Por Machado de Assis (1862)
Como deve ser triste cair-lhe no desagrado!
LULU
Vou avisando, é o superlativo.
VENÂNCIO
Dou-me por feliz. Creio que lhe caí em graça...
LULU
Caiu! Caiu! Caiu!
ELISA
Lulu, vai buscar a lã.
LULU
Vou, prima, vou. (sai correndo)
Cena VIII
VENÂNCIO, ELISA
VENÂNCIO
Voa qual uma andorinha esta moça!
ELISA
É próprio da idade.
VENÂNCIO
Vou sangrar-me...
ELISA
Hein?
VENÂNCIO
Sangrar-me em saúde contra uma suspeita sua.
ELISA
Suspeita?
VENÂNCIO
Suspeita de haver-me adiantado o meu relógio.
ELISA
(rindo)
Posso crê-lo.
VENÂNCIO
Estará em erro. Olhe, são duas horas; confronte com o seu: duas horas.
ELISA
Pensa que acreditei seriamente?
VENÂNCIO
Vim mais cedo, e de passagem. Quis antecipar-me aos outros no cumprimento de um dever. Os antigos, em prova de respeito, depunham aos pés dos deuses grinaldas e festões; o nosso tempo, infinitamente prosaico, só nos permite oferendas prosaicas; neste álbum ponho eu o testemunho do meu júbilo pelo dia de hoje.
ELISA
Obrigada. Creio no sentimento que o inspira e admiro o gosto da escolha.
VENÂNCIO
Não é a mim que deve tecer o elogio.
ELISA
Foi gosto de quem vendeu?
VENÂNCIO
Não, minha senhora, eu próprio o escolhi; mas a escolha foi das mais involuntárias; tinha a sua imagem na cabeça, e não podia deixar de acertar.
ELISA
É uma fineza de quebra. (folheia o álbum)
VENÂNCIO
É por isso que me vibra um golpe?
ELISA
Um golpe?
VENÂNCIO
É tão casta que não há de calcular comigo; mas as suas palavras são proferidas com uma indiferença que eu direi instintiva.
ELISA
Não creia...
VENÂNCIO
Que não creia na indiferença?
ELISA
Não... Não creia no cálculo...
VENÂNCIO
Já disse que não. Em que devo crer seriamente?
ELISA
Não sei.
VENÂNCIO
Em nada, não lhe parece?
ELISA
Não reza a história de que os antigos, ao depositarem as suas oferendas, apostrofassem os deuses.
VENÂNCIO
É verdade: este uso é do nosso tempo.
ELISA
Do nosso prosaico tempo.
VENÂNCIO
A senhora ri? Riamos todos! Também eu rio, e da melhor vontade.
ELISA
Pode rir sem temor. Acha que sou deusa? Mas os deuses já se foram. Estátua, isto sim.
VENÂNCIO
Será estátua. Não me inculpe, nesse caso, a admiração.
ELISA
Não inculpo, aconselho.
VENÂNCIO
(repoltreando-se)
Foi excelente esta idéia do divã. É um consolo para quem está cansado, e quando à comodidade junta o bom gosto, como este, então é ouro sobre azul. Não acha engenhoso, D.. Elisa?
ELISA
Acho.
VENÂNCIO
Devia ser inscrito entre os beneméritos da humanidade o autor disto. Com trastes assim, e dentro de uma casinha de campo, prometo ser o mais sincero anacoreta que jamais fugiu às tentações do mundo. Onde comprou este?
ELISA
Em casa de Costrejean.
VENÂNCIO
Comprou uma preciosidade.
ELISA
Com outra que está agora por cima, e que eu não comprei, fazem duas, duas preciosidades.
VENÂNCIO
Disse muito bem! É tal o conchego que até se podem esquecer as horas... É verdade, que horas são? Duas e meia. A senhora dá-me licença?
ELISA
Já se vai?
VENÂNCIO
Até a hora do jantar.
ELISA
Olhe, não me queira mal.
VENÂNCIO
Eu, mal! E por quê?
ELISA
Não me obrigue a explicações inúteis.
VENÂNCIO
Não obrigo, não. Compreendo de sobejo a sua intenção. Mas, francamente, se a flor está alta para ser colhida, é crime aspirar-lhe de longe o aroma e adorá-la?
ELISA
Crime não é.
VENÂNCIO
São duas e meia. Até a hora do jantar.
Cena IX
VENÂNCIO, ELISA, LULU
LULU
Sai com a minha chegada?
VENÂNCIO
Ia sair.
LULU
Até quando?
VENÂNCIO
Até a hora do jantar.
LULU
Ah! janta conosco?
ELISA
Sabes que faço anos, e esse dia é o dos amigos.
LULU
É justo, é justo!
VENÂNCIO
Até logo.
Cena X
LULU, ELISA
LULU
Oh! Teve presente!
ELISA
Não achas de gosto?
LULU
Não tanto.
ELISA
É prevenção. Suspeitas que é do Venâncio Alves?
LULU
Atinei logo.
ELISA
Que tens contra esse moço?
LULU
Já to disse.
ELISA
É mau deixar-se ir pelas antipatias.
LULU
Antipatias não tenho.
ELISA
Alguém sobe.
LULU
Há de ser o primo.
ELISA
Ele! (sai)
Cena XI
PINHEIRO, LULU
LULU
Viva! Está mais calmo?
PINHEIRO
Calmo sempre, menos nas ocasiões em que és... indiscreta.
LULU
Indiscreta!
PINHEIRO
Indiscreta, sim senhora! Para que veio aquela exclamação quando eu falava com Elisa?
LULU
Foi porque o primo falou de um modo...
PINHEIRO
De um modo, que é o meu modo, que é modo de todos os maridos contrariados.
LULU
De um modo que não é o seu, primo. Para que fazer-se mau quando é bom? Pensa que não se percebe quanto lhe custa contrafazer-se?
PINHEIRO
Vais dizer que sou um anjo!
LULU
O primo é um excelente homem, isso sim. Olhe, sou importuna, e hei de sê-lo até vê-los desamuados.
PINHEIRO
Ora, prima, para irmã de caridade, és muito criança. Dispenso os teus conselhos e os teus serviços.
LULU
É um ingrato.
PINHEIRO
Serei.
LULU
Homem sem coração.
PINHEIRO
Quanto a isso, é questão de fato; põe aqui a tua mão, não sentes bater? É o coração.
LULU
Eu sinto um charuto.
PINHEIRO
Um charuto? Pois é isso mesmo. Coração e charuto são símbolos um do outro; ambos se queimam e se desfazem em cinzas. Olha, este charuto, sei eu que o tenho para fumar; mas o coração, esse creio que já está todo no cinzeiro.
LULU
Sempre a brincar!
PINHEIRO
Achas que devo chorar?
LULU
Não, mas...
PINHEIRO
Mas o quê?
LULU
Não digo, é uma coisa muito feia.
PINHEIRO
Coisas feias na tua boca, Lulu!
LULU
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O protocolo: comédia em um ato. Rio de Janeiro, 1862.