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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— Ah! Itajiba, não a conheces, não.

— Insolente! diz Itajiba impaciente; não fora hoje um dia de regozijo para todos e de venturas para mim, eu fizera punir teu indiscreto arrojo.

— Itajiba, volve-lhe o guerreiro sem abalar-se e abaixando ainda mais a voz, olha que Inamá é vivo e acha-se entre nós; se queres saber mais, acompanha-me por alguns momentos.

Itajiba, atônito e sem compreender bem o sentido das estranhas e intempestivas palavras do guerreiro, reflete e hesita um momento; olha para o ângulo da sala em que se achava Guaraciaba, e não a vê mais ali; estremece; um pensamento sinistro lhe atravessa de súbito o espírito, e no mesmo instante se esvaece como um relâmpago; seria um crime conceber suspeitas por mais leves que fossem, em qualquer tempo, quanto mais naquela noite, contra a mais pura e a mais adorável das virgens da floresta. Mas as palavras do guerreiro eram ambíguas, a curiosidade tão natural em tais circunstâncias agita o espírito de Itajiba, que entendeu que nada perderia em decifrar aquele mistério. Portanto lançando mão de um arco e flechas diz ao guerreiro: vamos, e acompanhou-o de perto. Alguns dos circunstantes observando aquela cena, de que nada compreendiam, e que tinha um não sei quê de inquietadora e sinistra, os acompanharam também a curta distância. Guiado pelo índio Itajiba chega à taba encoberta entre arvoredos, na qual Guaraciaba e Anhambira se abraçavam ternamente na suave efusão do amor fraterno.

Chegado à porta o guia brande um facho que trazia nas mãos, e que imediatamente lança um vivo clarão no interior da taba, e apontando para dentro murmura ao ouvido de Itajiba:

— Olha! não os conheces? Guaraciaba e Inimá!

E Itajiba vê distintamente Guaraciaba com os braços enlaçados ao colo de um jovem guerreiro, que no semblante e beleza do porte parecia perfeitamente a figura de Inimá!

— Infames! rugiu, e imediatamente estica o arco: voou zunindo o tiro, e os dois míseros irmãos, varados no peito por uma só flecha, rolaram no chão sem vida.

Instantaneamente outros fachos se acendem, e vêm alumiar com luz sinistra aquele medonho e miserando quadro. Ainda abraçados os dois infortunados irmãos se estorciam no chão nas últimas convulsões da agonia. Alguns vultos entram de tropel na taba gritando todos a um tempo; o grupo se condensa, reina a maior agitação e forma-se um tumulto infernal, que vai crescendo e se propagando de momento a momento. Em poucos instantes toda a tribo dos Chavantes se achava apinhada em volta daquele sítio fatal bramindo furiosos como um bando de javardos em torno do caçador imprudente que entre eles se envolveu. No meio de todo aquele tumulto e confusos alaridos o desgraçado Itajiba enfim pôde compreender que de um só golpe tinha matado Guaraciaba e seu irmão Anhambira, que ele não conhecia, mas de quem ela muitas vezes lhe falara com ternura. Que palavras poderiam exprimir sua desesperação neste trance cruel? Cego, desatinado e louco abre caminho com os robustos braços através da multidão, que se apinhava em torno dos dois cadáveres; quer arrancar a seta que os traspassou, e com ela mesma varando o próprio coração misturar seu sangue ao de suas inocentes e infortunadas vítimas; repelido porém pela turba, atira-se à toa como um possesso pelo primeiro caminho que se lhe oferece, sem destino e sem consciência do que faz.

Como um condenado escapado ao suplício, a boca entreaberta e arquejante, os olhos desvairados, os passos precipitados e vacilantes, passa como um espectro por entre as turbas atônitas: já está longe das tabas, mas caminha ainda, até que esbarra com o leito do rio, que diante dele desdobra seu esteiro límpido e profundo; mas nem isso o detém em sua desatinada carreira, e vai como um ébrio em delírio arrojar-se na torrente.

— Quem vai lá? brada de um lado uma voz áspera e breve.

Itajiba parou sobressaltado, e olha para o lado donde partira a voz: uma canoa estava amarrada à margem, e sentado à popa acha-se um vulto de porte altivo.

— Ainda há pouco, responde Itajiba, eu era Itajiba, o valente e glorioso chefe dos Chavantes; agora sou Gonçalo o foragido!

— Itajiba ou Gonçalo, como quer que te chames, não vás procurar a morte nas águas desse rio, que te repelirá de seu seio. Tens estreitas contas a ajustar comigo; tua vida me pertence.

— E tu quem és, que assim ousas falar-me?

— Pois já não conheces Inimá?

— Inimá!

— Sim, Inimá, esse que cuidaste atravessar com tua flecha no braços de Guaraciaba, mas que ainda aqui te espera para ultimar sua vingança.

— Cobarde! ah! quanto folgo de encontrar-te aqui! bem vejo que foste tu que urdiste a trama infernal que me perdeu...

— Pois pensavas acaso que eu de bom grado consentiria que tu, vil forasteiro, lograsses tranqüilamente a ventura que o céu me tinha destinado, nos braços daquela que desde a infância amei? nunca te dei direito de fazer de mim conceito tão mesquinho.

— Nem eu tão pouco consentirei que sobrevivas mais um instante à tua atroz perfídia...

(continua...)

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