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#Contos#Literatura Brasileira

Quem boa cama faz...

Por Machado de Assis (1860)

Eram já passados mais de dois meses desde a entrevista do desembargador com o bacharel e ainda Ernesto não tinha encetado efetivamente a campanha. Longe de fazer insinuações contrárias ao amigo, elogiava-o muito na presença da moça. Ninguém o elogiava tanto e por isso Fernanda preferia a conversa dele. A princípio fria, Fernanda foi revelando a pouco e pouco brilhantes dotes do espírito e sólidas qualidades do coração. A mosca morta, como lhe chamava o primo, era apenas mosca escondida; rompeu o invólucro e começou a esvoaçar com suma agilidade e graça.

Ernesto tornou-se uma necessidade da casa. Ele sabia jogar todos os jogos, desde o xadrez até às prendas; discutia sobre literatura, andava em dia com as modas, recitava ao piano, conhecia receitas de doces; era uma enciclopédia doméstica e viva. Todos o queriam ao pé de si; e mais ainda que todos a noiva de Luís. Ernesto dividia-se com discrição, mas sempre de maneira que a Fernanda coubesse quinhão maior. Gabava-lhe o rapaz todos os seus dotes naturais, ria-se dos seus ditos, aplaudia as suas observações, e com este sistema foi ganhando terreno incalculável.

Um dia percebeu que Fernanda tinha uma tal ou qual tendência poética. Não se deteve; entrou a falar de luas e boninas.

— Oh! que bela coisa não seria, dizia ele, viver ao pé de um lago, dentro de um castelo que só a imaginação poderia construir, ao lado de quem se ama, livres ambos dos cuidados deste mundo, divorciados da prosa, entre a terra e o céu!

A moça não respondeu; estava embebida a ver o quadro que ele lhe pintava. Ernesto continuou:

— Não lhe parece que a imaginação é um triste dom do homem?

— Talvez.

— Imaginar impossíveis, ou pelo menos, ambicionar gozos raríssimos na terra é a maior desgraça que o espírito pode conceber. Eu nunca pude compreender Werther; Carlota não me apaixonaria, creio eu. Detesto o que vai terra-a-terra.

Ernesto esquecia-se neste ponto, que ainda na véspera fizera a apologia do arroz com ervilhas e ensinara à mulher do desembargador a melhor maneira de comer costeletas de porco. Mas se ele se esquecia, não menos se esquecia a prima de Luís Fonseca. Quando ele acabou de desenvolver a sua teoria acerca do amor, a moça que olhava justamente para a lua, estando ambos à janela, suspirou e disse:

— Eu tenho às vezes idéias fantásticas. Dizem que há habitantes na lua; se os há, penso que só lá existe a vida tal qual eu a imagino. Se ela é tão bela vista de longe, o que não será, vista de perto?

— Talvez não.

— Oh! não me tire então este sonho!

— Melhor é que lhe tire a reflexão do que a experiência. A lua é a imagem exata da felicidade; formosa de longe, vulgar de perto.

— Quem sabe?

— A astronomia, que nos tira as ilusões. Eu também as tive, e ainda hoje as tenho, mas padeci e padeço.

— Padece?

Ernesto suspirou. A moça que parecia ansiosa por ouvir confidências, talvez para poder fazer as suas, repetiu a pergunta. Ernesto abanou a cabeça.

— Não, disse ele, não falemos mais nisto.

— Prefere então a terra?

— Prefiro o céu. Essas lembranças não eram céu nem terra; mas infernos com todas as suas chamas.

A conversa continuou deste modo entre os dois até que a mãe de Fernanda os veio interromper. Não tinha vontade disso a pobre velha, que já no seu coração dizia ser muito melhor que a filha casasse com Ernesto; mas era tarde e era preciso voltar para casa.

CAPÍTULO VI

A noite para Fernanda foi já povoada de mil pensamentos diversos, de que Ernesto era o principal assunto. Pareceu evidente que o rapaz amava alguém, mas sem esperanças ou pelo menos com tão poucas como ela. Também não lhe pareceu fora de propósito que as meias palavras de Ernesto aludissem a algum amor já passado e infeliz. Em ambos os casos era uma alma com quem a sua simpatizava; a igualdade dos sentimentos e talvez das circunstâncias as chamavam uma para outra. A isto vinha juntar-se uma natural curiosidade feminil. De maneira que Fernanda, depois de pensar longo tempo na conversa de Ernesto, sonhou com ele quase toda a noite.

Daí a quatro dias encontraram-se outra vez em casa do desembargador. Ernesto estava alegre como das outras vezes.

— Ainda bem! disse-lhe ela apenas pôde conversar com ele no sofá.

— Por quê?

— Porque o vejo mais alegre.

— Oh! é o meu gênio que me faz assim, não a minha estrela. A natureza foi mãe comigo; deu-me esta máscara.

— Sabe de uma coisa? perguntou Fernanda sorrindo.

— O que é?

— Eu desejava...

Calou-se.

— Desejava?...

— Ser sua confidente, concluiu Fernanda fazendo-se rubra.

Ernesto estremeceu tão naturalmente, que a moça olhou assustada para as outras pessoas que estavam na sala.

Houve um momento de silêncio.

— Não tente encarar o inferno, disse Ernesto com melancolia; pode cair nele.

E ao mesmo tempo que dizia isto, tomou um ar alegre e estouvado.

— Mas por que estou eu a dizer estas coisas? observou ele; são talvez ridículas ao seu espírito.

— Oh! não! protestou ela.

(continua...)

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