Por Aluísio Azevedo (1881)
E não queria pensar ainda em semelhantes tolices. “Coisas de criança! Coisas de criança!...” Agora, só o que lhe convinha era um marido! “O seu”, o verdadeiro, o lega!! O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava. Precisava de dar-se e dedicar-se a alguém; sentia absoluta necessidade de pôr em ação a competência, que ela em si reconhecia, para tomar conta de uma casa e educar muitos filhos.
Com estes devaneios, acudia-lhe sempre um arrepiozinho de febre; ficava excitada, idealizando um homem forte, corajoso, com um bonito talento, e capaz de matar-se por ela. E, nos seus sonhos agitados, debuxava-se um vulto confuso, mas encantador, que galgava precipícios, para chegar onde ela estava e merecer-lhe a ventura de um sorriso, uma doce esperança de casamento. E sonhava o noivado: um banquete esplêndido! e junto dela, ao alcance de seus lábios, um mancebo apaixonado e formoso, um conjunto de força, graça e ternura. que a seus pés ardia de impaciência e devorava-a com o olhar em fogo.
Depois — via-se dona de casa; pensando muito nos filhos; sonhava-se feliz, muito dependente na prisão do ninho e no domínio carinhoso do manco. E sonhava umas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engraçadas e comovedoras, chamando-lhe “mama!”
— Oh! Como devia ser bom!.. E pensar que havia por ai mulheres que eram contra o casamento!...
Não! Ela não podia admitir o celibato, principalmente para a mulher!... “Para o homem — ainda passava... vivera triste, só; mas em todo o caso — era um homem... teria outras distrações! Mas uma pobre mulher, que melhor futuro poderia ambicionar que o casamento?... que mais legítimo prazer do que a maternidade; que companhia mais alegre do que a dos filhos, esses diabinhos tão feiticeiros?..” Além de que, sempre gostara muito de crianças: muita vez pedira a quem as tinha que lhas mandasse a fazer-lhe companhia, e, enquanto as pilhava em casa, não consentia que mais ninguém se incomodasse com elas; queria ser a própria a dar-lhes a comida, a lavá-las, a vesti-las, e acalentá-las E estava constantemente a talhar camisinhas e fraldas, a fazer toucas e sapatinhos muita lá, com muito amor, justamente como, em pequenina, ela fazia com as suas bonecas. Quando alguma de suas amigas se casava, Ana Rosa exigia dela sempre um cravo do ramalhete ou um botão das flores de laranjeira da grinalda; este ou aquele, pregava-os religiosamente no seio com um dos alfinetes dourados da noiva, e quedava-se a fitá-los, cismado, até que dos lábios lhe partia um suspiro longo, muito longo, como o do viajante que em meio do caminho já se sente cansado e ainda não avista o lar.
Mas o noivo por onde andava que não vinha? Esse belo mancebo, tão ardente e tão apaixonado, por que se não apresentava logo? Dos homens que Ana Rosa conhecia na província nenhum decerto podia ser!... E, no entanto, ela amava...
A quem?
Não sabia dizê-lo, mas amava. Sim! Fosse a quem fosse, ela amava; porque sentia vibrar-lhe todo o corpo, fibra por fibra, pensando nesse - Alguém - íntimo e desconhecido para ela; esse — Alguém — que não vinha e não lhe saia do pensamento, esse — Alguém — cuja ausência a fazia infeliz e lhe enchia a existência de lágrimas.
Passaram-se meses — nada! Correram três anos. Ana Rosa principiou a emagrecer visivelmente. Agora dormia menos; estava pálida; à mesa mal tocava nos pratos.
— O pequena, tu tens alguma coisa! disse-lhe um dia o pai, já incomodado com aquele ar doentio da filha. Não me pareces a mesma! Que é isso, Anica? Não era nada!...
E Ana Rosa sobressaltava-se, como se tivera cometido uma falta. “Cansaço!
Nervos! Não era coisa que valesse a pena!... “ Mas chorava.
— Olha! Ai temos! Agora o choro! Nada! É preciso chamar o médico! — Chamar o médico?... Ora papai, não vale a pena!...
E tossia. “Que a deixassem em paz! Que não a estivessem apoquentando com perguntas!...”
E tossia mais, sufocada.
— Vês?! Estas achacada! Levas nesse “Churra, chrum! chrum chrum!” E é só “Não vale a pena! Não precisa chamar o médico!...' Não senhora! com moléstias não se brinca!
O médico receitou banhos de mar na Ponta d'Areia.
Foi um tempo delicioso para ela os três meses que ai passou. Os ares da costa, os banhos de choque, os longos passeios a pé, restituíram-lhe o apetite e enriqueceram-lhe o sangue Ficou mais forte; chegou a engordar.
Na Ponta d'Areia travara uma nova amizade — D. Eufrasinha. Viúva de um oficial do quinto de infantaria, batalhão que morreu todo na Guerra do Paraguai. Muito romântica: falava do marido requebrando-se, e poetizava-lhe a curta história: “Dez dias depois de casados, seguira ele para o campo de batalha e, no denodo da sua coragem, fora atravessado por uma bala de artilharia, morrendo logo a balbuciar com o lábio ensangüentado o nome da esposa estremecida.”
E com um suspiro, feito de desejos mel satisfeitos, a viúva concluía pesarosa que “prazeres nesta vida, conhecera apenas dez dias e dez noites...”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.