Por Machado de Assis (1877)
José Cândido quis ainda intercalar algumas frases, mas era impossível; o capitão interrompia-o furioso para asseverar que a abnegação estava morta, que não havia fraternidade política. José Cândido estava fulminado; não ouviu as primeiras palavras do chefe. Quando voltou a si, insinuou ao capitão que podia dispor dos meios necessários para obtenção do diploma.
— A coisa está feita, disse melancolicamente o capitão.
José Cândido torcia os braços.
— Cheguei a dizer que cedia o meu lugar em seu proveito...
— E então?
— Recusaram.
— Ah! trata-se então de uma guerra pessoal...
— Não! Sou obrigado a dizer que, nesse ponto, o pensamento dos nossos amigos foi não se desfazerem do meu nome, que eles supõem (com razão) cercado de certo prestígio. José Cândido ainda insistiu, bradou, implorou; o capitão animou-o com as mais brilhante promessas, chegando a dizer que ele se retiraria da arena política, para todo o sempre, se por ventura o seu nobre amigo não fosse incluído na lista dos candidatos futuros. Era muito, mas eram promessas somente, e José Cândido vivia já de uma suposta realidade. Durante três dias o mancebo andou desatinado, até que no quarto dia, por uma dessas resoluções que levam os Césares a atravessar o Rubicão, José Cândido galgou a muralha das considerações políticas: retirou o seu concurso ao capitão; em vez de lutar contra um partido, dispôs-se a lutar contra dois; determinou enfim apresentar-se candidato.
O sr. Mateus não era homem de dar os quatro contos, mediante a garantia única da influência do filho, sem o concurso de um partido. José Cândido, que o sabia, empregou uma perfídia; nada disse ao pai do que se passara com o capitão. Pelo contrário, deu-se como aceito e aplaudido; figurou que ia ter com ele muitas vezes; falava de conciliábulos, circulares, entrevistas, uma agitação comum. Oito dias depois, o pai aventava os quatro contos e entregava-os ao jovem candidato. Importa dizer que, na mente do sr. Mateus, os quatro contos não eram deitados à rua; ele meditava já obter umas empreitadas, por intermédio do futuro eleitor. Não! ele não era homem de dar dinheiro por nada. Nada por dinheiro ainda era possível.
— Vão para a caixa, disse José Cândido atando as notas.
O sr. Mateus suspirou; mas a aludida reserva mental e a vaidade de ver as grandezas políticas do filho, de algum modo lhe minoraram as saudades.
José Cândido, ambicioso impotente mais fantástico, viu tudo cor-de-rosa, contemplava já os dois partidos de cara à banda, vendo triunfar um nome não cogitado por eles. Havia mesmo em seu íntimo, certo desejo de derrotar pessoalmente o capitão, por não ter alcançado a aceitação de seu nome. Chegava-lhe aos ouvidos o eco de futuras conversações nos círculos políticos:
— José Cândido venceu!
— Eleitor José Cândido!
— É um golpe inesperado!
— É uma desforra da opinião pública!
— É isto!
— É aquilo!
Não se podia negar que José Cândido dispunha de alguns votos certos; ao todo, uns vinte e cinco. Podia ter esperança em alguns votos prováveis; uns cinqüenta. Era pouco, era quase nada; mas ele contava com algumas artes particulares que tinha. Uma vez resolvido a lutar, atirou-se Cândido à arena, com alma e coração. Tratou primeiro que tudo de organizar umas listas excluindo o capitão e incluindo o seu nome, e fez crer aos votantes que o acompanhavam que essa decisão tinha sido tomada pelos centros políticos da capital. Ao barbeiro, acenou com a possibilidade de o incluir também; e o barbeiro, cujas ambições não iam acima da rabeca, sentiu uma espécie de vertigem, uma explosão interior e acabou aceitando a oferta.
Os quatro contos do sr. Mateus começaram a ter uma extração lenta, mas certa. Almoço daqui, ceia dacolá, um presente, um empréstimo, todas as formas da redução, que podem estar ao alcance de quatro contos e de um candidato desejoso de fazer a chapa, todas foram empregadas com muito método e singular tenacidade.
O dia aproximava-se a passos de gigante.
V
Um dia de manhã o sr. Mateus teve um acesso de cólera. Abrira o Jornal do Commercio e lera a lista definitiva dos candidatos ao eleitorado da Paróquia. O nome do filho brilhava pela ausência!
Foi um Dies irae.
O sr. Mateus, com o jornal amarrotado na mão, precipitou-se no quarto de José Cândido.
— Malandro! pelintra, ratoneiro! Que é isto? Onde estão os meus quatro contos? dizia ele fazendo da gazeta um chicote e ferindo com ele o ar.
— Que é? disse o filho espantado.
O sr. Mateus berrou ainda alguns adjetivos, primeiro que explicasse o motivo da cólera. Depois explicou. José Cândido ficou pálido, mas dominou-se logo. Simulou um grande espanto, e prometeu que ia saber o motivo daquilo. O dinheiro não estava perdido, porque só o dera com a condição do eleitorado.
— Tolo fui eu em ceder! exclamou o sr. Mateus.
José Cândido saiu e voltou daí a uma hora.
— Tudo está explicado, disse ele, essa lista é apócrifa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um Ambicioso. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.