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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Que necessidade tinha de humilhar essa moça, de quem afora um instante de contrariedade naquela manhã, só recebera amabilidades e delicadezas? Eram mais algumas horas de constrangimento, que lhe custava essa condescendência. 

- Agradeço-lhe de coração, respondera Guida. Em outro dia sua companhia me seria agradável, como sempre. 

Ricardo inclinou-se: 

- Hoje se não jantasse conosco, eu ficaria triste, acrescentou a moça com um cândido sorriso.

- Então fique alegre, replicou o moço retribuindo o gracejo. 

- E estou! 

Uma terceira voz misturou-se ao diálogo: 

- Então a excelentíssima não quer aceitar? 

Era, não carecíamos dizer, o incansável Sr. Benício, que tendo afinal conseguido sofrear o chouto do machinho, voltara atrás; e aproximando-se sem que o percebessem, ali estava de espinhaço arqueado e braço estendido, a empunhar o guarda-sol, em posição de archeiro. 

Desta vez Guida não respondeu-lhe e seguiu adiante. Voltou-se então o Benício para Ricardo e apresentou-lhe a veneranda barraca: 

- Sr. Doutor, V. S. é servido? 

- Não; obrigado. 

- Olhe que o sol está pelando. 

- Nem por isso! Ao contrário, acho bem fresca a manhã! Fizemos um passeio magnífico. Não gosta da “Vista dos chins”?... 

- Faça favor! Insistiu o obsequioso Sr. Benício com o guarda-sol. 

- É um panorama admirável; não creio que haja no mundo uma tela igual, a não ser uma que eu conheço de fundo verde-gaio, por detrás da qual se desenha a figura de Mefistófeles. Não a que representa no drama de Goethe, mas uma que aparece na farsa do Judas em Sábado de Aleluia. 

- Tenho muito gosto! acudiu imperturbável o Sr. Benício metendo à cara do advogado o chapéu de sol. 

O riso cristalino de Guida que, ao remoque do moço, trilara como um colar de pérolas a desfiar-se, desatou em risada com a réplica do amanuense. 

Ricardo tinha dois fins, travando conversa com o Benício, e falando-lhe em linguagem que para este era grego ou hebraico. 

Conseguia em primeiro lugar reter junto de si aquele algarismo social, que tinha naquele momento a grande importância de uma unidade; somada ao número dois fazia três. 

Além disso defendia-se da serrazina dos oferecimentos com que o ia apoquentar, e nada obstava a que tratasse de rirse em vez de amofinar-se. 

- Olhe! não me incomoda. 

- Já conhecia a “Vista chinesa”, Sr. Benício? 

- Vim uma vez, o ano passado, e por sinal que fazia um sol de abrasar como agora, e eu ofereci o meu guarda-sol ao Dr. Nogueira, o que valeu-lhe bem! Aceite, tome o meu conselho!... concluiu o amanuense enristando de novo a cana para investir contra o advogado. 

Apanhado de surpresa, quando pensava que o Benício ia devagar, protestou Ricardo não cair mais no logro de escutálo; e tomando a palavra começou a fazer ao companheiro a descrição pitoresca da Tijuca. 

- Mais bonito do que a “Vista chinesa”, é o “Bico do papagaio”. Ali é que eu o queria ver, Sr. Benício, para comparar os dois picos. No de lá há justamente por cima do nariz da pedra uma árvore que finge bem um chapéu de sol! 

- Não faça cerimônia, Sr. Doutor! atalhou o Benício voltando à carga.  

O amanuense divertia à maneira das caricaturas, que depois de vistas, se tornam monótonas. 

Assim era o nosso homem quando ele exibia algum de seus perfis, de um cômico irresistível; mas à força de reproduzir-se com a regularidade de autômato, caía em uma insipidez esmagadora. 

Não tardou que Ricardo sentisse invadi-lo o tédio a ponto de não poder mais suportar nem a vista do amanuense. Para subtrair-se a esse foco de aborrecimento, apressou o animal: 

- É de primeira força! disse Guida lendo-lhe no rosto. 

- Com efeito! Não imaginava! 

- Há pouco não dizia o senhor que a vontade ou o capricho é um rei? Pois tem destes cortesãos! 

- Ah! É preciso! São os cortesãos que vingam os oprimidos; quando não comprometem, intrigam ou traem os soberanos, ao menos lhes moem um pouco a paciência. 

- Não duvido da utilidade dos cortesãos, respondeu sorrindo a moça. Mas quanto à sua comparação, não a acho exata. A respeito de capricho há de concordar, que devo entender alguma coisa. 

- Muito! 

- Por uma simples razão! Sou muito caprichosa. 

- Não acredito! 

- Se eu confesso! 

- Por isso mesmo. 

- Há de mudar de opinião. 

- Bem, pode ser. É a moda. 

- O capricho está bem longe de ser rei. É apenas o valido, o primeiro-ministro ou presidente de conselho, a quem o rei eleva acima dos outros súditos para ter o prazer de o contrair, de picar-lhe a vaidade, de crivá-lo de alfinetes como ao Sr.*** 

Guida pronunciou o nome; eu porém que não estou para divulgar a malignidade, e comprometer-me com gente poderosa, substituo-lhe a reticência estrelada. 

- Mas quem é o rei desse valido? perguntou Ricardo. 

- O rei? É o mundo, e portanto qualquer pessoa. Pode ser o senhor, por exemplo. 

- Eu? 

- Por que não? Vou lhe confessar uma fraqueza minha. Eu tenho nestes momentos três desejos... Não cuide que são os da caixinha do jogo de prendas. 

- Ainda bem; eu já me tinha lembrado do Sr. Benício e de seu chapéu de sol. 

(continua...)

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