Por Adolfo Caminha (1896)
Adelaide, contrafeita, risonha por delicadeza, mas, em verdade, bem fora dos seus hábitos, ia notando intimamente, sem expressão de surpresa no olhar, a perspectiva do início carioca. Enquanto esperava a mulher de Furtado, abstraía-se na contemplação dos objetos que a cercavam agora, cada um dos quais era uma novidade para ela. Imobilizava-se, retraída, quase esmagada pelo aspecto luxuoso e confortável da mobília, dos quadros, das tapeçarias que ornavam a sala do secretário. E aquilo dava-lhe uma volúpia de bem-estar, uns arrepios de gozo calmo e de independência honesta que estava um pouco na massa do seu sangue. . .. Foi interrompida nas suas reflexões por D. Branca, esposa de Furtado, que vinha entrando acompanhada de outra senhora mais moça e do Raul.
—Oh!... - fez aquela, numa voz que não era bem de surpresa.
— Ainda te lembras da Branca, ó Evaristo?
— Como não? - disse o bacharel, erguendo-se para cumprimentar as duas senhoras. — Lembro-me bem. Está um pouquinho mudada, está... D. Branca dirigiu-se a Adelaide, e beijaram-se.
— Sua senhora inda é muito moça! - observou a esposa de Furtado para Evaristo. E apresentando a companheira: — Esta é uma amiga nossa — D. Sinhá, filha do desembargador Lousada...
Raul, de mãos pra trás no meio da sala, não perdia palavra, remoendo ocultas intenções brejeiras.
Todos se sentaram, menos ele, e a conversa prolongou-se através dos costumes, da moda e da política.
As duas senhoras estavam em toilette de verão, cada uma com o seu leque fantasia. — D. Branca um pouco gorda, mas ainda frescalhona, parecendo mais moça do que realmente era; a filha do desembargador muito derretida, encobrindo, sob densa camada de pó de arroz, a pele salpicada de sinaizinhos indeléveis, uma rosa Petrópolis no seio; costumava passar os domingos em casa do "Sr. Furtado", um dos bons amigos do velho Lousada.
Evaristo achou-a pedante e feia; Adelaide também, na sua mudez obstinada.
A propósito do Raul, que mereceu a atenção dos circunstantes, veio a Julinha nos braços da ama. O pai adorava-a, e tomou-a logo, num alvoroço, numa grande festa de beijos que ela - o diabrete! - repugnava, esperneando.
— Como achas minha filha? - perguntou o secretário erguendo a menina alto, nas mãos.
Evaristo, lisonjeiro, fazendo graça para a criança, achou-a muito parecida com D. Branca, muitíssimo parecida! Os olhos, então, eram os de D. Branca!
Adelaide, ao contrário, achou que ela "tinha ares do Sr. Furtado". O secretário exultou, porque, na verdade, Julinha era uma criança linda, muito rosada, muito loura, de olhos vivos e angelicais.
— Quem é aquele homem, minha filha?
A pequena encarou Evaristo, sem responder.
— Quem é? — tornou Furtado. — Olhe bem para ele... quem é?
Julinha amuou, desconfiada, e abriu a chorar.
— Ta, ta, ta... não foi nada, não foi nada! É o Evaristo, minha filha — o Evaristo!
— Menina! — ralhou D. Branca.
Mas a pequerrucha debatia-se com os pés e com as mãos, numa cólera rubra, num desespero: — Diabo! diabo! diabo!
Todos riram, todos gostaram da assombrosa precocidade!
— Saiu à mãe - explicou Furtado, agora com um ar bonachão de pai que tudo perdoa aos filhos.
D. Branca não protestou, e a menina foi conduzida para dentro. Falou-se depois nas acomodações da casa. Evaristo e a mulher iam ocupar um quarto nos fundos, defronte da sala de jantar, vizinho à área: um bom quarto espaçoso, forrado e com bico de gás.
— Tanto incômodo! - murmurou Evaristo.
— Qual incômodo!
D. Branca entrou em familiaridades com Adelaide, franqueou-lhe a toilette, mostrou-lhe o álbum de retratos, o vestido de seda com que fora ao último baile no Cassino, uma jóia que a princesa lhe dera no dia de seus anos...
— A princesa?...
Sim, eram muito amigas, o próprio imperador podia-se dizer que era amigo do Furtado; até lhe prometera uma comissão à Europa. Sim, a princesa, por que não? A princesa dava-se com muitas famílias no Rio de Janeiro, não tinha orgulho, apertava a mão a todos... Boa senhora! A mulher do desembargador Lousada era dama do Paço, tinha intimidade com a imperatriz; por intermédio dela é que D. Branca se relacionara com a princesa.
D. Sinhá confirmou: — "A mamãe era dama do Paço..." Entraram ganhadores com a bagagem, que foi recolhida ao novo aposento de Evaristo. Raul tomou conta da gaiola dos pássaros, onde refulgiam asas de corrupião e de xexéu. Evaristo disse logo que o corrupião era do Furtado: podia garantir a espécie; o xexéu, ele trazia para o diretor do Banco.
E nesse andar escoou o domingo, com grande tristeza para o Raul, que no dia seguinte voltava ao colégio, pensando no corrupião.
Os hóspedes recolheram fatigados da viagem, morrinhentos de calor e de cansaço.
Adelaide, principalmente, queixava-se de uma dor na cabeça e de "confusão nas idéias".
Evaristo, para a consolar, disse que também estava com a cabeça a arder. Trataram de se agasalhar na cama fresca e cheirosa a sabão. Da janela do quarto via-se luz no segundo andar, e não poucas vezes ecoava embaixo, no fundo escuro da área, o som de uma cusparada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.