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#Contos#Literatura Brasileira

Um homem superior

Por Machado de Assis (1873)

Quanto ao comendador, que era o mais sincero dos três, sentiu separar-se de um cavalheiro tão distinto como Clemente Soares, ofereceu-lhe os seus serviços, e pediu com instância que não deixasse de o ir visitar à fazenda.

Clemente agradeceu e prometeu.

VI

Quis a desgraça de Medeiros que os negócios lhe corressem mal; duas ou três catástrofes comerciais o puseram às portas da morte.

Clemente Soares fez quanto pôde para salvar a casa de que dependia o seu futuro, mas nenhum esforço era possível contra um desastre marcado pelo destino, que é o nome que se dá à tolice dos homens ou ao concurso das circunstâncias.

Achou-se sem emprego nem dinheiro.

Castrioto compreendeu a situação precária do rapaz pelo cumprimento que este lhe fez nesse tempo, justamente porque Castrioto, tendo sido julgada casual a sua falência, alcançara proteção e meios para continuar o negócio.

No pior da sua posição, recebeu Clemente uma carta em que o comendador o convidava a ir passar algum tempo na fazenda.

Sabedor da catástrofe de Medeiros, queria o comendador naturalmente dar a mão ao rapaz. Este não esperou que repetisse o convite. Escreveu logo dizendo que daí a um mês se poria em marcha.

Efetivamente um mês depois saía Clemente Soares em caminho do município de ***, onde era a fazenda do comendador Brito.

O comendador esperava-o ansioso. E não menos ansiosa estava a moça, não sei se porque já lhe tivesse amor, se porque ele fosse uma distração no meio da monótona vida rural.

Recebido como amigo, tratou Clemente Soares de pagar a hospitalidade, fazendo-se conviva alegre e divertido.

Ninguém o poderia melhor do que ele.

Dotado de grande perspicácia, compreendeu em poucos dias como entendia o comendador a vida do campo, e tratou de o lisonjear por todos os modos. Infelizmente, dez dias depois da sua chegada à fazenda, adoeceu gravemente o comendador Brito, por maneira que o médico poucas esperanças deu à família. Era ver o zelo com que Clemente Soares servia de enfermeiro do doente, procurando por todos os meios suavizar-lhe os males. Passava noites em claro, ia aos povoados quando era necessário fazer alguma coisa mais importante, consolava o doente já com palavras de esperanças, já com animada conversa, cujo fim era distraí-lo de pensamentos lúgubres.

— Ah! dizia o pobre velho, que pena que eu o não conhecesse há mais tempo! Bem vejo que é um verdadeiro amigo.

— Não me elogie, comendador, dizia Clemente Soares, não me elogie, que é tirar o mérito, se o há, destes deveres agradáveis ao meu coração.

O procedimento de Clemente influiu no ânimo de Carlotinha, que nesse desafio de solicitude soube mostrar-se esposa dedicada e reconhecida. Ao mesmo tempo fez com que em seu coração se desenvolvesse o germe de afeto que Clemente de novo lhe lançara.

Carlotinha era uma moça frívola; mas a doença do marido, a perspectiva da viuvez, o desvelo do rapaz, tudo fez nela uma profunda revolução.

E mais que tudo, a delicadeza de Clemente Soares, que, durante esse tempo de tão graves preocupações para ela, nenhuma palavra de amor lhe dirigiu. Era impossível que o comendador escapasse à morte.

Na véspera desse fatal dia, chamou os dois a si, e disse com voz fraca e comovida:

— Tu, Carlota, pela afeição e respeito que me tiveste durante a nossa vida de casados; tu, Clemente, pela verdadeira dedicação de amigo, que me tens provado, sois ambos as duas únicas criaturas de quem levo saudades deste mundo, e a quem devo gratidão nesta e na outra vida...

Um soluço de Clemente Soares cortou a palavra ao moribundo.

— Não chores, meu amigo, disse o comendador com voz terna, a morte na minha idade, não é só inevitável, é também necessária.

Carlota estava banhada em lágrimas.

— Ora, pois, continuou o comendador, se me querem fazer o último favor, ouçam-me. Passou um relâmpago pelos olhos de Clemente Soares. O rapaz inclinou-se sobre a cama. O comendador tinha os olhos fechados.

Houve um longo silêncio, no fim do qual o comendador abriu os olhos e continuou:

— Consultei novamente a minha consciência e Deus, e ambos aprovam o que vou fazer. São ambos moços e merecem-se. Se se amarem, juram casar-se?

— Oh! não fale assim, disse Clemente.

— Por que não? Eu já tenho os pés na sepultura; não me fica mal dizer isto. Quero deixar felizes as pessoas a quem mais devo...

Foram as suas últimas palavras. No dia seguinte, às oito horas da manhã, deu a alma a Deus.

Algumas pessoas da vizinhança ainda assistiram aos últimos instantes do fazendeiro. Fez-se o enterro no dia seguinte, e pela tarde pediu o nosso Clemente Soares um cavalo, despediu-se da jovem viúva, e tomou caminho da corte.

Não veio, porém, até à corte. Deixou-se estar nas imediações da fazenda, e no fim de oito dias apareceu lá em busca de não sei que objeto que lhe havia esquecido. Carlotinha, quando soube que o rapaz estava na fazenda, teve um momento de regozijo, de que logo se arrependeu em respeito à memória do marido.

Curta foi a conversa dos dois. Mas foi quanto bastou para fazer a felicidade de Clemente.

(continua...)

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