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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Não o fiz por mim, mas só por minha filha, a minha Palmira, a flor mimosa dos verdadeiros encantos da minha vida de moça, o ser único a quem neste mundo dei, até certo momento da velhice, todo inteiro o meu coração, a quem dei todo o meu amor, sem a mais ligeira reserva de ternura e se a menor hipocrisia nos sorrisos e nos beijos. Amei-a mesmo antes que ela nascesse, amei-a cada vez mais durante a existência, e creio que ainda a amaria sempre depois da sua morte. Nunca neste amor descobri as falhas de tédio, de cansaço, e até de absoluto enjôo, que infelizmente, logo desde o começo da minha vida conjugal, descobri no amor que eu votava ao meu bom e querido esposo. No meio do maior aborrecimento, no mais ingrato instante das horas de desânimo, a presença de minha filha era sempre uma consolação e um repouso; nunca beijo nenhum que ela me deu foi inoportuno; nunca as suas carícias chegaram fora de propósito, e nunca deixaram de produzir em minha alma o mesmo delicioso efeito de suave refrigério. Entretanto, quantas vezes, ainda na lua-de-mel, não me revoltei contra mim mesma e não amaldiçoei as rebeldias do meu coração, por não poder evitar que, a despeito da minha traiçoeira afabilidade externa, o enojo repelisse no meu íntimo as carícias que nessa ocasião me dava meu marido?!

Ah! ele não percebia a verdade, porque eu com uma hipocrisia, que nesse tempo acreditava honesta e generosa; uma hipocrisia, que eu supunha fazer parte dos meus deveres de boa esposa, obrigava meus olhos, meus lábios, meus braços, meu corpo inteiro, a mentirem, representando sem vontade essa coisa inconfessável, ignóbil, que me tinham feito acreditar, secretamente, que era “o amor”. Que blasfêmia! e mais — que era “o matrimônio”. Que desilusão!

Oh! quantos sorriso, quantos suspiros de volúpia e quantos beijos dados por mentira, meu Deus! Oh! quanto me prostituí nos braços de meu marido!

E que vergonha, que repugnância, dele e de mim própria, não me assaltaram quando descobri que com Virgílio se dava a mesma coisa a meu respeito; e que ambos nós, procurando iludir um ao outro, representávamos cada qual no seu transporte a mesma degradante comédia de amor? Quantas vezes percebi que seu espírito bocejava de tédio, enquanto seus lábios me cobriam de beijos fervorosos? Mentirá todo aquele e mentirá toda aquela que disser que a presença de sua esposa, ou que a presença de seu marido, lhe foi sempre agradável; e mentirá, se não confessar que muita vez se prestou a satisfazer os desejos do cônjuge com sacrifício de todo o seu ser.

Éramos já dois desgraçados, e dali em diante começamos a ser duas vítimas e dois verdugos recíprocos, chumbados à mesma dor e à mesma crueldade, a torturarem-se, a devorarem-se num estreito abraço de extermínio.

Oh! definitivamente não podíamos continuar a viver juntos! E no entanto, eu amava meu marido, e sei que era amada por ele. Nenhum casal até hoje se estimou e respeitou mais do que nós no foro íntimo da sua alma. Juro que tínhamos em segredo um pelo outro a maior e mais sincera consideração, e que ambos, de parte a parte, apesar dos constantes atritos, fazíamos de cada qual o mais alto e digno conceito. Mas juro também que muita vez me senti verdadeiramente desgraçada nos seus braços, e ele nos meus; e que por último, muitas e muitas vezes nos injuriamos, com as mais duras palavras de desprezo, quando, no fundo da consciência, julgávamos mutualmente o contrário do que blasfemávamos.

Que singular monstruosidade!

E não me venham dizer que nos amávamos só com a razão e não com os sentidos. Vou copiar fielmente um fragmento das notas póstumas de meu esposo, onde o contrário se acha bem demonstrado. O que adiante se segue escreveu ele já depois da nossa disjunção, longe de mim, na Itália, poucos anos antes de morrer.

Descobri essas notas entre os papéis do seu espólio. Sem as transcendentes revelações que elas me depararam, é natural que nunca chegassem minhas pesquisas filosóficas a qualquer resultado, e nunca me animasse eu a empreender este doloroso manuscrito.

Atenção! É Virgílio quem agora fala:

CAPÍTULO III

Sim! minha mulher foi a única mulher que amei. Em meio do maior enjôo da vida doméstica, sentia eu perfeitamente, no âmago da minha consciência, que nenhuma outra valia tanto como Olímpia, quer no físico, quer no moral e até no intelectual; sentia que, se ela não fosse minha esposa, minha companheira obrigada de cama e mesa, de todo o instante, havia de desejá-la apaixonadamente; sentia, adivinhava que, se eu viesse um dia a deixar de possuí-la, como fatalmente sucedeu, havia de sofrer muito, como efetivamente sofri, sem nunca mais encontrar mulher que a substituísse ou que lograsse fazer-me-ia esquecer.

(continua...)

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