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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Se a topava à janela, - raro evento,

Que o pai, varão de bolsa e qualidade,

Que repousava das fadigas longas

Havidas no mercado de africanos,

Era um tipo de sólidas virtudes

E muita experiência. Poucas vezes

Ia à rua. Nas horas de fastio,

A jogar o gamão, ou recostado

Com um vizinho, a tasquinhar nos outros,

Sem trabalho maior, passava o tempo.

V

Ora, em certo domingo, houve luzida

Festa de cavalhadas e argolinhas,

Com danças ao ar livre e outros folgares,

Recreios do bom tempo, infância d´arte,

Que o progresso apagou, e nós trocamos

Por brincos mais da nossa juventude

E melhores decerto; tão ingênuos,

Tão simples, não. Vão longe aquelas festas,

Usos, costumes são que se perderam,

Como se hão de perder os nossos de hoje,

Nesse rio caudal que tudo leva

Impetuoso ao vasto mar dos séculos.

VI

Abalada a cidade, quase tanto

Como nos dias da solene festa

Da grande aclamação, de que inda falam [15]

Com saudade os muchachos de outro tempo,

Varões agora de medida e peso,

Todo o povo deixara as casas suas.

Grato ensejo era aquele. Resoluto

A correr desta vez uma argolinha,

O intrépido mancebo empunha a lança

Dos combates, na fronte um capacete

De longa, verde, flutuante pluma,

Escancha-se no dorso de um cavalo

E armado vai para a festiva guerra.

VII

Ia a passo o corcel, como ia a passo

Seu pensamento, certo da conquista,

Se ela visse o brilhante cavaleiro

Que, por amor daqueles belos olhos,

Derrotar prometia na estacada

Um cento de rivais. Subitamente

Vê apontar a ríspida figura

Do ríspido negreiro; a esposa o segue,

E logo atrás a suspirada moça,

Que lentamente e plácida caminha

Com os olhos no chão. Corpilho a veste

De azul veludo; a manga arregaçada

Até à doce curva, o braço amostra

Delicioso e nu. A indiana seda

Que a linha mão de moça arregaçava,

Com aquela sagaz indiferença

Que o demo ensina às mais singelas damas.

A furto lhe mostrou, breve e apertado

No sapatinho fino, o mais gracioso,

O mais galante pé que inda há nascido

Nestas terras: - tacão alto e forrado

De cetim rubro lhe alteava o corpo,

E airoso modo lhe imprimia ao passo.

VIII

Ao brioso corcel encurta as rédeas

Vasco, e detém-se. A bela ia caminho

E iam com ela seus perdidos olhos,

Quando (visão terrível!) a figura

Pálida e comovida lhe aparece

Do Freire, que, como ele namorado,

Contempla a dama a suspirar por ela.

Era um varão distinto o honrado Freire,

Tabelião da terra, não metido

Nas arengas do bairro. Pouco amante

Dessa glória que tantas vezes fulge

Quando os mortais merecedores dela

Jazem no eterno pó, não se ilustrara

Com atos de bravura ou de grandeza,

Nem cobiçara as distinções do mando.

Confidente supremo dos que à vida

Dizem o último adeus, só lhe importava

Deitar em amplo in folio as derradeiras

Vontades do homem, repartir coa pena

Pingue ou magra fazenda, já cercada

De farejantes corvos, - grato emprego

A um coração filósofo, e remédio

Para matar as ilusões no peito.

Certo, ver o usuário, que a riqueza

Obteve à custa dos vinténs do próximo,

Comprar a eterna paz na eterna vida

Com biocos de póstumas virtudes;

Em torno dele contemplar ansiados

Os que, durante longo-áridos anos,

De lisonjas e afagos o cercaram;

Depois alegres uns, sombrios outros,

Conforme foi silencioso ou grato

O abastado defunto, -emprego e esse

Pouco adequado a jovens e a poetas.

IX

Jovem não era, nem poeta o Freire;

Tinha oito lustros e falava em prosa.

Mas que és tu, mocidade? e tu, poesia?

Um auto de batismos? quatro versos?

Ou brancas asas da sensível pomba

Que arrulha em peito humano? Único as perde

Quem o lume do amor nos seios d' alma

Apaga-se sente. A névoa pode.

Qual turbante mourisco, a cumeada

Das montanhas cingir da nossa terra,

Que muito, se ao redor viceja ainda

Primavera imortal? Um dia, ao vê-la

De tantos requestada a esquiva moça,

Sente o Freire bater-lhe as adormidas

Asas o coração. Que não desdoura,

Antes lhe dá realce e lhe desvinca

A nobre fronte a um homem da justiça,

Como os outros mortais , morrer de amores;

E amar e ser amado é, neste mundo,

A tarefa melhor da nossa espécie,

Tão cheia de outras que não valem nada.

X

Margarida, no entanto, ia caminho,

E, ou fosse intenção, ou fosse acaso,

Um ramo de saudades que trazia

Deixa cair. Já trêmulo se curva

Freire a colher a disfarçada prenda,

Quando, rubro de cólera e despeito,

Galga o Vasco de um lance o espaço breve

Que os separa; desmonta; apanha as flores,

Sacode-lhes o pó, beija-as contrito,

E com elas adorna as plumas do elmo.

Depois, fitando com desprezo o triste

Tabelião, lhe brada: "Se inda ousares

Os olhos levantar àquela dama,

O castigo hás de ter da audácia tua,

Não, bárbaro, decreto, que não vale

Tua pessoa a pena de um delito;

Mas ridículo, sim; um tal castigo

Que na memória fique da cidade,

Que as mães contem às filhas casadeiras

E de eterna irrisão teu nome cubra!"

XI

Ora, uma noite, após conversa longa,

Freire encostado ao muro, ela à janela,

Naquele doce olvido de si mesmos

Em que toda se envolve a alma encantada,

Após ardentes e trocados beijos,

Trocados . . . mas de longe, - a bela moça: "Adeus!

(murmura)

É tarde; vai-te embora.,

Se papai nos descobre, estou perdida.

Foge meu doce amor; olha, não percas,

(continua...)

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