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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Ângelo ergueu então a cabeça e notou que, com efeito, em volta dele tudo começava a esbater-se à luz da aurora. O próprio cadáver de cuja ferida acabava ele de despregar a boca cheia de sangue, nada mais era do que uma transparente sombra, estendida a seus pés.

E as montanhas foram-se dissolvendo, e outros objetos se acentuando por detrás delas.

E Ângelo, de olhos bem abertos, foi a pouco e pouco distinguindo e reconhecendo o seu modesto aposento de Monteli. Através da tenebrosa paisagem que fugia, viu ele surgirem lentamente as velhas estantes pejadas de livros santos, viu o seu genuflexório de madeira escura e viu surgir o altar, onde a Virgem sorria com o coração atravessado de punhais.

E ergueu-se a meio sobre a cama, tateando os olhos e apalpando a enxerga. Levou a mão aos lábios e consultou-a depois, tal era o enjoativo gosto de sangue que ainda sentia na boca.

Os sinos tocavam lá fora, chamando para a missa. Levantou-se, abriu a janela, olhou um instante o aia recém-nascido, e em silêncio preparou-se para sair.

Daí a pouco, o seu trêmulo e negro vulto atravessava a capela, e ia cair ajoelhado nos degraus do altar, arquejando, que nem um libertino depois de uma larga noite de dissipação.

Seus olhos amortecidos, quedavam-se como que indiferentes à própria imagem defronte da qual ia ele celebrar. A sua triste figura, sombria e vacilante, já não era a de um fervoroso crente, a de um sacerdote contrito, mas sim a de um cansado ascético, que não pode nem sabe chorar nem rir.

E os fiéis começavam até a murmurar contra ele, principalmente depois que alguns pares da vizinhança se achavam de passagem em Monteli, aproveitando o tempo para conspirar contra o vigário do lugar.

— Olhe você para aquilo! segredou um dos tais a outro que tinha ao lado! Veja só se aquilo são modos de estar ao altar!... Parece um ébrio! Não é debalde que todos nós estamos prevenidos contra este esquisitão! ...

— Creio que ele não regula bem da cabeça...

— É pancada, ou finge que o é!... Mas inclino-me a acreditar que, no fim de contas, é nada menos que um grande velhaco... Você não conhece a história que por aí corre, a respeito deste santinho com a brejeira viúva do morgado de Thevenet?...

— Não! Não sei de nada... respondeu o eclesiástico, já arregalando gulosamente os olhos e cheirando sorrateiramente uma pitada.

— Pois deixe acabar a missa, que eu lhe contarei tudo... Você vai ficar abismado! ...

CAPÍTULO X

Ó louco! Ó louco!

Ângelo nunca fora amado por grande parte dos seus colegas, e a razão disso estava na inconsciente fortuna com que se iniciou Ele, na vida pública, e no prestígio de santo que logo lhe deram os seus paroquianos.

É assim sempre em todas as classes sociais. Os nossos confrades estão sempre bem dispostos a nosso favor, enquanto não lhes tomamos a dianteira. Todas as flores são poucas para nos atirarem; desde o momento, porém, que os deixamos para trás—não há pedras no chão que cheguem para satisfazer a sua avidez de quebrar-nos a cabeça e as pernas.

Os padres a Ângelo invejavam, menos no que este realmente era, naquilo que, por moto próprio ou por sugestão de Ozéas, ele desdenhava ser.

Mas o coração de um homem paro é como o sândalo, que perfuma o machado que o decepa. O coração de Ângelo embalsamava a boca dos caluniadores que o mordiam.

Prova-o a tal famosa história, que o padre na capela prometeu contar ao outro, envenenando-a sem dúvida, e a qual tinha afinal a sua base na mais legítima bondade cristã, como se pode ver pela seguinte exposição do próprio fato:

A viúva do morgado de Thevenet era mulherzinha de má nota. Em Monteli falava-se, à boca pequena, a respeito dos seus desregramentos amorosos. Constava mesmo que certa rapariga morrera de desgosto, porque o seu noivo cairá um dia nos braços da maldita, e nunca mais conseguira despregar-se deles, senão para ser enterrado.

Entretanto, Ângelo, logo nos seus primeiros tempos de Monteli, uma vez, depois de uma das prédicas da quaresma, fora surpreendido em casa com a visita da viúva.

Recebeu-a amavelmente, como a todos recebia.

A mal reputada senhora não procurou rodeios para confessar a profunda impressão que sentira, ouvindo as simples e sinceras palavras do eloqüente pregador, e, tal fora a súbita vergonha que lhe veio pelas impurezas do seu passado, que àquele pediu encarecidamente para ajudá-la na obra da sua regeneração.

Chorou. E o presbítero compreendeu que aquelas lágrimas não eram fingidas, e que ali estava a seus pés uma alma capaz de convicto arrependimento.

Não hesitou um instante, pôs-se logo à disposição dela, pronto a servir-lhe de guia espiritual. O primeiro conselho que lhe deu, foi que alijasse de si, e de uma só vez, todos os seus antigos pensamentos, e procurasse criar novos, inspirados na moral cristã e no exemplo dos justos, porque, desde que os pensamentos fossem bons, as ações seriam boas conseqüentemente.

Ela prometeu obedecer.

(continua...)

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