Por José de Alencar (1875)
O ânimo de quantos assistiam a esta cena estava suspenso no pressentimento de um novo e terrível assomo de cólera da parte do fazendeiro. Entretanto o mancebo aguardava tranquilamente o choque, embora o olhar e atitude indicassem a resolução em que estava de não ceder.
A fisionomia do capitão-mór conservava sua habitual seriedade. A surpresa que a animara um instante, cedera à concentração da vontade sempre morosa e tolhida, quando não a arrebatava a paixão.
Tendo demorado por algum tempo o olhar no semblante do mancebo, retirou-o afinal para volvê-lo na direção do Agrela. Êste, porém, que previra o movimento, simulou uma distração a propósito e esquivou-se à consulta.
Então o capitão-mór revestiu-se de toda a solenidade de aparato e estendeu majestosamente a mão para Arnaldo, o qual apeando-se pronto veio beijá-la comovido.
— Vá tomar a benção à sua mãe, disse o fazendeiro paternalmente.
Depois que a filha satisfez-se de acariciar a ingrata Bonina, o capitão-mór, passando a título de recomendação um novo capelo no Inácio Góis, tornou à casa acompanhado pela família.
D. Flor dirigiu-se pressurosa a seu camarim; e tomando alí um objeto que procurava, saiu com Alina em busca do casalinho da Justa.
Era noite já. O crescente da lua que surgia no horizonte azul esparzia sôbre a terra uma claridade tênue e indecisa que flutuava na atmosfera como gaze finíssima, tecida de fios de prata.
Além, no terreiro dos agregados, trilavam os sons cristalinos da viola, a ralhar no meio do susurro da conversa. Mais longe, em frente às casas dos vaqueiros, a gente de curral fazia o serão ao relento, deitada sôbre os couros, que serviam de esteiras.
Uma voz cheia cantava com sentimento as primeiras estâncias do Boi Espácio, trova de
algum bardo sertanejo daquele tempo, já então muito propalada por toda a ribeira do São Francisco, e ainda há poucos anos tão popular nos sertões do Ceará.
Vinde cá meu Boi Espácio,
Meu boi preto caraúna;
Por seres das pontas liso,
Sempre vos deitei a unha.
Criou-se o meu Boi Espácio
No sertão das Aroeiras;
Comia nos Cipoais,
Malhava nas capoeiras.
Foi êste meu Boi Espácio
Um boi corredor de fama;
Tanto corria no duro,
Como na varge de lama.
Nunca temeu a vaqueiro,
Nem a vara de ferrão;
Temeu a José de Castro
Montado em seu alazão.
Os tons doces e melancólicos da cantiga sertaneja infundiram um enlêvo de saudade, sobretudo naquela hora plácida da noite.
Entrando no casalinho, Flor e Alina encontraram-se com Justa, que avisada pelo rumor das vozes acudia a recebê-las. Ao clarão do fogo aceso na cozinha próxima avistaram um vulto, que ambas reconheceram, a-pesar-de quase desvanecido na sombra do canto escuro.
Fôra um nobre impulso do coração que alí trouxera D. Flor naquele instante. Não tendo pouco antes agradecido a Arnaldo o serviço que êste lhe prestara, vinha mostrar à ama o seu contentamento e acompanhá-la na alegria que devia sentir vendo restituídas ao filho as boas graças do dono da Oiticica.
Em caminho, porém, a efusão dêste sentimento se acalmara, e de todo aplacou-se ao entrar na choupana. Abraçou com meiguice sua mãe de leite, e entregou-lhe o objeto que trazia na mão: uma bolsa de teia de prata como se usava naquela época.
— Esta bolsa, mamãe Justa, é que eu trouxe do Recife para Arnaldo. Tinha feito tenção de não lha dar mais, por causa da desobediência que êle praticou, sobretudo depois de enganar-me, fugindo de minha companhia. Mas como êle achou a Bonina e voltou arrependido, eu quero perdoar-lhe, como meu pai. Aquí a tem; entregue-a da minha parte, como mimo que lhe faço.
— Obrigada, minha Flor! Como êle vai ficar contente!…
O vulto surgiu da sombra. Era Arnaldo, o qual aproximando-se de Justa, tirou-lhe das mãos a bolsa e foi arremessá-la ao fogo.
— Pague aos seus criados, disse êle com a voz áspera.
— Arnaldo! exclamou Justa escandalizada.
D. Flor erguera a altiva fronte, e com um gesto de plácida dignidade atalhou a ama:
— Fez bem: êle não merecia uma lembrança minha. E retirou-se.
SEGUNDA PARTE
I – A saída
Raiava uma formosa madrugada.
Os primeiros vislumbres desmaiavam no céu o azul denso das noites dos tróipicos; e para as bandas do nascente já estampavam-se os toques diáfanos e cintilantes da safira.
A frescura deliciosa das manhãs serenas do sertão no tempo do inverno derramava-se pela terra, como se a luz celeste que despontava trouxesse da mansão etérea um eflúvio de bemaventurança.
A Oiticica, assim como em geral as vivendas campestres, despertava sempre aos primeiros anúncios do dia; e a labutação jornaleira começava alí ainda com o escuro. Nesse dia, porém, madrugara mais que de costume.
Quando o sino da capela bateu as matinas, e segundo uma usança militar observada nesta e em outras fazendas, com os rufos do tambor e os clangores da trombeta soou o toque da alvorada, já havia na herdade rumor e agitação, especialmente para o lado da cavalariça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.