Por Machado de Assis (1868)
Mas um pedicuro que se achava perto de ambos ouviu o dito, e nunca mais perdeu de vista o infeliz Vasconcelos, a quem a cousa mais indiferente incomodava. O olhar persistente do pedicuro aborreceu-o tanto, que Vasconcelos saiu.
Entrou no Hotel de Milão, para jantar. Por mais preocupado que ele estivesse, a exigência do estômago não se demorou.
Ora, no meio do jantar lembrou-lhe aquilo que não devia ter-lhe saído da cabeça: o pedido de casamento feito nessa tarde por Gomes.
Foi um raio de luz.
"Gomes é rico, pensou Vasconcelos; o meio de escapar a maiores desgostos é este; Gomes casa-se com Adelaide, e como é meu amigo não me negará o que eu precisar. Pela minha parte procurarei ganhar o perdido... Que boa fortuna foi aquela lembrança do casamento!
Vasconcelos comeu alegremente; voltou depois ao Alcazar, onde alguns rapazes e outras pessoas fizeram esquecer completamente os seus infortúnios.
Às três horas da noite Vasconcelos entrava para casa com a tranqüilidade e regularidade do costume.
Capítulo IV
No dia seguinte o primeiro cuidado de Vasconcelos foi consultar o coração de Adelaide. Queria porém fazê-lo na ausência de Augusta. Felizmente esta precisava de ir ver à Rua da Quitanda umas fazendas novas, e saiu com o cunhado, deixando a Vasconcelos toda a liberdade.
Como os leitores já sabem, Adelaide queria muito ao pai, e era capaz de fazer por ele tudo. Era, além disso, um excelente coração. Vasconcelos contava com essas duas forças.
- Vem cá, Adelaide, disse ele entrando na sala; sabes quantos anos tens? - Tenho quinze.
- Sabes quantos anos tem tua mãe?
- Vinte e sete, não é?
- Tem trinta; quer dizer que tua mãe casou-se com quinze anos.
Vasconcelos parou, a fim de ver o efeito que produziam estas palavras; mas foi inútil a expectativa; Adelaide não compreendeu nada.
O pai continuou:
- Não pensaste no casamento?
A menina corou muito, hesitou em falar, mas como o pai instasse, respondeu:
- Qual, papai! Eu não quero casar...
- Não queres casar? É boa! por quê?
- Porque não tenho vontade, e vivo bem aqui.
- Mas tu podes casar e continuar a viver aqui...
- Bem; mas não tenho vontade.
- Anda lá... Amas alguém, confessa.
- Não me pergunte isso, papai... eu não amo ninguém.
A linguagem de Adelaide era tão sincera que Vasconcelos não podia duvidar.
- Ela fala a verdade, pensou ele; é inútil tentar por esse lado... Adelaide sentou-se ao pé dele, e disse:
- Portanto, meu paizinho, não falemos mais nisso...
- Falemos, minha filha; tu és criança, não sabes calcular. Imagina que eu e a tua mãe morremos amanhã. Quem te há de amparar? Só um marido.
- Mas se eu não gosto de ninguém...
- Por ora; mas hás de vir a gostar se o noivo for um bonito rapaz, de bom coração... Eu já escolhi um que te ama muito, e a quem tu hás de amar.
Adelaide estremeceu.
- Eu? disse ela, Mas... quem é?
- É o Gomes.
- Não o amo, meu pai...
- Agora, creio; mas não negas que ele é digno de ser amado. Dentro de dous meses está apaixonada por ele.
Adelaide não disse palavra. Curvou a cabeça e começou a torcer nos dedos uma das tranças bastas e negras. O seio arfava-lhe com força; a menina tinha os olhos cravados no tapete.
- Vamos, está decidido, não? perguntou Vasconcelos.
- Mas, papai, e se eu for infeliz?...
- Isso é impossível, minha filha; hás de ser muito feliz; e hás de amar muito a teu marido.
- Oh! papai, disse-lhe Adelaide com os olhos rasos de água, peço-lhe que não me case ainda...
- Adelaide, o primeiro dever de uma filha é obedecer a seu pai, e eu sou teu pai. Quero que te cases com o Gomes; hás de casar.
Estas palavras, para terem todo o efeito, deviam ser seguidas de uma retirada rápida. Vasconcelos compreendeu isso, e saiu da sala deixando Adelaide na maior desolação.
Adelaide não amava ninguém. A sua recusa não tinha por ponto de partida nenhum outro amor; também não era resultado de aversão que tivesse pelo seu pretendente.
A menina sentia simplesmente uma total indiferença pelo rapaz. Nestas condições o casamento não deixava de ser uma odiosa imposição. Mas que faria Adelaide? a quem recorreria?
Recorreu às lágrimas.
Quanto a Vasconcelos, subiu ao gabinete e escreveu as seguintes linhas ao futuro genro:
Tudo caminha bem; autorizo-te a vires fazer a corte à pequena, e espero que dentro de dous meses o casamento esteja concluído.
Fechou a carta e mandou-a.
Pouco depois voltaram de fora Augusta e Lourenço.
Enquanto Augusta subiu para o quarto da toilette para mudar de roupa, Lourenço foi ter com Adelaide, que estava no jardim.
Reparou que ela tinha os olhos vermelhos, e inquiriu a causa; mas a moça negou que fosse de chorar.
Lourenço não acreditou nas palavras da sobrinha, e instou com ela para que lhe contasse o que havia.
Adelaide tinha grande confiança no tio, até por causa da sua rudeza de maneiras. No fim de alguns minutos de instâncias, Adelaide contou a Lourenço a cena com o pai.
- Então, é por isso que estás chorando, pequena?
- Pois então? Como fugir do casamento?
- Descansa, não te casarás; eu te prometo que não te hás de casar... A moça sentiu um estremecimento de alegria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.