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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

O procedimento do prelado era considerado como covardia no congresso da botica. Belchior, para dar mais autoridade a este juízo, recordava diferentes circunstancias passadas, a saber, a partida de d. Manoel para a Paraíba quando desfecharam o tiro no governador Caldas; o ter-se deixado prender pelos mercadores no dia 18 do mês anterior; e outras circunstancias que não são para o nosso caso. O bispo não é mais do que um vilão ruim, um desprezível instrumento dos Cavalcantis que querem ter sempre curvados a seus pés, como têm os negros dos seus engenhos, os povos de Pernambuco. Os mascates não precisam dele para castigarem a soberba e arrogância dessa nobreza de meia tigela, que o que traz limpo em seu sangue deve a esses mesmos mascates; porque o que daí não procede, é cor da noite de África ou cor do fogo das aldeias.

Palavras não eram ditas quando um filho de Jorge Cavalcant, que vinha montado em fogoso ginete, chegandose à porta da botica assim retorquiu, montado como estava, a Belchior com o calor e a imprudência dos primeiros anos: - Vilões ruins são aqueles brasileiros desnaturados que se vendem ao ouro ou rendem às lábias dos estrangeiros, cujo sentimento não é outro que o de revolverem a terra onde encontraram hospedagem. Esses, sim, são os mais infames vilões que pisam na terra de Camarão e de Henrique Dias. Sua baixeza não se compara nem mesmo com a dos que mordem a mão que deveriam beijar.

Replicou-lhe Belchior com quatro pedras na mão; o filho de Jorge treplicou, já com mostras de quem queria usar o chicote que trazia. Quando o gesto indicou a intenção, quase todos os que estavam na botica, tomaram o partido de Belchior, mas não tardou que varias pessoas das vizinhanças e da rua vieram em socorro do outro contendor.

Estavam justamente as coisas neste ponto, quando apareceu o chefe dos bandoleiros. Ao gibão surrado, aos calções em diferentes partes serzidos e aos sapatões grosseiros com que costumava andar, tinham-se substituído casaca e calções de veludo e sapatos de entrada baixa com fivelas. Trazia pendente um espadim que parecia novo, como o chapéu de pluma e a roupa. Naqueles tempos já o habito fazia o monge. Tanto que o Tunda-Cumbe se apresentou vestido com este apuro e galhardia, não foi preciso mais para que todos logo conjeturassem que grande transformação se operara na vida do ex-peixeiro, e já alguns lhe tirassem o chapéu, como demonstração de respeitosa cortesia. Tal houve que se afastou para que ele tivesse livre acesso ao ponto central do conflito. Muitos dos circunstantes explicaram esta atenção, atribuindo-a a vir ele acompanhado de dez a doze valentões conhecidos, pouco tempo antes seus companheiros, agora seus guarda-costas.

- Donde vem esta grandeza e este poderio a Tunda-Cumbe, que ainda não há um mês vendia bodiões e amorés pelas portas? perguntou a meia voz um parcial dos nobres.

Respondeu-lhe no mesmo diapasão o companheiro:

- Dizem que tem ordem franca dos mascates para ajuntar gente, e do Recife lhe prometem a patente de coronel em paga dos serviços, já vendidos a eles por bom dinheiro.

Entretanto o Tunda-Cumbe chegara ao ponto onde se dera o veemente bate-barbas. Achou somente aí o Belchior. O filho do Jorge Cavalcanti tinha tomado já a direção da matriz, e com pouco descavalgava e entrava.

Entendendo Tunda-Cumbe que não devia perder aquela ocasião de dar a mostra do pano, puxou do espadim e assentou-o de chapa sobre as costas de um sujeito que no canto da rua mais publica da vila exaltava a causa da nobreza e desfazia na reação dos mercadores. Não foi preciso mais para que se desse novo conflito, que dentro de alguns minutos redundou em serio motim. Houve muitas contusões, muitos ferimentos, muito sangue inutilmente derramado. Estando ainda nas mãos da nobreza a autoridade e a força publica, pode-se dominar no fim de algum tempo a assuada. O nome, porém, de Tunda-Cumbe e os dos bandoleiros mais violentos que com ele percorreram as ruas, espancando e ferindo os adversários que encontraram desprevenidos e inermes, esses nomes, especialmente o de Manoel Gonçalves, começaram desde esse momento a voar nas asas da fama, e poucos dias depois designaram celebridades que todos entraram a respeitar e temer.

Uma semana depois, Goiana foi testemunha de novas cenas, mais graves do que as primeiras, as quais chegaram a durar três dias.

Por ordem de João da Maia da Gama, capitão-mór da Paraíba, tão dedicado aos mascates que pelo senado da câmara de Olinda foi apelidado em oficio de 26 de junho de 1711 - a pedra fundamental em que os do Recife se levantaram e formaram o quimérico edifício e fabrica do industrioso levantamento - , veio Luiz Soares reunir-se com o Tunda-Cumbe a fim de irem ao Recife com sua gente passante de oitocentos homens, levantar o cerco.

(continua...)

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