Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Não compreendo isto; mas em todo caso estou firmemente decidido a resistir ao armênio, e a não consentir, a não admitir no meu armazém instrumentos mágicos.

—E se os fregueses o exigirem?

—Negarei a realidade do que não compreendo.

—E se amanhã aparecer em todas as gazetas diárias da capital a noticia da minha nova luneta mágica?

—Confio na sua discrição.

—Pois não confie; fui eu que redigi a noticia.

—Oh! que fez? exclamou o Reis.

Depois serenou logo e tornou:

—Sofrerei o que já sofri; mas desta vez lançarei todas as culpas sobre o armênio que não fala e não aparece a pessoa alguma.

—Que teima!

—Não quero no meu armazém instrumento algum que não seja obra da arte e da ciência humana. Eu já teria despedido este maldito armênio, se ele não fosse o artista mais hábil consumado, e dedicado nas minhas oficinas; tudo que sai das suas mãos, do seu trabalho, pode-se dizer perfeito; mas reputo a sua pretendida ou real magia perigosa à sociedade, ofensiva da religião, capaz até de perturbar a ordem pública.

O velho Nunes desatou a rir.

—De que ri assim? perguntou-lhe o Reis.

—Da sua inocência, respondeu-lhe o velho; vivemos na terra, no pais das artes mágicas, e o senhor se arreceia de introduzir nela obras de magia! Meu amigo, o senhor está na cidade e não vê as casas.

—Como assim?

—Creia que há magias a cada canto; olhe: como é que empregados públicos, e homens de todos os misteres e condições vivem, ganhando cinco, e gastando cinqüenta em cada ano? Só por magia. Como é que um farroupilha há dois ou três anos se ostenta de súbito milionário? Só por magia. Como é que o Brasil festeja todos os anos o aniversário da sua constituição libérrima e vive, sem exceção de um dia, fora da lei constitucional e em plena ditadura, ou sob a vontade arbitrária, absoluta de quem está de cima? Só por magia. Acredite-me: há arte mágica na vida, na riqueza, no procedimento e na fortuna de muitos; há arte mágica nas misérias da administração, nas mentiras constitucionais do governo, nas zombarias feitas à opinião, no impune desprezo do povo, e até na paciência ilimitada dos que sofrem, há arte mágica..

—Basta, Sr. Nunes; no meu armazém se conversa sobre tudo, menos somente sobre dois assuntos.

—Quais?

—A vida alheia, e a política do estado.

—Pois fiquemos no que disse. Que horas são?

O Reis consultou o relógio:

—Duas e meia.

—É tempo; em nossa casa janta-se precisamente as três horas da tarde: a alegria seria completa, se o amigo Reis se sujeitasse a fazer hoje penitência conosco.

O Reis esquivou-se cortesmente ao convite, declarando que devia sua presença a um hóspede.

O velho Nunes e eu saímos.

XII

As três horas da tarde em ponto serviu-se o jantar na casa do velho Nunes.

Éramos quatro à mesa, ele e eu, sua mulher, a Sra. D. Eduvirges, e sua filha, D. Ana, a quem os pais chamavam familiarmente Nicota. Honrando com o mais bem merecido apetite o simples jantar de família que aliás era variado, excelente, e digno da apimentada cozinha brasileira, não me descuidei de fixar a minha luneta mágica sobre as duas senhoras.

D. Eduvirges ainda bonita, era o tipo da matrona do nosso pais; boa e afável, mas recatada e grave, media suas palavras, governava seus olhos, sabia ser a rainha da casa, porém obediente ao rei por teoria de educação e prática da vida. Virtuosa sem violência, honesta sem esforços, tranqüila e plácida, feliz em seu retiro doméstico era como harmonia musical prolongada, monótona; mas em todo caso harmonia.

Nicota contava vinte e três anos, era morena, bela, agradável, jubilosa, e tinha uns olhos negros, que me pareceram crateras de lavas apaixonadas. Eu nunca tinha visto olhos como esses, e, deve-se dizer, nos olhos e no sorrir é que está a flama da vida de um rosto de mulher. A visão do bem tornou-me patentes a alma e o coração de Nicota. Inocente, suave, meiga, nascida para obediência de seu pai e do esposo, que a amasse, educada no trabalho que moraliza, na economia que não dissipa; mas não impõe privações, modesta e religiosa, ingênua e simples, engraçada e espirituosa sem saber que o é, poética no falar sem afetação, com um olhar que é fogo, com uma voz que é música, com um sorrir que e feitiço, com sentimentos em que a candideza se identifica com o amor, Nicota fez-me esquecer durante o jantar a prima Anica e a Esmeralda.

Levantei-me da mesa do jantar embriagado, completamente embriagado não de vinho; mas de amor.

Se eu não tivesse contemplado com a minha luneta mágica Anica em quase todo o dia, a Esmeralda na noite que se haviam passado, creio que no fim do jantar, que o velho Nunes me dera, me curvaria ante esse amigo, pedindo-lhe a filha em casamento.

Em meu coração sensível já lutavam não duas, mas três imagens de moças queridas, a quem eu amava com paixão igual, e sem preferência possível.

Eram três flamas ardentíssimas a consumir-me, a devorar-me a alma perdida por qualquer dessas três criaturas encantadoras e privilegiadas.

Eu amava Anica...

Amava Esmeralda...

Amava Nicota...

A preferência, a escolha entre elas era impossível...

Eu sofria muito...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4748495051...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →