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#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

Tendo feito um casamento por simples gratidão, o coração de Helena estava ainda virgem e cheio do fogo das paixões. Era uma mulher dessas que a civilização vai extinguindo, uma mulher capaz de amar, capaz de sacrifícios. Quem lhe tocasse naquele coração tão puro ainda teria tocado uma rocha de Horeb, de onde veria romper uma linfa abundante e viva. Qual daqueles dois rapazes seria o feliz Moisés?

Que ambos tinham desejo de sê-lo, isso é fora de dúvida. Luís estimulava-se com a rivalidade, e procurava vencer a tibieza natural. Mas Carlos tinha mais audácia, e, como diz o povo, mais mundo. O filho de Alves viu logo desde princípio com que adversário tinha de lutar.

Com efeito, Carlos logo no fim de oito dias arriscou uma declaração de amor, feita com todas as regras que o caso pedia. Helena, querendo conciliar tudo, a delicadeza e o dever, apenas sorriu, e disse ao rapaz que se esquecesse disso, porque ela não o amava.

Carlos não se deixou vencer.

— Bem, disse ele, esperarei.

— O quê? perguntou Helena franzindo levemente a testa.

— Que me ame.

A viúva tornou a sorrir.

— Está certo disso?

— A esperança é a última coisa que nos abandona.

A conversa ficou aí.

Carlos pensava bem; o que ele queria antes de tudo era tomar uma posição definida aos olhos de Helena. Embora não fosse correspondido, o essencial para ele era estabelecer no espírito da moça uma ligação entre a idéia dele e a idéia do amor. Chamava ele a isto lançar barro à parede.

Ao passo que o filho de Batista assim estabelecia o seu acampamento e dispunha os seus elementos de guerra, Luís estava como no primeiro dia. Apesar de todos os esforços, Luís nada conseguira fazer. Aquele rapaz que era considerado como um leão em certa sociedade, quando estava ao pé de Helena mal podia conversar de coisas indiferentes e frívolas, de maneira que atrasava-se na razão direta do adiantamento do outro.

Adiantamento lhe chamo, para dar à coisa o nome que o rapaz lhe dava. Mas a verdade é que Helena sentia-se, como no primeiro dia, indiferente para o rapaz.

Alves não cessava de animar com palavras e rogativas o espírito do filho, que em casa do pai sentia-se capaz de conquistar a Ásia inteira mas que apenas entrava em casa de Helena tornava ao que era.

Um dia, porém, depois de uma reprimenda paterna, Luís tratou de dar um golpe decisivo, e jurou que na primeira ocasião em que se achasse a sós com ela daria o assalto à praça. Era difícil achar essa ocasião, porque Carlos, compreendendo o mal que lhe resultaria de deixá-los sós, estava sempre de permeio, o que o alegrava tanto quanto enraivecia o outro.

Como a vigilância não podia ser tão absoluta que não ferisse as conveniências, aconteceu que uma noite Luís pôde ficar alguns instantes com Helena, no vão de uma janela, enquanto Máximo tocava piano, e Carlos conversava com o coronel.

Luís reuniu as suas forças e soltou a primeira palavra, a principal, porque o resto viria mais facilmente. A viúva sorriu igualmente, e deu a mesma resposta que dera a Carlos. Mas Luís não era da têmpera do outro, e em vez de soltar uma frase audaz e tranqüila, repetiu e insistiu na sua declaração.

Helena não tendo meio algum de fazer cessar a torrente dos idílios estudados de Luís, interrompeu a conversa, dizendo para Máximo:

— Está tocando hoje magnificamente, doutor!

E saiu da janela.

Luís ficou petrificado.

Era fácil ver pelos dois velhos pais a situação em que se achavam os filhos. Tão lesto e lampeiro andava Batista quanto cabisbaixo e desanimado Alves das Antas. Quaisquer que fossem os seus desejos, Luís não podia lutar com o filho de Batista. Para não ser vencido, ou ficarem vencidos ambos, só havia uma coisa: a isenção da moça, a resistência dela às impertinências dos dois rapazes.

Seria assim?

Parece que era.

CAPÍTULO III

Passaram-se dois meses, e chegou o dia em que Helena fazia anos. Houve jantar nesse dia em casa do coronel, ao qual assistiu o pequeno número de pessoas íntimas que costumavam freqüentar a casa.

Foi um dia de festa geral. Entretanto, de quando em quando uma sombra misteriosa vinha entristecer o olhar do coronel.

Acabado o jantar, e indo todos dar uma volta pelo jardim, Batista travou do braço do coronel, tendo cuidado em fazer com que o filho oferecesse o seu a Helena, o que era inútil, porque o moço conhecia perfeitamente quais eram os seus deveres naquela ocasião.

Batista e o coronel desviaram-se dos outros grupos.

— Quero fazer-lhe uma pergunta indiscreta, disse Batista.

— Fale, disse o velho.

— Esteve triste durante o jantar, e continua triste depois dele. Posso saber a causa disso?

— Oh! nada! nada!

— É impossível: vê-se que tem algum incômodo moral. Por que me não confia? Não acredita na amizade que lhe consagro? É verdade que eu ainda não lhe dei provas.

(continua...)

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