Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
O canto, onde fiquei com os meus companheiros de viagem do capítulo antecedente, foi o da Rua dos Ourives, e agora, passando além dela para seguir viagem, temos já de estacar por alguns minutos defronte dessa casa antiga de dois pavimentos, do lado esquerdo, e de atual n.º 89.
Aí morreu este ano o Diário do Rio de Janeiro, uma lâmpada que se apagou por falta de azeite.
Eu estava no meu direito escrevendo a sua necrologia e lamentando de coração a moléstia que o matou, mas o Diário do Rio de Janeiro podia bem zombar de mim, dando novo exemplo daqueles mortos de que falei, e que de súbito reaparecem vivos.
Declaro que desejo e que havia de aplaudir a revivificação do Diário, que viria demonstrar a vitalidade do partido conservador de que ele foi órgão nos últimos anos.
Tenho-me por liberal de boa escola e por isso mesmo reputo necessário no nosso sistema de governo e contrapeso do partido conservador.
O fato de suspender sua publicação, o Diário do Rio de Janeiro, e de ficar na capital do império sem órgãos de imprensa, o partido conservador logo depois da sua queda do governo e de perder consequentemente a influência oficial não é airoso para ele, e é de grande inconveniência para os negócios públicos.
O partido liberal, quando em 1868 saiu do governo, fundou imprensa mais forte e mais influente do que tivera na capital durante os cinco anos em que estivera no poder.
Não vai nestas poucas palavras idéia de agressão ou de dissimulada injúria ao partido conservador, ou à sua imprensa de lâmpadas que se apagaram por falta de azeite; o que vai é simples estímulo para despertar o seu patriotismo; porque a fiscalização oposicionista e a luta generosa dos partidos políticos na imprensa são indispensáveis à marcha regular do sistema representativo.
No governo constitucional a censura apaixonada, e ainda mesmo violenta e injusta, é mil vezes preferível ao silêncio sepulcral da imprensa da oposição.
O Diário do Rio de Janeiro não devia ter morrido, e tanto mais que sua redação acetinada honrava o partido, cujos interesses políticos defendia.
Mas quem me mandou intrometer em coisas políticas capazes até de tornar impolítica e anárquica esta viagem pela Rua do Ouvidor; que estou fazendo fraternalmente com liberais, com conservadores, com republicanos e até com o Apoztolo e com o Ganganelli?
É preciso emendar a mão, e aí mesmo sem arredar os olhos dessa casa tradicional hoje de n.º 89.
Número 89!... é verdade: foi erro do Diário, órgão conservador, tomar posto em teto desse número 89, que recorda a data mais anticonservadora e mais revolucionária de França e do mundo.
Outra escorregadura para a política!... agora juro corrigir-me de uma vez para sempre.
Tratemos de coisas sérias.
Nessa casa do atual número 89 fazia há mais de meio século, e durante muitos anos cortou e fez vestidos, toucados e enfeites de finíssimos tecidos, mademoiselle, depois Mme Joséphine, a mais antiga e a mais famosa modista da Rua do Ouvidor.
Ainda depois da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 e até 1816 pelo menos, as senhoras da corte e das famílias ricas tinham criadas e escravas costureiras, e, em geral, as senhoras talhavam seus vestidos ou os mandavam fazer por costureiras de profissão; mas todas portuguesas ou brasileiras.
De 1810 a 1816 ou pouco além deste ano houve, entre outras ignoradas, duas irmãs muito procuradas como habilíssimas costureiras: eram do Brasil e moravam na Rua do Fogo, hoje dos Andradas, e perto do então chamado Largo da Sé: sei os seus nomes; julgo, porém, que não me é preciso decliná-los.
O certo é que modista foi planta nova e francesa que por ventura já se cultivava em outras ruas, quando em 1823 ou em 1824 começou a predominar na Rua do Ouvidor Mlle Joséphine.
Não posso determinar precisamente o ano da revelação dessa celebridade:
Mlle Josóphine foi talvez a primeira, e com certeza uma das primeiras que marcaram a época da hégira das francesas para a Rua do Ouvidor.
Mlle Joséphine foi a modista da primeira imperatriz do Brasil, e, portanto, de todas as senhoras da corte, e, portanto, de quantas outras senhoras tinham pais e maridos dispostos a pagar freqüentemente a habilidade e a fama da modista, cuja tesoura de imperial predileção cortava cara e desapiedadamente.
E por isso mesmo era célebre, e a melhor possível, e a mais desejada, a tesoura da incomparável Joséphine.
A casa da modista começara com a denominação de Mlle Joséphine; casando-se, porém, esta algum tempo depois com Mr. Quelque Chose, já era tanta e tão proveitosa a fama do nome da modista, que mulher e marido acordaram em conservá-lo na designação da loja, que ficou denominada de Mme Joséphine.
Eclipse do marido que com espirituoso materialismo reconheceu quanto o nome da esposa valia mais do que o seu na grande realidade da vida.
E por isso mesmo, na ignorância do nome do marido eclipsado, eu o chamei acima Mr. Quelque Chose que em bom português se traduz por - ilustríssimo senhor Coisa Nenhuma.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.