Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
CAPÍTULO XVII
JOÃO E RODRIGUES
CONTRA todos os seus hábitos, o velho Rodrigues, guarda-portão do “Céu cor-de-rosa”, deixou às oito horas da noite o seu eterno posto do alpendre e desceu por um beco que vai abrir-se no largo da Lapa.
José e Helena, que estavam como sempre de espreita à janela, disseram um para o outro ao mesmo tempo:
– Temos novidade.
O ex-escrivão, tomou imediatamente o chapéu, e saindo, apressou os passos até descobrir o velho Rodrigues, e o foi acompanhando de longe, e com todo cuidado para não ser por ele descoberto.
Helena ficou só, mas sempre vigilante à janela, observando o que pela vizinhança ocorria.
O velho guarda-portão, sem nunca olhar para trás, atravessou o largo da Lapa, e tomou pela rua do Passeio Público, deixou ao lado esquerdo a rua das Marrecas, venceu todo largo da Ajuda, e como quem se dirigia para a de S. José, foi indo sempre no mesmo passo, até que endireitou para a portaria do convento da Ajuda, e foi sentar-se nos degraus superiores.
Jacó coseu-se com a parede do convento, aproximou-se quanto pôde do velho, e finalmente, atirou-se ao chão, procurando ser tomado por algum mendigo.
O guarda-portão descobriu-o a tempo, e reconheceu o ex-escrivão; mas não deu sinal algum de o ter feito, e ficou quieto no mesmo lugar, cantarolando por entre os dentes uma de suas prediletas baladas.
Um quarto de hora depois o vulto de um homem alto veio-se aproximando do posto que Rodrigues tomara.
O velho chegou-se mais, enfim subiu também os degraus da portaria: era um velho pouco mais ou menos da mesma idade de Rodrigues.
– Adeus, João, disse Rodrigues.
– Boa-noite, Rodrigues! disse o recém-chegado tomando lugar e sentando-se junto do guarda-portão.
– Esperaste muito?
– Não, há um quarto de hora, apenas.
– Que diabo! temos assim uns encontros, que melhor caberiam a dois ladrões, ou a dois namorados.
O guarda-portão sorriu e levantou os ombros, como quem queria dizer: – que nos importa?
– Conversemos, disse o recém-chegado: que novidades há?
– Que mau costume! murmurou Rodrigues; falas sempre com voz tão alta!
– Pois então que há?...
– Apenas um curioso que nos espreita.
– E onde está então essa peça?
Rodrigues apontou para Jacó, que fingia ressonar.
– Ora... é um pobre mendigo.
– Cala-te; é nada menos do que o celebre Jacó, que em outro tempo conheceste bem, e que hoje é meu vizinho, e tomou por sua conta espreitar todos os meus passos.
– Ui!... pois deveras?...
– Sem a menor dúvida.
– Vamos pô-lo dali para fora a pontapés.
– Para quê? basta que falemos baixo. Tenho pouco que dizer-te.
– Tens razão, tanto mais que me suponho em vésperas de tomar de novo conhecimento com ele.
– Como?...
– Vi-o entrar o mês passado lá em casa.
– E com que fim?...
– Não sei, mas hei de sabê-lo.
– É preciso.
– Vamos ao principal: conta-me o que há.
– Sim, porém torno a dizer-te que fales mais baixo.
Jacó não tinha até então percebido uma só palavra; apenas lhe chegava aos ouvidos um leve ruído; mas daí por diante ainda menos do que isso ouviu. João e Rodrigues eram para ele como dois mudos sentados ao lado um do outro. Arrependeu-se de haver seguido o velho guarda-portão, e a posição incômoda que tomara era como um castigo de sua insana curiosidade.
Os dois velhos amigos começaram a falar um com o outro em voz muito baixa.
– Então o que há?... repetiu João.
– Realizam-se minhas previsões.
– Amam-se?...
– Ele, como um louco, como um rapaz de vinte anos, que ama pela primeira vez.
– E ela?...
– Ou já o ama também, ou está em muito bom caminho para chegar a isso.
– E já sabe que é amada?...
– Creio que o pensava desde alguns dias; ontem porém teve a certeza de o ser.
– Quem lhe revelou o segredo?...
– Este seu criado.
– Bravo, sr. Rodrigues; está representando um excelente papel.
– Pois que querias tu que eu fizesse, João?... duas crianças tolas como eles são precisavam de quem lhes abrisse os olhos. E, sobretudo, não é verdade que convém terminar os nossos trabalhos? não crês que basta de provação?...
– Eu não te crimino, Rodrigues; ao contrário acho que tens ido às mil maravilhas; tanto mais que dois trastes velhos como nós, devemos dar graças a Deus por podermos ainda prestar para alguma coisa neste mundo.
– Enfim eles se amam, repetiu Rodrigues.
– Era natural.
– Temos porém novidades cem vezes mais importantes.
– Vamos lá.
– Realiza-se também a minha última previsão: o outro igualmente a ama.
– Oh diabo! o caso vai-se complicando; e ela?
– Despreza-o.
– Está no seu direito. E ele teima?...
– Faz mais do que isso.
– Então o quê?
– Quer impor-se. – Como?...
– Ora como!... pois não adivinhas?... com a misteriosa influência que exerce sobre a viúva.
– Quando eu digo que o caso se vai complicando!
– Ontem o velho e a menina saíram a passeio. A viúva arranjou uma dor de cabeça, e deixou-se ficar em casa; daí a pouco chegou ele.
– Bem; e depois?
– Fecharam-se na sala, e conversaram uma hora.
– E tu?...
– Ouvi tudo.
– Bravo! és um herói.
– Ele exigiu que a viúva fechasse a porta do “Céu cor-de-rosa ao pobre rapaz.
– Por quê?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.