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#Contos#Literatura Brasileira

Quem não quer ser lobo...

Por Machado de Assis (1872)

Ypsilanti disse estas palavras com um modo tão brando que Coelho começou a ver as coisas por outra face. Esperava encontrar um tigre, e achou-se diante de um cordeiro. Cordeiro não o era ele tanto, porque logo depois das palavras acima transcritas, rompeu nestas:

— Vamos! fale, meu atrevido! meu sedutor de donzelas!

— Eu já lhe disse a verdade.

— Não disse. A verdade é que o senhor namora a pequena há alguns meses, que tem vindo algumas vezes ao jardim, segundo me consta, que lhe escreve e é correspondido. Coelho fez um gesto para falar.

Ypsilanti continuou:

— E pensa que não sei a razão por que me não tem falado? É porque receia que eu lha recuse. Sabe que eu tenho fama de severo e que só admitirei casamento em condições vantajosas... Esta é a verdade.

Ypsilanti estava outra vez com o modo brando, e Coelho de novo se animou a tirar proveito da situação.

— Ora, conquanto eu deseje para minha sobrinha um noivo rico, não faço disso questão principal. Pode ser pobre e honesto. Se está nessas condições, por que não me fala? Era melhor; não daria que falar.

Luziu nos olhos de Coelho a posse de algumas dezenas de contos de réis. Era argumento melhor que todos os raciocínios. A disposição de Ypsilanti o animou a dar mais um passo.

— Pois, senhor Ypsilanti, disse Coelho; tudo confesso; é verdade, eu amo sua sobrinha e peço-lha em casamento. A ocasião não é talvez própria, mas...

— Própria é, disse Ypsilanti; mas confesse que procedeu muito indignamente até hoje, e que, se eu não fosse uma boa alma, o senhor devia estar morto a esta hora. Dizendo isto, bateu o velho com a mão na mesa; o cão grunhiu do seu lugar; e Coelho cuidou seriamente que ainda não estava salvo.

Mas tudo passou depressa.

— Pois, senhor, venha amanhã pedi-la oficialmente. E prometa desde já que a há de fazer feliz.

— Juro! disse Coelho. E peço-lhe que acredite, senhor Ypsilanti, que não é a idéia da sua riqueza que me fez amar sua sobrinha, mas...

Ypsilanti sorriu.

— Bem sei, bem sei, disse ele.

Depois acompanhou-o até à porta do jardim.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

VI

MISTÉRIO

Fechou-se a porta do jardim. Coelho parou na rua, atônito. Durante um quarto de hora, não pôde dar um passo.

Tudo lhe parecia um sonho.

De duas uma:

Ou tinha de ser metido numa terrível embrulhada, de que era incerto que saísse bem, ou então, a sua felicidade era certa.

Mas como supor a segunda hipótese?

Enganar o tio era possível; mas a sobrinha? Quando esta o visse reconheceria perfeitamente o engano e teria franqueza para dizer ao velho que o seu namorado não era ele mas outro. O velho perdoaria aos dois, e descarregaria sobre ele todo o furor. Coelho caminhou lentamente para casa meditando no que acabava de ocorrer. Cada vez se lhe entranhava mais no espírito a convicção de que a situação era para ele terrível; e ao mesmo tempo perguntava a si mesmo como pudera crer que fosse possível conseguir alguma coisa nas condições em que lhe apareceu a carta.

— Eu estava doido, sem dúvida, dizia consigo Coelho. Supor que poderia dali sair alguma coisa boa, era realmente ter perdido o juízo.

Quando chegou a casa estava resolvido a abrir mão da sobrinha de Ypsilanti.

— Mas será isso possível? perguntava Coelho a si mesmo; depois do que se passou, conhecendo-me ele, ainda que pouco, é impossível deixar a empresa. Em rigor, eu devo lhe uma satisfação. Não há remédio. Em que situação me fui colocar! Depois a idéia dos contos réis de novo lhe apareceu com todo o seu cortejo de gozos e fantasias.

— Rico, dizia ele; rico! Oh! isto é um sonho! Eu posso estar rico daqui a um mês. Foi a minha estrela que me levou lá; está dito.

— E poderia satisfazer a sua ânsia de fazer figura.

Pelas quatro horas, conseguiu fechar os olhos.

Mas os sonhos continuaram os cálculos; e o nosso Coelho acordou tarde, bem disposto, risonho e quase rico; pelo menos, rico de imaginação.

O moleque começou a experimentar a feliz mudança operada no ânimo do senhor. Não recebeu o pontapé matinal de costume, e teve o gosto de assobiar uma ária sem medo de interrupção.

Coelho mandou comprar um par de luvas brancas, e encomendar um carro, preparou-se, perfumou-se, e ensaiou-se para a arriscada empresa. Enquanto não saía de casa, tudo parecia ir facilmente, mas apenas se meteu no carro, e este começou a rodar pelas ruas da cidade na direção da casa do grego, tudo se foi alterando no espírito do rapaz.

— Mas eu estou vivendo em pleno romance de ontem para cá, dizia o mísero; isto é uma loucura. A rapariga vai reconhecer-me, adivinhará tudo, ou antes, não adivinhará nada, mas compreenderá ao menos que não sou eu o namorado, e tudo se desfaz e eu estou em pior posição do que ontem. O velho, apesar da confissão que lhe fiz, não me há de perdoar a audácia, desde que souber que eu efetivamente a pratiquei. Tudo isso é rematada loucura.

E o carro ia andando.

(continua...)

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