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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Não é refeição de príncipe, dizia ele, mas satisfaz todas as ambições de um estômago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cozinha é contígua; além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal... o infinito da indiferença humana.

E depois de um silêncio:

Não digo bem, emendou ele; nem sempre acho indiferença. Meu trabalho não me dá mais do que escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.

Dizendo isto, o desconhecido esgotou a chávena, e reclinou-se sobre a cadeira, fitando em cheio a cara do hóspede. Estácio refletiu nas últimas palavras, e um raio de esperança veio rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dois homens pareciam interrogar-se. O filho do conselheiro sacou do bolso um charuto e ofereceu-o ao dono da casa.

Obrigado, disse este.

Não fuma?

Já fumei; hoje economizo esse vício. Nem por isso faço mais lentamente a digestão.

Mora só?

Só.

Não tem família?

Nenhuma.

Há de achar-me singularmente indiscreto...

Não; suponho que a sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.

Acertou; o senhor inspira-me simpatia. E se eu conhecesse alguma dessas mãos puras, que lhe emendam as lacunas da sorte.

Dar-me-ia, por intermédio delas, o seu óbolo?

Se o não ofendesse...

Não ofendia, mas eu recusava, se soubesse; peço-lhe desde que o não faça às escondidas...

Estácio fez um gesto de assentimento.

Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto de pudor que a pobreza me não tirou ainda. Fiz-lhe agora um obséquio, um simples dever de vizinho... Pareceria que o senhor mo pagava com um benefício. O benefício seria menos espontâneo de sua parte e menos agradável para mim. Agradável não exprime, talvez, toda a minha idéia; mas o senhor facilmente compreenderá o que quero dizer.

Entendeu-me mal; o meu óbolo não seria na espécie a que o senhor alude. Tenho amigos e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição.

O desconhecido refletiu um instante.

Aceitaria? perguntou Estácio.

Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro vale. Eu vexar-me-ia eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.

Já me não admira a vida pobre que tem tido.

Excessivo escrúpulo, talvez?...

Escrúpulo desarrazoado.

Antes demais que de menos.

Nem de menos nem demais; mas, só a porção justa.

A porção varia, conforme as necessidades morais de cada um. Mas eu mesmo, que lhe estou a falar, nem sempre tive esta virtude intratável; e porventura alguma vez fraqueei...

A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos lábios, e os olhos caíram naquela atonia que exprime uma grande concentração de espírito. Era ocasião de interrogá-lo diretamente ou sair. Estácio preferiu o último alvitre.

Não o quero demorar mais, disse o dono da casa, quando o mancebo proferiu as palavras de despedida. Já é tarde, e sua mãe talvez esteja ansiosa.

Estácio limitou-se a olhar para ele em cheio, dizendo:

Se alguma vez resolver dar de mão a seus escrúpulos, mande procurar-me. Minha casa é conhecida em todo Andaraí pela casa do Conselheiro Vale...

O desconhecido, em cujo rosto Estácio esperou ver um sinal qualquer de abalo ou surpresa, conservou-se impassível e risonho. Curvou-se em sinal de agradecimento; e como Estácio hesitasse em estender-lhe a mão, ele meteu as suas nas algibeiras.

Talvez nos vejamos ainda, disse Estácio já fora da porta.

Sim?

Passeio algumas vezes por estes lados.

Nem sempre estou em casa; mas, ainda estando, conservo fechadas as portas.

Quando quiser descansar, bata; a casa é pobre, mas será amiga.

Estácio afastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; ele não deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio de uma selva escura, a igual distância da estrada reta, — diritta via — e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as esperanças. Nada sabia, nada conjeturava; eram tudo novas dúvidas e oscilações. O homem com quem acabava de conversar, parecia-lhe sincero; a pobreza era autêntica, sensível a nota de melancolia que, por vezes, lhe afrouxava a palavra. Mas, onde cessava ali a realidade e começava a aparência? Vinha de tratar com um infeliz ou um hipócrita? Estácio rememorou todos os incidentes da manhã, e todas as palavras do desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondíveis. Repelia com horror a idéia do mal: custava-lhe a aceitar a idéia do bem; e a pior das angústias, — a dúvida, — continha-o todo e agitava-o em suas mãos felinas. O sol e a agitação alastravam- lhe a testa de pérolas de suor; ao ofego da marcha apressada juntava-se o da violenta comoção. Estácio não via os objetos que ia costeando, nem as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, até que o choque da realidade o despertasse.

(continua...)

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