Por Aluísio Azevedo (1894)
Com a sua morte desencadeia-se o feudalismo militar que ele sistematizara, e desde essa época até 1573, tendo tido vinte e seis micados e vinte e quatro shoguns, o Japão mal encontra alguns momentos de refolga entre as implacáveis guerras civis que o dilaceram. O militarismo degenera em paixão e invade às raias da vesânia, lavra por todas as classes, apodera-se de todos os espíritos, e a nação inteira desfalece moralmente arriscando retroceder as tontas para o barbarismo primitivo; desaparecem os artistas, desaparecem os obreiros, a gleba corrompe-se e pega em armas; os poetas arribam da pátria com as asas sujas de sangue, e até os sacerdotes, os meigos bonzos de crânio raspado e túnica branca, dantes fechados na sua fé sinistra que lhes vedava comer carne, beber licores e tocar em mulheres, endurecem de alma e fazem-se guerrilheiros; os santuários do budismo convertem-se em fortalezas e arsenais; o monastério de Higeizen, maior de todos, às margens quietas do formoso lago de Biwa, com os seus quinhentos templos boscarejados de sagradas cliptomérias, transforma-se em reduto inexpugnável, onde as súplicas do próprio Micado são repelidas com duras blasfêmias e pedradas. Alguns japoneses, caindo de fome, vendem-se então como escravos para as Filipinas e para a China, levando olhos e alma consumidos de fitarem inutilmente o frio espelho de Amateras, a deusa-mãe degenerada.
E nesse largo e negro período de decomposição geral que os militantes samurais, homens d'armas, com direito a usar duas espadas e direito a deixar crescer a barba, se desenvolvem e consubstanciam numa classe privilegiada e turbulenta, podendo comer, beber e dormir pelas locandas e hospedarias de todo o país sem obrigação de pagar os gastos, pronto sempre a qualquer deles a castigar com a morte o kuli ou plebeu que ousasse contrariá-lo no meio das suas correrias e aventuras soltas. Como desdobramento espúrio dessa classe de fundo cavaleiresco em que, seja dito com justiça, havia por vezes mau grado a dura escuridão dos tempos, altruísmo nacional e nobreza de sentimentos, esgalhou a facção fragueira dos roninos, homens que não são já soldados, mas nem por isso menos ardidos e belicosos; gente de arma encoberta e arbitrária, mas com quem podiam os príncipes senhoriais contar em caso de guerra, transformando em instrumento de ação política o que era desclassificado produto do meio corrompido; fatores e auxiliares inconscientes, ora do bem, ora do mal, vigoroso elemento étnico, cujo naturalismo heróico se dispersava à toa numa exaltação brigalhona e constante, às vezes generosa, quase sempre porém inconfessável e perversa, porque lhes faltava, a esses como aos seus originadores, o sustinente ideal piedoso que continha na mesma época os seus congêneres ocidentais, pondo ao lado da espada ensangüentada desses tempos cruéis o lírio místico da fé cristã. Mas, nos curtos intervalos da guerra, dessa guerra civil que durou perto de quatro séculos; o ronino volvia-se salteador e pirata, ao passo que o samurai, depostas transitoriamente as duas espadas, ia para o campo administrar a própria fazenda e criar os filhos para dá-los depois ao seu príncipe e senhor, ensinando-lhes desde o berço que os deveres da vida militar são carga pesada como as armas e que a morte nas batalhas é leve como a pluma.
Esta desoladora situação, em que o país esteve prestes a desfazer-se em sangue, e em que apenas prosperaram os artefatos e produtos industriais concernentes à arte da guerra, só veio a ceder, esbarrando de encontro à ação bravia de três grandes vultos consecutivos: Nobunaga Taiko Sama - Ieiás, e dissolvendo-se enfim de todo contra a maquiavélica resistência do último destes, que é incontestavelmente o maior homem do Japão medieval, como por si mesmo julgará o leitor, se tiver a paciência de ler o seguinte capítulo.
2o Capitulo
NOBUNAGA - TAIKO~SAMA - IEIAS
Nobunaga, filho do príncipe de Owai, é um espírito claro e forte, porém ímpio, servido por uma vontade enérgica e resoluta. Bate em 1573 a poderosa família Achikanga, que então mantinha no poder o seu décimo quinto shogun por ela imposto — Yochi Aki, e alça mão das rédeas do Estado, fazendo-se "Daijin" ou Grande Ministro do Interior.
Como subiu em luta aberta com os daimos, cuja supremacia militar tem em mira destruir em favor do poder áulico, desiste da eleição shogunal, mas também não consente que elejam outro, deixando vago esse cargo que depois de Yoritomo não havia sofrido interrupção, e entra a governar em nome diretamente do Imperador, a quem assim consegue soerguer um pouco do fundo rebaixamento político em que o tinha deixado o feudalismo militante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O Japão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7416 . Acesso em: 24 mar. 2026.