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#Anedotas#Literatura Brasileira

O capitão Mendonça

Por Machado de Assis (1870)

— Não saí de propósito, disse-me ele; contava que viesse, e queria dar-lhe o espetáculo de uma composição química. Trabalhei o dia todo para preparar os ingredientes. Augusta recebeu-me com uma graça verdadeiramente adorável. Beijei-lhe a mão como se fazia antigamente às senhoras, costume que se trocou pelo aperto de mão, aliás digno de um século grave.

— Tive saudades suas, disse-me ela.

— Sim?

— Aposto que as não teve de mim?

— Tive.

— Não acredito.

— Por quê?

— Porque eu não sou filha bastarda. Todas as outras mulheres são filhas bastardas, eu só posso gabar-me de ser filha legítima, porque sou filha da ciência e da vontade do homem.

Não me admirava menos a linguagem que a beleza de Augusta. Evidentemente era o pai quem lhe incutia semelhantes idéias. A teoria que ela acabava de expor era tão fantástica como o seu nascimento. O certo é que a atmosfera daquela casa já me punha no mesmo estado que os dois habitantes dela. Foi assim que alguns segundos depois repliquei:

— Conquanto eu admire a ciência do capitão, lembro-lhe que ainda assim ele não fez mais do que aplicar elementos da natureza à composição de um ente que até agora parecia excluído da ação dos reagentes químicos e dos instrumentos de laboratório.

— Tem razão até certo ponto, disse o capitão; mas acaso sou eu menos admirável?

— Pelo contrário; e nenhum mortal até hoje pode gabar-se de ter ombreado com o senhor.

Augusta sorriu agradecendo-me. Notei mentalmente o sorriso, e parece que a idéia transluziu no meu rosto, porque o capitão, sorrindo também, disse:

— A obra saiu perfeita, como vê, depois de muitos ensaios. O penúltimo ensaio era completo, mas faltava uma coisa à obra; e eu queria que ela saísse tão completa como a que o outro fez.

— Que lhe faltava então? perguntei eu.

— Não vê, continuou o capitão, como Augusta sorri de contente quando lhe fazem alguma alusão à beleza?

— É verdade.

— Pois bem, a penúltima Augusta que me saiu do laboratório não tinha isso; esquecera me incutir-lhe a vaidade. A obra podia ficar assim, e estou que seria, aos olhos de muitos, mais perfeita do que esta. Mas eu não penso assim; o que eu queria era fazer uma obra igual à do outro. Por isso, reduzi outra vez tudo ao estado primitivo, e tratei de introduzir na massa geral uma dose maior de mercúrio.

Não creio que o meu rosto me traísse naquele momento; mas o meu espírito fez uma careta. Estava disposto a crer na origem química de Augusta, mas hesitava ouvindo os pormenores da composição.

O capitão continuou, olhando ora para mim, ora para a filha, que parecia extasiada ouvindo a narração do pai:

— Sabe que a química foi chamada pelos antigos, entre outros nomes, ciência de

Hermes. Acho inútil lembrar-lhe que Hermes é o nome grego de Mercúrio, e mercúrio é o nome de um corpo químico. Para introduzir na composição de uma criatura humana a consciência, deita-se no alambique uma onça de mercúrio. Para fazer a vaidade dobra-se a dose do mercúrio, porque a vaidade, segundo a minha opinião, não é mais que a irradiação da consciência; à contração da consciência chamo eu modéstia.

— Parece-lhe então, disse eu, que homem vaidoso é aquele que recebeu uma grande dose de mercúrio no seu organismo?

— Sem dúvida nenhuma. Nem pode ser outra coisa; o homem é um composto de moléculas e corpos químicos; quem os souber reunir tem alcançado tudo.

— Tudo?

— Tem razão; tudo, não; porque o grande segredo consiste em uma descoberta que eu fiz e constitui por assim dizer o princípio da vida. Isso é que há de morrer comigo.

— Por que não o declara antes para adiantamento da humanidade? O capitão levantou os ombros desdenhosamente; foi a única resposta que obtive. Augusta tinha-se levantado e foi ao piano tocar alguma coisa que me pareceu ser uma sonata alemã. Eu pedi licença ao capitão para fumar um charuto, enquanto o moleque veio receber ordens relativas ao chá.

IV

Acabado o chá, disse-me o capitão:

— Doutor, preparei hoje uma experiência em honra sua. Sabe que o diamante não é mais que o carvão de pedra cristalizado. Há tempos tentou um sábio químico reduzir o carvão de pedra a diamante, e li num artigo de revista que conseguiria apenas compor um pó de diamante, e nada mais. Eu alcancei o resto; vou mostrar-lhe um pedaço de carvão de pedra e transformá-lo em diamante.

Augusta bateu palmas de contente. Admirado dessa alegria súbita, perguntei-lhe sorrindo a causa.

— Gosto muito de ver uma operação química, respondeu ela.

— Deve ser interessante, disse eu.

— E é. Não sei até se papai era capaz de me fazer uma coisa.

— O que é?

— Eu lhe direi depois.

Dai a cinco minutos estávamos todos no laboratório do capitão Mendonça, que era uma sala pequena e escura, cheia dos instrumentos competentes. Sentamo-nos, Augusta e eu, enquanto o pai preparava a transformação anunciada.

(continua...)

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