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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

A esposa de Evaristo não respondeu; olhou-a, com os olhos muito lânguidos, muito mortos, encarando, em seguida, a ama, que estava em pé a seu lado. Mas a mulher do secretário derramou algumas gotas de éter num copo e deu-lhe a beber o calmante.

— Que horas são? — perguntou Adelaide numa voz débil que lhe saía do fundo do peito com outro suspiro de alívio.

— Vai para as duas... Descanse, que o Sr. Evaristo não pode tardar...

Com efeito, o bacharel não tardou. Para isso é que havia tílburis na praça e boleeiros de encomenda. Subiu a escada num vôo.

Adelaide estava melhor, muito melhor, e já se sentava na cama; recebeu-o com lágrimas, atirando-se a ele.

— Mas que foi?... que foi? — perguntava, aflito, o marido.

A esposa do secretário explicou tudo; uma crise de nervos, um desequilíbrio...

má digestão, talvez.

— Uma crise? Mas não chamaram médico?

Adelaide continuava a soluçar com a cabeça no ombro de Evaristo.

— Como chamar médico, Sr. Evaristo, se não havia por quem?...

— E o Antônio?

— O Antônio foi avisá-lo ao Banco... ora, o Antônio!

— Deixavam-te morrer, minha mulher, deixavam-te expirar à míngua! — disse o bacharel transbordando ironia. — Onde há dinheiro falta piedade... Mil vezes a Cidade Nova!

— Que quer o senhor dizer com isso? — perguntou D. Branca, ofendida.

— Que quero dizer com isto? Nada, excelentíssima, absolutamente nada.

— O senhor ofende-nos, a mim e ao Lulu...

— Eu, ofendê4a? - tornou Evaristo com um sorriso de escárnio.

— Sim, senhor: ofende-nos, tanto mais quanto nunca o maltratamos... sua senhora sempre foi muito bem tratada em nossa casa.

— Perdão, eu não vim discutir.

— Não vem discutir, mas vem ofender a quem nunca o ofendeu... Isto mesmo hei de dizer ao Lulu...

E a orgulhosa D. Branca Furtado, num assomo de cólera, que nada tinha de nobreza, embarafustou, resmungando, escadas abaixo.

— Pro diabo que a carregue! — explodiu Evaristo.

Adelaide não teve tempo de lhe tapar a boca. A frase saiu inteira, completa, dos lábios do jacobino.

— Ao dinheiro oponho eu a dignidade, morra, embora, na miséria! — continuou, afagando os cabelos da esposa.

E seguiu-se uma cena muda de carinhos entre os dois.

O próprio bacharel tinha lágrimas nos olhos.

CAPÍTULO X

Naquele mesmo dia Evaristo de Holanda mudou-se para um hotel no Campo da Aclamação. -—"Bastava de fidalgos..." Não quis levar os trastes, porque — dizia ele — não lhe pertenciam; recolheu apenas os baús que trouxera do norte, um ou outro objeto que comprara depois, inclusive um grande quadro de Tiradentes e os livros, meia dúzia de volumes encadernados.

Quando às seis horas o carro parou à porta de Furtado, a vizinhança toda chegou à janela. O desembargador Lousada, com o indefectível gorro, a mulher e a filha também apareceram, D. Sinhá, branca de pó-de-arroz, falava tão alto que se ouvia dos extremos da rua. — Só nessas ocasiões aquele trecho do bairro animavase um pouco; o mais simples episódio, um incidente qualquer fora do comum dava às casas aspecto novo de quarteirão em festa, excitando a curiosidade dos moradores, transmitindo-lhes aos nervos uma sensação especial de alegria, de bom humor e de íntima aliança entre o corpo e o espírito. Era necessário que um sopro de escândalo varresse a atmosfera estagnada dos brasões e do preconceito fidalgo para que o longínquo recanto de Botafogo sentisse um calor de vida, um frêmito de existência animal nas artérias.

Bastava o rodar de uma carruagem: todo o mundo esquecia obrigações para satisfazer uma necessidade imperiosa do espírito e do olhar. As varandas enchiamse, mil cabeças surgiam como peixes à tona d'água. Era a avidez do escândalo, a eterna bisbilhotice de operários e ociosos, de homens e mulheres, acordando para a faina do dizia-se, para a mistificação do boato.

Um carro à porta dos Furtado! Ainda se fosse o do visconde... mas não — não era o cupê do Santa Quitéria... Talvez alguma visita de cerimônia... Entretanto — coisa notável! — as janelas do primeiro andar estavam fechadas e não havia ninguém na varanda do secretário!

A filha do desembargador cravava os olhos na alta frontaria do sobrado:

— "Ninguém"!

E aquele "misterioso" veículo de segunda ordem, atrelado com animais de ínfima espécie, causava arrepios de curiosidade — era como um ponto de interrogação erguido a fidalgos e burgueses no meio de uma rua sombria.

Luís Furtado passeava de um lado para o outro, na sala de jantar. Incomodava-o a brusca retirada do amigo, não obstante as insinuações odiosas da mulher. D. Branca enchera-lhe os ouvidos: que fora desacatada pelo bacharel, que o marido "da Sra. D. Adelaide" era um grosseirão; que antes nunca os tivesse admitido em sua casa; que o culpado era ele, Furtado, homem de muitas facilidades e de pouca experiência...

(continua...)

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