Por Machado de Assis (1866)
Chico Teles, porém, apesar do seu amor às ordens de cima, teve uma idéia infernal: a de dar de mate à influência de Tobias, substituindo o último nome da lista, por outro de sua escolha: desde que o seu candidato fosse eleito estava morto o Tobias.
O caso era arriscado, e o menos que lhe poderia acontecer era a demissão do cargo, depois de acabadas as eleições.
Mas Chico Teles fiava-se em duas coisas: primeiramente no tato com que arranjaria as coisas, de modo a saber-se tarde da sua traição; depois na influência que gozava ma vila. A vitória da irmandade de S. Francisco tinha-lhe inchado muito os odres da vaidade, e o subdelegado já se dava ares de Júpiter Tonante.
Quem seria o candidato? Aqui estava a dificuldade. Chico Teles não queria abrir-se com qualquer dos homens principais do lugar, sem estar certo do ocorrido. Teve uma idéia: convidar o sr. Anselmo, redator do Azorrague, para uma liga da qual resultaria vencer a chapa governista, e dar baque à influência de Tobias.
Foi, com efeito, à casa do jornalista.
— V. S. por aqui?! exclamou o sr. Anselmo.
— É verdade, meu caro, apesar das nossas dissidências. Venho propor-lhe uma liga.
— Uma liga! para quê?
— Promete que, no caso mesmo em que não aceite a proposta, nada revelará?
— Prometo.
— Pois bem. É chegada a ocasião de dar baque ao Tobias. A vila não pode continuar mais a suportar um ente nulo, desprovido dos recursos intelectuais, sem amor ao bem público, antítese do cargo que lhe conferiu o voto popular...
Chico Teles, sem querer, estava repetindo o artigo que na véspera publicara na Atalaia, o que fez sorrir o sr. Anselmo.
— Mas, enfim, que quer V. S.?
— É simples: quer o senhor ser deputado?
— Eu?
— Sim, é meu candidato; eu suprimo o último nome da lista mandada pelo presidente, e faço elegê-lo. Quer?
— Não posso, sr. Teles; eu não me ligo, nem a V. S. nem ao juiz de paz. Eu estou só, e não ambiciono cargo algum na república.
— Mas eu não lhe falo em república... Não é uma revolução o que quero fazer...
O sr. Anselmo sorriu.
Nisto entrava um tipógrafo com provas do Azorrague, para o sr. Anselmo.
— Olhe, disse este, veja se eu posso ligar-me a algum dos senhores. Eis o que eu digo de ambos amanhã:
A vila vai naturalmente gozar de um espetáculo raro e de graça: é a luta eleitoral entre os srs. Teles e Tobias. Já na irmandade de S. Francisco deu-se uma amostra do que podem valer estes dois indivíduos; mas agora há de ser melhor. Ora, a população e o governo podem praticar um ato edificante e patriótico: é mandar passear os dois contendores...
O sr. Anselmo ainda lia, e já Chico Teles batia longe, fulo de raiva.
CAPÍTULO VII
Chegando à casa Chico Teles começou a refletir; estava desarmado; dali em diante o sr. Anselmo podia atacá-lo por todos os modos; ele não podia responder... Entretanto, era preciso a todo o custo achar um candidato; Chico Teles continuou a trabalhar para descobri-lo, até que bate com a mão na testa, exclamando:
— Achei!
Mandou chamar Alfredo, e disse-lhe:
— Meu filho, vou propor-te uma idéia grandiosa.
— Fale meu pai.
— Quais são as tuas ambições?
— Casar-me com a filha do Tobias.
— Mau! já te disse que não olhes para ali. Ligar-me eu a um Tobias, não faltava mais nada!
— Mas o que eu te pergunto é se não tens aspirações políticas?
— Isso...
— Tens, deves ter.
— Por que pergunta? disse Alfredo com algum interesse.
— Queres ser deputado?
— Deputado!
— Geral. — Queres ir ao Rio de Janeiro, falar da tribuna, interpelar os ministros, deitá-los abaixo e quem sabe? ser tu mesmo conselheiro da coroa?
— Mas como?
— Já te vás interessando. Como? É facílimo. Queres?
— Quero, decerto.
— Pois conta com o diploma.
E Teles entrou a explicar ao filho o seu pensamento, pedindo-lhe o maior segredo. O plano assentado foi que Alfredo se apresentaria candidato, ao passo que o pai defenderia a lista vinda do presidente, parecendo assim achar-se em oposição ao filho; isto era apenas para iludir o presidente e o ministério, até depois da eleição. O essencial era que as personagens da vila soubessem do caso, a fim de ter a derrota de Tobias todo o valor.
Alfredo era tão vaidoso quanto seu pai; aceitou a candidatura, parecendo-lhe até que esse seria um meio fácil de se aproximar da filha do Tobias.
— Desde que eu for deputado, o juiz de paz abate as bandeiras e eu caso me...
As eleições estavam próximas. Os candidatos começavam a aparecer e a visitar as influências; formaram-se as listas de eleitores, e cada um dos dois contendores fez a sua, escrevendo para o presidente que respondia pelos homens escolhidos. O único que entrara em ambas era o padre vigário. Este vigário vivia em paz no meio do temporal, graças aos sistema que adotara de jantar alternativamente com os dois heróis, aos quais distribuía exortações de paz e de concórdia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Teles e o Tobias. Semana Ilustrada. Rio de Janeiro, 1866.