Por Machado de Assis (1874)
— Não ouviste um grito?
— Não; é uma coruja; estás medrosa.
— Pareceu-me.
As duas sentaram-se na cama.
— Que é que tu hás de dizer quando titia te perguntar se queres casar com o Batistinha?
— Velhaca! disse Teresa sorrindo.
— Por quê, meu Deus?
— Quero saber também o que hás de dizer quando...
— Quando o quê?
— Quando tua mãe te perguntar se queres casar com Benjamim...
— Ora, qual!... Mas vamos lá, dize...
— Eu responderei que é de meu gosto.
— Só isso?
— Pois então?
— Mas isso só não é bonito; é preciso dizer: Com toda a minha alma!
— Deixemos disso; é romântico demais.
Desta vez ouviu-se um sussurro no quintal. As duas chegaram à janela mas não viram ninguém.
— Não é nada, disse Lucinda.
Entraram outra vez e continuaram a conversar. No fim de dez minutos ouviu-se um assobio.
Teresa estremeceu.
— É ele!
Lucinda começou a despir-se.
— Pois então, disse ela, vai conversar enquanto eu me deito.
Teresa chegou à janela e agitou um lenço branco; Batista, que já vinha pulando o último quintal, saltou à terra, aproximou-se do poço e começou a conversar debaixo com a namorada.
— Por que veio hoje? perguntou Teresa.
— Acha que fiz mal? disse Batista.
— Deve estar cansado.
— De quê?
Teresa quis aludir ao banho mas receou envergonhar o rapaz. Por isso, sem responder à pergunta continuou:
— Mamãe ainda me não falou.
— Quando falará?
— Talvez amanhã.
— Que pretende dizer?
— Ora! que sim! diga-me outra vez; está certo de que foi bem recebido por ela?
— Perfeitamente; vi que ela compreendeu o meu amor; e como não, se é essa alma digna, essa alma celeste, toda cheia dos perfumes do paraíso?
Esta rajada lírica produziu um riso sufocado, que Batista atribuiu a Teresa, e esta a Lucinda. Mas Lucinda já dormia nessa ocasião.
— Riu-se de mim? perguntou Batista.
— Que pergunta!
— Parece...
— Ah! não insulte aquela que vai ser sua esposa.
— Insultá-la? jamais... Não; eu daria o meu sangue para vingar aquele que a insultasse... Mas diga-me, Teresa, você está contente casando comigo?
— Oh! muito feliz!
— Eu também! Havemos de ter uma bela vida!
— Eu espero.
— Contanto que nos não visitem indiscretos, ah! principalmente seus irmãos. Que par de pelintras!
— Deixe-os.
— Oh! se os deixo! São dois pelintras sem iguais. Não compreendem que a dignidade da vida humana é respeitar os outros, porque o homem é feito à imagem de Deus, e quem insulta um homem e o desconceitua, ofende a Deus. Não acha, D. Teresa?
— Parece que sim; disse a moça já um pouco aborrecida com o ar tétrico que o namorado ia dando à conversa.
— Mas eu perdôo a esses rapazes; só o que desejo é que me não visitem...
— Será o que você quiser...
— Teresa, você me ama?
— Muito.
— Para sempre?
— Para sempre. E você?
— Oh! eu! pergunta ao mar se ama a praia; ao zéfiro se ama a flor; à abelha se ama... Não acabou a frase. Um esguicho anônimo lhe inundou a cara. Batista deu um pulo.
— Que é? perguntou a moça.
— Não sei... respondeu ele suspeitando estar descoberto.
— Mas que foi?
Batista não respondeu; imaginou logo que estava espiado e achou conveniente não dizer palavra e safar-se. Infelizmente, a noite estava escura e podia ele esbarrar-se com algum dos rapazes.
— Meu Deus! exclamou a moça. Que é?
— Nada...
— Alguma coisa há de ser.
— Descanse. Foi um espirro. Como ia dizendo, este momento aqueles seus manos são moços alegres mas dignos... Que galante idéia tiveram de me meter no banho!
— Isso é irônico, disse Teresa.
— Qual! é sincero! eu só me zango no momento; mas depois, reconheço logo que não há intenção de caçoar comigo...
Desta vez recebeu um esguicho por trás.
— Ai! disse ele.
— Mas que tem você? perguntou a namorada aflita...
— Nada! é um calo. São excelentes aqueles moços...
Outro esguicho nas pernas.
— São excelentes; continuou Batista tremendo de frio e de medo. Eu, se os encontrasse agora, abraçava-os.
Desta vez foram dois grandes esguichos. Batista teve idéia de pedir perdão; mas por um resto de pudor, não quis fazer figura triste diante da namorada.
Esta cada vez compreendia menos o rapaz. Os esguichos continuaram; ele falava entrecortando as frases; ela chegou a suspeitar que ele estivesse doido.
— Há de perdoar-me, disse ele, está fazendo um frio; vou-me embora.
— Já?
— Já.
— Adeus.
— Adeus!
— Até amanhã.
Teresa fechou a janela; Batista olhou à roda de si, não viu ninguém e procurou aproximar se do muro para saltar.
Nesse momento caiu-lhe sobre as costas uma caldeirada d’água. A moça entrou dando um grito. Acordou Lucinda e ambas foram acordar o resto da família.
— Hão de ser os endiabrados! Que pecado cometi eu? exclamou D. Angélica saltando fora da cama.
Dentro de pouco tempo estavam todos a pé, com velas acesas na mão, e dirigiram-se para o fundo, abrindo as janelas que davam para o quintal.
D. Angélica, desceu munida de um vergalho, e apareceu no quintal onde se passava a tragicomédia.
Batista esperneava dentro da gamela. Os dois irmãos o prendiam enquanto o moleque lhe despejava baldes d’´gua
— Que é isto? perguntou D. Angélica.
E avançou brandindo o vergalho.
O perigo era iminente.
Os dois rapazes agarraram em Batista.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um dia de entrudo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, jun.-ago. 1874.