Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
As duas moças, com uma rápida vista de olhos, fizeram um completo exame do recémchegado: era moço, magro e de estatura ordinária; tinha belos cabelos loiros, que lhe caíam em anéis em derredor da cabeça; estava pálido e triste, o que não deixava de dar alguma graça a seu rosto simpático, e talvez bonito para rosto de homem; vinha vestido todo de preto e de gravata branca, e prendendo à fina camisa um rico alfinete de esmeralda; calçava, enfim, botins envernizados. A figura graciosa e modesta desse jovem tocou notavelmente as duas moças; como ele se conservasse silencioso e com os olhos fitos no chão, elas começaram a falar em voz baixa.
— Quem é?... perguntou Honorina.
— Eu não sei, respondeu Raquel, não me lembro de ter visto este moço.
— Está vestido sem exageração, e com elegância...
— Traz ao peito um alfinete de esmeralda... a cor verde quer dizer esperança; então é porque ele tem alguma esperança no coração.
— Olha... ele não é feio.
— E está melancólico e pensativo... em que pensará ele?...
— Meu Deus... eu não posso adivinhá-lo.
— Pois pergunta-lhe.
— Raquel! tu julgas-me doida?...
— Não... mas tinha vontade de saber em que ele pensa.
— É que tu és muito curiosa, Raquel.
— Mas não, Honorina, é que é muito mau costume vir um moço sentar-se melancólico e cabisbaixo defronte de duas moças... e pensando... pensando em quê?...
— Olha... ele suspirou; Raquel, saiamos daqui.
— Por quê?... pelo contrário, demoremo-nos.
— Olha... suspirou outra vez...
— Coitado! Honorina! pergunta-lhe se está doente.
— Eu!... Deus me livre.
— Pois então pergunto-lhe eu.
— Raquel!...
— O senhor está incomodado?... perguntou a moça em voz alta.
O mancebo pareceu estremecer; ouvindo a voz de Raquel, levantou a cabeça e fitou nas duas moças dois olhos cheios de fogo.
— Perdão, minhas senhoras, disse ele com voz comovida, perdão, se tenho cometido alguma falta!... eu não sei de mim mesmo!...
— Está doente?... perguntou outra vez Raquel.
— Cala-te, extravagante! disse Honorina ao ouvido da amiga.
— Oh!... muito doente... respondeu o moço animando-se; muito doente na verdade!... na minha cabeça está um fogo que me devora; no meu coração se cria... se agita um sentimento que eu nunca experimentei até há bem poucos dias, mas que hoje é já suficientemente forte para fazer-me desgraçado!...
— Ora aí está o que tu querias ouvir; já sabes em que ele pensava?... murmurou Honorina ao ouvido de Raquel.
— Espera, tola, deixa ouvir a relação da moléstia do moço, disse Raquel; e, voltando-se para o mancebo, continuou: e, portanto, veio ao sarau para distrair-se? Tem passado melhor?...
— Cheguei agora mesmo, minha senhora.
— Ah! pensei que tinha estado cá desde o começo...
— Eu não sabia deste sarau... não fui convidado... não conheço aqui ninguém...
— Então?...
— Passei... ouvi tocar... entrei; ninguém me perguntou quem eu era, cheguei até aqui; a primeira pessoa que me falou, foi V. Ex.ª
— Mas... quase uma imprudência; podiam tê-lo tratado mal.
— Pois se eu digo que estou louco!... que padeço, e não sei o que tenho... oh!... não! isso não, eu sei bem o que padeço.
— Portanto...
— Eu amo.
As moças não disseram palavra.
— É uma nova imprudência que pratico, estar ocupando a atenção das senhoras com a relação dos meus sofrimentos; mas eu preciso falar para consolar-me!... Eu amo... muito! como ninguém amou ainda! amo uma virgem bela, inocente e pudibunda; e ela não sabe o que eu sofro, ignora a paixão que por ela nutro, ignora que vou morrendo pouco a pouco... em silêncio... com o meu segredo escondido no fundo de minha alma. Devo eu fazê-la corar diante de mim, perguntando-lhe se também me ama?... ou se me paga com ingratidão?...
— Como terá sempre de chegar a esse extremo... disse Raquel.
— Oh!... não!... balbuciou Honorina.
— Eu penso como a senhora, continuou o mancebo: fazê-la corar à minha vista, não; seria demais para ela. Eu tenho estudado o meio. V. Ex.as me têm tratado tão agradavelmente, que não hesito em confessar-lhes tudo.
— Vamos... Raquel, vamos para dentro.
— Não... deixa o senhor acabar.
— Minhas senhoras, o meu projeto é filho de um sonho: é, pois, um sonho que eu quero realizar. Eu sonhei que me havia encontrado com a jovem, que me faz enlouquecer de amor; não querendo implorar ali a sua gratidão, mas desejando merecê-la, fingi uma paixão... contei uma história, e disse que, para saber se era ou não amado, em uma manhã a mulher que eu amava acharia sobre a janela de seu gabinete uma sempre-viva... se ela fosse grata... guardaria a flor; se me desprezasse, deixá-la-ia cair para o lado de fora.
— É um bonito sonho, disse Raquel.
— Que continua ainda, minha senhora. No dia seguinte, a jovem senhora, que eu amava e a quem havia contado a minha história, quando acordou achou em cima da janela de seu gabinete uma sempre-viva!... lembrou-se de mim... lembrou-se do homem que a adorava...
— E o que fez?... perguntou Raquel.
— Despertei nesse momento, minha senhora! ficou, pois, o meu sonho incompleto; mas eu quero aproveitar-me dele... realizá-lo... para ver no que acaba...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.