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#Contos#Literatura Brasileira

O Rei dos Caiporas

Por Machado de Assis (1866)

- Por quê? - disse o sujeito, levantando-se com a xícara de café na mão e indo assentar-se à mesa do rapaz.

- Porque fui sempre muito caipora. Nunca comprei bilhete que me saísse sequer o mesmo dinheiro. Desta vez porém acertei...

- Homem, eu também fui sempre caipora. Joguei dous anos com o mesmo número e nunca tirei mais de 40$000 rs. Um dia, porém, saiu o diabo detrás da porta e caiu-me a bicha em casa.

- Sim? Quando foi isso?

- Foi há seis meses.

- Um quarto ou bilhete inteiro?

- Meio bilhete. Recebi dez contos.

- Talvez não precisasse deles...

- Quase que lhe posso dizer isso. Graças a Deus ainda que não viessem os dez contos, tinha com que passar. Acontece-lhe o mesmo?

- Infelizmente não - disse João das Mercês seduzido com a maneira e a confiança do interlocutor.

- Mais uma razão para que eu o felicite.

O desconhecido apertou a mão a João das Mercês e ofereceu-lhe um charuto.

- Estes charutos daqui não prestam, tome este.

João das Mercês acendeu o charuto depois de pôr o seu fora, e reclinou-se sobre a mesa a conversar com o desconhecido.

Ao fim de uma hora saíram de braço dado. O desconhecido disse chamar-se Viana; João das Mercês deu também o seu nome. Saíram como dous amigos velhos. Passearam todo o tempo; Viana levou a benevolência ao ponto de o convidar a tomar um sorvete no Carceller.

Perto da noite, disse Viana para João das Mercês:

- Vou levá-lo até à sua casa.

João das Mercês fez uma careta.

- Isso agora há de ser mais difícil - disse ele depois de alguns instantes.

- Por quê?

- Porque...

- Seja franco.

- Pois bem, meu caro, eu não tenho casa!

- Não tem casa?

João das Mercês contou fielmente ao amigo a sua posição. Viana ouviu a narração com visíveis sinais de simpatia.

- Pois se isto o não incomoda nem ofende, ofereço-lhe por hoje um hospício. Amanhã já não será preciso porque receberá o dinheiro.

- Aceito.

Dirigiram-se para a rua da Misericórdia. Viana morava ali em um primeiro andar mobiliado com algum asseio.

- A casa não está arranjada - disse ele -, mas é porque eu mais me entendo com a desordem que com a ordem.

- Está excelente - disse João das Mercês -. Ah! Meu caro Sr. Viana, creio que sou agora verdadeiramente feliz. No dia em que me entra o dinheiro pela porta, entra-me um amigo pelo coração. Pela porta é metáfora - acrescentou ele rindo.

Viana apertou-lhe a mão comovido.

- Tive um amigo da sua idade; era a mesma alma franca e aberta aos sentimentos generosos; permita-me a ilusão de que o encontrei agora...

- Espero que não seja ilusão - exclamou João das Mercês.

Conversaram até alta noite. À uma hora João das Mercês disse que estava com sono.

- Eu também - disse Viana -. Vamos dormir. Tenho sempre esta outra cama pronta para o que der e vier. Olhe, gosto de acordar cedo.

- Homem, nestas alturas não se me dera acordar mais tarde - respondeu João das Mercês que, como sabemos, adquirira de uma das suas amas o modo de dormir demais.

- É que eu tenho de sair cedo, para levar um papel à estrada de ferro. Às nove horas estarei de volta.

- A minha madrugada será às nove horas.

- Veja lá se perdeu o bilhete.

- Nada, cá está no bolso do colete.

Dormiram.

No dia seguinte, seriam onze horas quando João das Mercês abriu os olhos. Viana ainda não tinha voltado. O rapaz costumava estar na cama acordado ainda um quarto de hora. Ao fim desse tempo levantou-se, lavou-se e vestiu-se.

Não tendo relógio não sabia que horas eram. O sol estava encoberto. João das Mercês chegou à janela a ver se via o dono da casa.

Não viu ninguém.

Pouco depois deram os sinos meio-dia.

- Meio-dia - disse ele -. Onde estará este homem?

Começou a sentir fome e a arrepelar-se com a demora, quando instintivamente levou a mão ao bolso do colete.

Não achou o bilhete!...

- Roubado! - exclamou ele com desespero.

Chegou à janela, gritou, acudiu gente à porta que o deram por maluco. Do segundo andar desceram algumas pessoas, e depois de ouvirem as queixas do mísero rapaz, foram chamar a autoridade.

Quando o rapaz conseguiu achar-se na rua eram já duas horas. Seu primeiro pensamento foi ir à casa de loteria.

Correu para lá.

Ó desgraça! Todos os quartos da sorte grande estavam pagos. Deu os sinais de Viana e eram os mesmos de um sujeito que lá fora cobrar um quarto.

Não se pode descrever o desespero de João das Mercês. Faltava-lhe aquele golpe mais terrível que todos, o de ter a fortuna na mão e senti-la voar como um pássaro esquivo.

Não hesitou; a ideia de morrer entrou-lhe na cabeça como uma solução às suas desgraças.

No fundo do bolso ainda achou um cartão de barca. Dirigiu-se à ponte e tomou passagem para São Domingos.

No meio da viagem, aproveitou o descuido das pessoas que se achavam perto dele e atirou-se ao mar.

Houve logo a bordo o rebuliço que um caso destes produz. A barca parou e a bordo se empregaram todos os esforços para salvar o infeliz.

João das Mercês veio à tona d`água quando lhe atiraram uma corda; ele repeliu-a com energia.

Seu pensamento era morrer.

Não contava com o caiporismo.

(continua...)

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