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#Contos#Literatura Brasileira

O carro 13

Por Machado de Assis (1868)

— É por isso que eu lamento ter escrito aquela carta, disse Amaro suspirando.

— Olha que parvo! exclamou Marcondes. Por que motivo há de Deus dar nozes a quem não tem dentes?

— Acreditas que ela responda?

— Se responde! Eu estou traquejado nisto, meu rico!

— Que responderá ela?

— Mil coisas bonitas.

— Afinal em que dará tudo isto? perguntou Amaro. Eu creio que ela gosta de mim... Não te parece?

— Já te disse que sim!

— Estou ansioso por ver a resposta.

— E eu também...

Marcondes dizia consigo mesmo:

— Era bem bom que eu tomasse para mim este romance, porque o palerma estraga tudo. Amaro percebeu que o amigo hesitava em dizer-lhe alguma coisa.

— Em que pensas? perguntou-lhe.

— Penso que tu és um palerma; e sou capaz de continuar o teu romance por minha conta.

— Isso não! já agora deixa-me acabar. Vamos ver que resposta vem.

— Quero que me ajudes, sim?

— Pronto, com a condição de que não hás de ser tolo.

Separaram-se.

Amaro foi para casa, e tarde conciliou o sono. A história das cartas enchia-lhe o espírito; imaginava a mulher misteriosa, construía dentro de si uma figura ideal; dava-lhe cabelos de ouro...

VII

A próxima carta da misteriosa mulher era um hino de amor e de alegria; ela agradecia ao seu amado aquelas linhas; prometia que só deixaria a carta quando morresse. Havia porém dois períodos que aguaram o prazer de Amaro Faria. Um dizia assim: Há dias vi-o passar na rua do Ouvidor com uma família. Disseram-me que o senhor vai casar com uma das moças. Sofri horrivelmente; vai casar, quer dizer que a ama... e esta certeza mata-me!

O outro período pode resumir-se a estes termos:

Quanto ao pedido que me faz de querer ver-me, respondo-lhe que não há de ver-me nunca; nunca, ouviu? Basta que saiba que eu o amo, muito mais do que há de amá-lo a viúva Antonina. Perca a esperança de ver-me.

— Estás vendo, disse Amaro Faria a Marcondes mostrando-lhe a carta, está tudo perdido.

— Oh! pateta! disse-lhe Marcondes. Tu não vês que esta mulher não diz o que sente? Pois acreditas que isto seja a expressão exata do pensamento dela? Acho a situação excelente para responderes; trata bem o período do teu casamento, e insiste de novo no desejo de contemplá-la.

Amaro Faria aceitou facilmente este conselho; o seu espírito o predispunha para aceitá-lo. No dia seguinte uma nova epístola do fazendeiro da Soledade foi para a caixa do correio. Os pontos capitais da carta foram tratados por mão de mestre. O instinto de Amaro supria-lhe a experiência.

Quanto à noiva, dizia ele que era exato que ia casar-se, e que naturalmente a moça com quem o viu a sua incógnita amadora era Antonina; entretanto, se era certo que o casamento fazia-se por inclinação, não era de estranhar que um novo amor viesse substituir aquele; e a própria demora do enlace era uma prova de que o destino lhe preparava uma felicidade maior no amor da autora das cartas.

Por fim, Amaro pedia instantemente para vê-la, ainda que fosse um minuto, porque, dizia ele, queria guardar as feições que devia adorar eternamente.

A incógnita respondeu, e a carta dela era um composto de expansões e reticências, protestos e negativas.

Marcondes animava o abatido e recruta Amaro Faria, que em mais duas cartas resumiu a maior força de eloqüência de que podia dispor.

A última produziu o desejado efeito. A misteriosa correspondente terminava a sua resposta com estas textuais palavras:

Consinto em que me veja, mas apenas um minuto. Irei com a minha criada, antes amiga que criada, em um carro, no dia 15, esperá-lo na praia do Flamengo, às sete horas da manhã. Para que se não engane, o carro tem o número 13; é o de um cocheiro que já esteve ao meu serviço.

— Que te dizia eu? perguntou Marcondes ao amigo quando este lhe mostrou esta resposta. Se não estivesse eu aqui lá se te ia por água abaixo este romance. Meu caro, dizem que a vida é um caminho cheio de espinhos e flores; se é assim, acho tolice que um homem não apanhe as flores que encontra.

Desta vez Marcondes pôde fazer tranqüilamente o discurso; porque Amaro Faria, todo entregue às emoções que a carta lhe produzia, não procurou atalhá-lo.

— Enfim, hoje são 13, disse Marcondes; 15 é o dia marcado. Se for bonita como diz, vê se foges com ela; o paquete do Rio da Prata sai a 23, e a tua fazenda é um quadrilátero.

— Vê que letra fina! e que perfume!

— Não tem dúvida; é uma mulher elegante. O que eu desejo é saber o resultado; no dia 15 vou esperar em tua casa.

— Sim.

VIII

Rompeu finalmente o dia 15, ansiosamente esperado por Amaro Faria. O jovem fazendeiro perfumou-se e enfeitou-se o mais que pôde. Estava adorável. Depois de um último olhar lançado ao espelho, Amaro Faria saiu e entrou num tílburi. Tinha calculado o tempo de lá chegar; mas, como todo o namorado, chegou um quarto de hora antes.

Deixou o tílburi a certa distância, e entrou a passear ao longo da praia. De cada vez que assomava um carro ao longe, Amaro Faria sentia-se enfraquecer; mas o carro passava, e em vez do número feliz trazia um 245 ou 523, que o deixava em profunda tristeza.

(continua...)

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