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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Logo os sinos da Matriz começaram a repicar alegremente, enchendo o ar de vibrações argentinas. A vila animava-se de repente, como por varinha de condão, saindo da tristeza habitual das ruas desertas e das casas fechadas para povoar-se de homens de paletó preto ou de camisa branca e de mulheres de saia curta e lenço à cabeça. Girândolas de foguetes subiram com estrépito, pondo em delírio de prazer os curumins de calças de riscado novo e camisa de algodão da terra, porfiando na conquista das taquaras que, rodopiando nas alturas, se precipitavam para o chão, ameaçando os transeuntes e espalhando o mulherio.

As ruas enfeitavam-se. Colchas de seda ou de algodão debruçavam-se das janelas, ostentando belas cores vivas, e o adro da Matriz, coberto de folhagem, oferecia a aparência graciosa dum presépio de Natal, as vacas passeando despreocupadamente o alpendre, e as cabras mastigando as folhas de mangueira e os ramos de murta dos arcos de ornamentação. O vapor da Companhia do Amazonas estrugia os ouvidos com o assovio rouco, anunciando a chegada a toda a redondeza, onde repercutia o eco, cutia o eco transmitido às quebradas da cordilheira nas vibrações do ar; e cobria-se de espesso fumo negro, soprado a baforadas do cano vermelho e branco, numa bulha dominadora e altiva. A ancora fora largada ao rio, e as espias e amarras eram levadas em pequenos botes leves, tripulados por marinheiros, que as deviam prender aos marás da praia, a fim de proteger contra a correnteza a manobra de saída. A tripulação e os passageiros do vapor apinhavam-se no tombadilho, uns para fazer o serviço, outros para gozar o espetáculo novo do desembarque solene. Na praia estava muita gente, ou para ir a bordo nas montarias de pesca ou para aguardar o acontecimento, enfiando olhos curiosos pelos postigos do navio, na vaga esperança de avistar o novo vigário da freguesia.

Os tapuios dos sítios, no pensamento de aproveitar uma boa ocasião de negócio, preparavam as igarités para levar a bordo os cestos de laranjas, as bananas, as melancias, os copus-açus, os rouxinóis, canoros, os papagaios tagarelas e os periquitos mimosos de testa amarela e asas brancas. As tapuias da vila também enviavam a oferecer à curiosidade dos passageiros as belas redes de algodão, laboriosamente feitas ao tear os urus de palha colorida, as cuias pintadas e cascos de tartaruga sem préstimo, na esperança de que algum estrangeiro esquisito os comprasse por bom preço.

Macário passava apressado. O ruído das vozes, o barulho do vapor, calmo e grande no meio das montarias e dos botes, davam ao porto de porto de Silves um aspecto anormal de animação que lhe fazia pulsar o coração no peito. Havia vinte anos que se internara no silêncio e na inércia da vida sertaneja. E naquele momento, o barco a vapor, com o seu penacho de fumo e o ruído de ferragens quebradas, com as poderosas rodas imóveis, pintadas de encarnado e preto, com os altos mastros enleados em cordas cruzadas intrincadamente, e a bandeira nacional a tremular à ré, suavemente sacudida pela brisa da manhã, contrastava de modo fantástico com a pobreza de movimento e de vida do vasto lago deserto.

No caminho, Macário encontrara os vereadores da Câmara Municipal e os juízes de paz que iam a bordo cumprimentar o novo vigário, padre Antônio de Morais, que fizera, ao que diziam, brilhantes estudos no Seminário grande do Pará, e recusando a oferta do senhor bispo de o doutorar em S. Sulpício, a expensas da Caixa Pia, preferia vir paroquiar a modesta vila de Silves. Esta informação, trazida pelo imediato do vapor, que desembarcara com as malas do correio, circulava rapidamente e provocara um entusiasmo respeitoso entre as pessoas gradas da terra.

Macário chegara ao porto do desembarque e aí devia esperar essas pessoas para as acompanhar a bordo.

Quando passou pela loja do Costa e Silva, à Rua do Porto, um sujeito baixo, magro, enfezado, fumava cigarros e limpava as unhas, olhando para o lago.

— Bom-dia, seu Chico Fidêncio, disse Macário, tirando o chapéu.

O sujeito respondeu:

— Viva!

Macário seguiu o seu caminho, desapontado. A presença daquele homem ali, naquela ocasião, o incomodava. Foi-se postar a alguma distância, mas não tirou os alhos da loja do Costa e Silva. Três ou quatro rapazes bem vestidos vieram reunirse ao Chico Fidêncio, formando um grupo estranho ao sentimento geral da população de Silves.

Chico Fidêncio passava em revista mordente as pessoas gradas; e comentava o acontecimento do dia com azedume e pilhéria, animado e secundado pelos rapazes que o cercavam e riam a cada palavra dele. As vítimas mostravam-se constrangidas, cumprimentavam a contragosto, sentindo na pele a agudeza dos comentários, e seguiam o seu caminho, levando no ouvido a vibração das risadas zombeteiras dos rapazes roda.

Macário, furioso, ouvia as queixas amargas das pessoas desacatadas.

(continua...)

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