pára uma esquina antes do largo de Santa Cecília. Até imagina que está precisando andar mais a pé. Vem. Está muito corretazinha e retazinha. Vem, faz a volta da igreja, lhe bate a brisa de sustos, é agradável. Mademoiselle estuga o passo e chega ofegante à porta da sua pensão.

(continua...)

1234567
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →