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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Havia meses que Maria do Carmo cursava a Escola Normal. Sua vida traduzia-se em ler romances que pedia emprestados a Lídia, toda preocupada com bailes, passeios, modas e tutti quanti... Ia à Escola todos os dias vestidinha com simplicidade, muito limpa, mangas curtas evidenciando o meio-braço moreno e roliço, em cabelo, o guarda-sol de seda na mão, por ali afora — toque, toque, toque — até à praça do Patrocínio, como uma grande senhora independente.

Agora, sim, pensava o amanuense, Maria estava uma mocetona digna de figurar em qualquer salão aristocrático.

A fama da normalista encheu depressa toda a capital. Não se compreendia como uma simples retirante saída há pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bemfeita de corpo, tão desenvolta e insinuante. As outras normalistas tinham-lhe inveja e faziam-lhe pirraças. Nas reuniões do Club Iracema era ela a preferida dos rapazes, todos a procuravam.

João da Mata inflava. Certo não a entregaria por preço algum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes.

Entretanto, o Zuza era um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia versos, assinava a Gazeta Jurídica, freqüentava o palácio do presidente...

João conhecera-o uma noite no baile do Dr. Castro. Havia meses que se achava em Fortaleza estudando o quinto ano de direito e gozando a sua fama de rapaz rico. Às seis horas da tarde já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bemeducada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará...

— Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha.

— Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres...

— De bugres?!

— ...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana...

— Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes... — Absolutamente não.

O que dizia é que o Recife está num plano muito superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.

João da Mata achava-o pedante, desequilibrado, tolo. — “Não, o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés em casa por forma alguma!” bradava naquela noite.

Maria continuava a chorar lá dentro, na sala de jantar, inconsolável, triste, com um grande desgosto na alma. De repente ouviu a voz do padrinho que a chamava. Ergueu-se com um movimento brusco e rápido, o lenço nos olhos, soluçando devagar.

João quis saber onde estava “a carta que o Zuza lhe havia entregue”. Botasse-a pra ali, já!

Trêmula, abafando a cólera que lhe oprimia a respiração, Maria não podia falar.

— Vamos, vamos!

— Não tenho carta alguma, disse num acento doloroso.

João da Mata sentiu atear-se-lhe o fogo da concupiscência. Teve ímpetos de tomar entre as mãos a cabeça da afilhada e beijá-la, beijá-la sofregamente, com a fúria de um selvagem, no pescoço, na boca, nos olhos... ímpetos de beijá-la toda inteira, como um doido. Maria dominava-o, fazia-lhe perder a tramontana.

— Então aquele bandido não lhe entregou uma carta por debaixo da mesa, no víspora? Entregou, sim senhora, dê-ma!

— Não senhor, não me entregou coisa alguma, tornou a normalista, sem levantar a cabeça fungando.

Estavam em frente um do outro, ao pé da mesa. As portas da sala já se tinham fechado; ele com o paletó aberto mostrando a camisa de meia cor de carne, o olhar fixo em Maria; ela com o seu vestidinho claro de chita, cabelos penteados numa trança, acaçapada, submissa ante a cólera rude do padrinho.

— Pois bem, concluiu este moderando a voz. Tome sentido: vossemecê não me aparece mais àquele cabrocha, está ouvindo?

E depois duma pausa, com ternura:

— Vá dormir, ande...

Soprou o gás e foi deitar-se com a mulher, na alcova.

— Pois não achas Teté, dizia ele em camisa de dormir, aconchegado à D. Terezinha, na larga cama de jacarandá: não achas que é um desaforo aquele patife vir à nossa casa para namorar?

— Não, que tolice! O Zuza até é um rapaz sério... Vem, coitado, porque nos estima...

— É boa! — fez João. Então vem porque nos estima, hein? Esta cá me fica, Sra. D. Teté, esta cá me fica!

— Homem, trate das suas hemorróidas que é melhor... — Ora, sabe que mais? Você é outra!

E deram-se as costas fazendo ranger a cama.

Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.

Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

CAPÍTULO II

Foi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza, pela estrada nova de Mecejana, depois de penosíssima viagem.

(continua...)

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