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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Depois, como não havia tempo a perder e porque já conhecia bem a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao encontro dele, meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um escândalo dos diabos, se o “sedutor” não tratasse, quanto antes, de tomar uma resolução muito séria a respeito de casamento.

Pereira não tratou de tomar coisa alguma desta vida e nem se abalou com a presença de Lúcia. Aceitou-a, como aceitaria outra qualquer imposição, porque ele era dos tais que, às maçadas da cura, preferem os incômodos da moléstia. Só no fim de quatro dias de lua-de-mel, como Lúcia insistisse nas suas idéias matrimoniais, o pachorrento declarou, com toda a calma, que lhe não podia fazer a vontade nesse ponto, em virtude de que, desde os dezoito anos, o haviam casado com uma velha, um fúria, que o Pereira não sabia, nem queria saber, por onde andava.

Lúcia perdeu os sentidos; esteve à morte. Os pais, envergonhados com o procedimento indigno da filha, tinham-se ido refugiar na cidade de Campos. Foi o tio do Pereira, o tal das riquezas aferrolhadas, que a salvou; era um velho ainda bem forte e muito mais esperto que o sobrinho. Deu –lhe casa, comida, roupa e dinheiro.

Uma irmã dele, senhora de inveterado amor a crianças, solteirona, de quarenta a cinqüenta anos e que, com o olho no testamento, desejava a todo o transe ser agradável ao mano, encarregou-se do filho do bacharel.

Correram quatro anos. Lúcia não viu mais a família, apenas visitava o filho, de quando em quando.

O Pereira continuava às sopas do tio, indiferentemente, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito. Acordava, quer dizer. Levantava-se às dez horas, tomava no quarto o seu banho morno, depois um copo de leite fervido, almoçava às onze, fazia as digestão estendido no sofá da sala; às duas horas dormia, depois passeava pela chácara à espera do jantar, cujo quilo era de rigor ser feito a sono solto em uma rede que ele tinha no quarto.

À noite, quando conseguia levantar-se, jogava o gamão com o tio. Cochilavam ambos, até que se servia o chá , e cada um se retirava para a cama.

— A noite fez-se para dormir! Sentenciava um deles.

— E o dia para se descansar, resmungava o outro espreguiçando-se.

E recolhiam-se.

O velho morreu de repente; uma congestão que lhe sobreveio ao encontrar Lúcia no fundo do jardim às voltas com um estudante da vizinhança.

— Bom! Dissera Lúcia, alijada afinal daquela obrigação que já lhe ia pesando demais. E fariscou o testamento. Mas o velhaco apenas deixava algumas dívidas à praça e dois terrenos hipotecados ao Banco Predial. A coisa única que ela aproveitou foi Cora, mulatinha de criação, cuja matrícula e cuja escritura de compra estavam em seu nome.

Era preciso, pois, deixar a casa; os credores reclamavam tudo que pudesse dar dinheiro. Pereira sacudia os ombros; dir-se-ia que não houvera a menor alteração na sua vida. Continuava a dormir tranqüilamente, como se as sopas do tio ainda o fossem procurar às horas da refeição.

Lúcia compreendeu que não devia contar com ele, e tratou em pessoa em cômodo para os dois, num hotel de arrabalde. Sentia-se resoluta e forte; era ela agora o cabeça do casal; tinha belos projetos de trabalho: daria lições de piano, de desenho e de francês, até que aparecesse um homem para substituir o estafermo do Pereira.

O homem, porém, não aparecia, como não apareciam os discípulos.

Principiou então para eles um viver perfeitamente de boêmios. Sem trates, nem dinheiro, nem futuro, nem relações constituídas, andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora, que andava a senhora, a percorrer as casa de pensão: sempre sobressaltados, sempre perseguidos pelos credores que iam deixando atrás de si.

Em cada lugar se demoravam o maior tempo que podiam, dois, três, quando muito quatro meses; até que lhe suspendiam o crédito e dos dois levantavam novamente o vôo, deixando a dívida em aberto e o dono da casa lívido, colérico, sem saber ao menos que direção tomavam os vagabundos.

Nesse peregrinar, Lúcia teve uma contrariedade mais profunda — achou-se grávida de novo. Cora deu-lhe conselho, trouxe-lhe remédios para fazer abortar; nada, entretanto, produziu efeito. O demônio da criança parecia disputar o seu quinhão de vida com uma persistência desesperadora.

Nasceu afinal, no quarto de um português na Fábrica de Chitas, entre os cuidados mercenários do locandeiro e o obséquio de alguns amigos, que Lúcia fora conquistando com as simpatias de seu talento musical,.

O diabinho pouco durou, felizmente. Desapareceu uns trinta dias depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na rua, quando os pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da Fábrica de Chitas para uma casa de pensão na Rua do Catete.

Cora encarregou-se de atirá-lo ao mar. Ninguém viu. Seriam duas horas da madrugada e as brisas marinhas pulverizavam no ar um chuvisco miúdo, de fevereiro.

O menino fora muito franzino e muito mole; saíra ao pai, o Pereira. Durante o seu pobre mês de vida só abriu os olhos uma vez, ao expirar.

(continua...)

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