Por José de Alencar (1857)
— Tem santa paciência, caboclinho de minha alma! Fé de Aires Gomes, não é possível; e tu sabes! Quando eu digo que não é possível, é como se a nossa madre igreja... Que diabo ia rezar-lhe? Ai! que chamei sem querer a madre igreja de diabo! Forte heresia! Quem se mete a tagarelar dos santos com esta casta de pagão... Tagarelar dos santos!... Virgem Santíssima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!
Enquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio solilóquio, no qual havia ao menos o mérito da franqueza, Peri não o ouvia, embebido como estava em olhar para a janela; depois, desprendendo-se da mão que segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.
Aires acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um autômato.
— Que vens fazer? perguntou-lhe o índio.
— E esta! Seguir-te e levar-te à casa; é a ordem.
— Peri vai longe!
— Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.
O índio voltou-se para ele com um gesto decidido.
— Peri não quer que tu o sigas.
— Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda ninguém levou o filho de meu pai, que bom é que saibas, foi homem de faca e calhau.
— Peri não manda duas vezes!
— Nem Aires Gomes olha atrás quando executa uma ordem.
Peri, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da obediência passiva; sentiu que não havia meio de convencer este executor fiel: assim, resolveu livrar-se dele por meio decisivo.
— Quem te deu a ordem?
— D. Lauriana.
— Para quê?
— Para te levar à casa.
— Peri vai só.
— Veremos!
O índio tirou a sua faca.
— Hein!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr. D. Antônio não me tivesse proibido expressamente, eu te mostraria! Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.
— Peri só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Peri te amarra.
— Como?... Como é lá isso?
O índio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se engranzava pelos galhos das árvores; o escudeiro meio espantado sentia a mostarda subir-lhe ao nariz, esteve quase não quase, atirando-se ao selvagem.
Mas a ordem de D. Antônio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o índio; o mais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se valentemente.
Quando Peri cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Aires Gomes sem trepidar puxou a espada e pôs-se em guarda, segundo as regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde a mais tenra idade.
Era um duelo original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, combate em que as armas lutavam contra a agilidade, e o ferro contra um vime delgado.
— Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobrolho; deixa-te de partes: porque, palavra de Aires Gomes, se te encostas, espeto-te na durindana!
Peri estendeu o lábio inferior, em sinal de pouco caso; e começou a voltear rapidamente em torno do escudeiro, num círculo de seis passos de diâmetro que o punha fora do alcance da espada; a sua tenção era assaltar o adversário pelas costas.
Aires Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a girar sobre si mesmo para defender as costas, sentiu a cabeça tontear e vacilou. O índio aproveitou o momento, atirou-se a ele, pilhou-o de costas, agarrou-o pelos dois braços, e passou a amarrá-lo ao mesmo tronco da árvore em que estava encostado.
Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilha de cipós ligava-o ao tronco desde o joelho até os ombros; o índio seguira seu caminho placidamente.
— Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me pagarás com língua de palmo!...
Sem prestar a menor atenção à ladainha de nomes injuriosos com que o mimoseava Aires Gomes, Peri aproximou-se da casa.
Via Cecília, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso profundo que passava embaixo de sua janela.
A menina, depois do primeiro momento de surpresa em que adivinhou o ciúme de Isabel e o seu amor por Álvaro, conseguiu dominar-se. Tinha a nobre altivez da castidade; não quis deixar ver à sua prima o que sentia nesse momento; era boa também, amava Isabel, e não desejava magoá-la.
Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa: ao contrário ergueu-a, beijou-a com carinho, e pediu-lhe que a deixasse só.
— Pobre Isabel! murmurou ela; como deve ter sofrido!
Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lágrimas que saltaram de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios mimosos a chamaram ao seu próprio sofrimento.
Ela, a menina alegre e feiticeira que só aprendera a sorrir, ela, o anjinho do prazer que bafejava tudo quanto a rodeava, achou um gozo inefável em chorar. Quando enxugou as lágrimas, sofria menos; sentiu-se aliviada; pôde então refletir sobre o que havia passado.
O amor revelava-se para ela sob uma nova forma; até aquele dia a afeição que sentia por Álvaro era apenas um enleio que a fazia corar, e um prazer que a fazia sorrir.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.