Por Machado de Assis (1994)
CAM. Minto? Vede lá; ia-me deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retraí-me a tempo. Menti dizeis vós? — Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas só há um instante, depois que me pagastes com uma injúria o aviso que vos dei.
CAMÕES Um aviso?
CAM. Nada menos. Queria eu dizer-vos que as paredes do paço nem são mudas, nem sempre são caladas.
CAMÕES Não serão, mas eu as farei caladas.
CAM. Pode ser. Essa dama era...
CAMÕES Não reparei bem.
CAM. Fizestes mal; é prudência reparar nas damas; prudência e cortesia. Com que, ides à África? Lá estão os nossos em Mazagão, cometendo façanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, não deixeis lá esse braço, com que nos haveis de calar as paredes e os reposteiros. É conselho de amigo.
CAMÕES Por que seríeis meu amigo?
CAM. Não digo que o seja; o conselho é que o é.
CAMÕES Credes, então?...
CAM. Que poupareis uma grande dor e um maior escândalo.
CAMÕES Percebo-vos. Imaginais que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual é
o meu delito? Em que ordenação, em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi já dado como delito amarem-se duas criaturas?
CAM. Deixai a corte.
CAMÕES Digo-vos que não!
CAM. Oxalá que não!
CAMÕES (à parte). Este homem... que há neste homem? lealdade ou perfídia? (Alto.) Adeus, - Senhor Caminha. (Pára no meio da cena). Por que não tratamos de versos?... Fora muito melhor...
CAM. Adeus, Senhor Camões.
(CAMÕES sai).
CENA X
CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATAÍDE
CAM. Ide, ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscênio.) Era ela, decerto, era ela que aí estava com ele, no meio do paço, esquecidos de El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria ela deveras?... Que outra podia ser? D. CAT. (espreita e entra). Senhor... senhor!
CAM. Ela!
D. CAT. Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peço-vos que não nos façais mal. Sois amigo de meu pai, ele é vosso amigo, não lhe digais nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que CAMINHA não diz nada.) Então? falai... poderei contar convosco?
CAM. Comigo? (D. CATARINA, inquieta e aflita, pega-lhe na mão; ele retira-lha com aspereza.) Contar comigo! Para que, minha senhora D. Catarina? Amais um mancebo digno, porque vós o amais... muito, não?
D. CAT. Muito!
CAM. Muito! Muito, dizeis... E éreis vós que estáveis aqui, com ele, nesta sala solitária, juntos um do outro, a falarem naturalmente do céu e da terra... ou só do céu, que é a terra dos namorados. Que dizíeis? ...
D. CAT. (baixando os olhos). Senhor...
CAM. Galanteios, galanteios de que se há de falar lá fora... (Gesto de D. CATARINA) Ah! Cuidais que estes amores nascem e morrem no paço? Não; passam além; descem à rua, são o mantimento dos ociosos, e ainda dos que trabalham, porque, ao serão, principalmente nas noites de inverno, em que se há de ocupar a gente, depois de fazer as suas orações? Com que, éreis vós? Pois digo-vos que o não sabia; suspeitava, porque não podia talvez ser outra... E confessais que lhe quereis muito. Muito?
D. CAT. Pode ser fraqueza; mas crime... onde está o crime?
CAM. O crime está em desonrar as cãs de um nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praças; o crime está em escandalizar a corte, com essas ternuras, impróprias do alto cargo que exerceis, do vosso sexo e estado... esse é o crime. E parece-vos pequeno?
D. CAT. Bem; desculpai-me, não direis nada...
CAM. Não sei.
D. CAT. Peço-vo-lo... de joelhos até... (Faz um gesto para ajoelhar-se, ele impede-lho).
CAM. Perdereis o tempo; eu sou amigo de vosso pai.
D. CAT. Contar-lhe-eis tudo?
CAM. Talvez.
D. CAT. Bem mo diziam sempre; sois inimigo de Camões.
CAM. E sou.
D. CAT. Que vos fez ele?
CAM. Que me fez? (Pausa.) D. Catarina de Ataíde, quereis saber o que me fez o vosso Camões? Não é só a sua soberba que me afronta; fosse só isso, e que me importava um frouxo cerzidor de palavras, sem arte, nem conceito?
D. CAT. Acabai.
CAM. Também não é porque ele vos ama, que eu o odeio; mas vós Senhora D. Catarina de Ataíde, vós o amais... eis o crime de Camões. Entendeis?
D. CAT. (depois de um instante de assombro). Não quero entender.
CAM. Sim, que também eu vos quero, ouvis? — E quero-vos muito... mais do que ele, e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do ódio, nutre-se do silêncio, o desdém o avigora, e não faço alarde nem escândalo; é um amor...
D. CAT. Calai-vos! Pela Virgem, calai-vos!
CAM. Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverência.) Mandais alguma outra cousa?
D. CAT. Não. ficai. Jurai-me que não direis cousa nenhuma.
CAM. Depois da confissão que vos fiz, esse pedido chega a ser mofa. Que não diga nada? Direi tudo, revelarei tudo a vosso pai. Não sei se a ação é má ou boa; sei que vos amo, e que detesto esse rufião, a quem vadios deram foros de letrado. D. CAT. Senhor! É demais!...
CAM. Defendei-lo, não é assim?
D. CAT. Odiai-o, se voz apraz; insultá-lo, é que não é de cavaleiro ....
CAM. Que tem? O amor desprezado sangra e fere.
D. CAT. Deixai que lhe chame um amor vilão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.