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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Onze horas... meia-noite! e ela ainda velava, sem um bocadinho de sono, a matutar na vida, a pensar em frioleiras.

Entrou a parafusar no casamento da Lídia, rememorando toda a festa, tintim por tintim, com a pachorra de quem procura armar um castelo de cartas. — Assim mesmo tinha ido muita gente, sim senhora, parecia até uma festa de gente rica, inegavelmente a Lídia estava encantadora debaixo do véu de noiva. Nunca vira a igreja de N. S. do Patrocínio tão cheia de povo! ah! mas fora uma coisa horrorosa o escândalo provocado pelo Guedes. Que horror! Se fosse ela, Maria do Carmo, teria caído no meio da rua com um ataque...

Palpitavam-lhe na imaginação, como num sonho, os menores acidentes daquela noite, em que todos tomaram o seu cálice de vinho e só ela, irresistivelmente mordida de inveja por ver a sua maior amiga num trono de felicidade, ela somente se deixara ficar esquecida como qualquer lagalhé, na impotência da sua tristeza. Entretanto, se não fora o padrinho, ela também podia breve estar de caminho para a igreja, ao lado de seu noivo, metendo inveja às outras. Então é que a festa seria de estrondo! O coronel Souza Nunes abriria o seu salão iluminado como um palácio real, e haveria dança e música e um banquete lauto. E iria o presidente da Província e toda a gente grande do Ceará. Que bom seria!...

Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Romão com as calças arregaçadas, um barril na cabeça, a gritar — Arre corno! cercado de garotos que lhe atiravam pedras e sacudiam-lhe punhados de farinha-do-reino na carapinha, por detrás, no meio de gritos e assobios.

Depois o preto deixou cair o barril, que se derramou, inundando a calçada de imundícias, e ei-lo montado num cavalo magro, a fazer de palhaço de circo, uivando uma porção de asneiras, que a molecagem replicava sempre com o mesmo estribilho, a uma voz: — É sim sinhô!

Depois... (não se lembrava do resto).

Davam duas horas no relógio do vizinho, quando acordou muito assustada e nervosa a olhar para todos os lados, sem consciência exata do ambiente que a cercava. Teve um sobressalto ao ver sobre uma cadeira, perto da rede, o vestido com que fora ao casamento. — Credo, que susto!

A luzinha da vela de carnaúba agonizava numa poça de cera derretida.

E essa! Era a segunda vez que sonhava com o Romão, sem quê nem pra quê… Com certeza estava para lhe suceder alguma desgraça. Que esquisitice! Umum...

A porta do quarto, que se conservara entreaberta, rangeu nas dobradiças, como se alguém a empurrasse de manso. Apoderou-se de Maria um pavor terrível; arrepiaram-se-lhe os cabelos, e uma extraordinária sensação de frio percorreu-lhe o sangue. Ficou assombrada, sem se mexer, com o ouvido alerta e os olhos fechados, numa prostração de quem está sem sentidos. Pareceu-lhe ouvir chamar por seu nome e então subiu de ponto o terror que lhe tapava a boca como uma mordaça de ferro. Abriu os olhos para verificar se com efeito estava acordada e tornou a fechálos mais que depressa. Instintivamente fez um esforço supremo para gritar, para chamar alguém, mas não podia abrir a boca, estarrecida.

— Maria! repetiu a mesma voz, que ela julgara ouvir, uma voz fina, mas abafada, como se saísse das entranhas da terra.

E logo:

— Sou eu, Maria. É o padrinho...

De feito, João da Mata vinha se chegando, pé ante pé, sutilmente, segurandose à parede, equilibrando-se na ponta dos pés, como um ladrão, sem o menor ruído, com estalinhos de juntas.

Maria encolheu-se toda debaixo do lençol, duvidando. Tremia como um doente de sezões embiocada que nem caracol.

— Não grites, Maria, olha que sou eu, teu padrinho, tornou João da Mata agora quase ao ouvido da afilhada, agarrando-se ao punho da rede.

A rapariga respirou forte, como se saísse de dentro de um buraco, e pôde abrir os olhos, meio aliviada, presa ainda de uma grande comoção. Ao medo sucedera-lhe uma apreensão dolorosa, que o seu espírito repelia como impossível. Não teve tempo de associar idéias, porque o amanuense foi-se sentando na rede, a seu lado. — O padrinho por ali, no quarto dela, àquelas horas?... Estaria sonhando?

— Padrinho...

— Sou eu mesmo, minha flor... Olha, queres saber uma coisa?... Deixa-me descansar um bocadinho e eu te direi, ouviste?... Espera...

— Mas, padrinho!...

— Olha, não fales alto... Sou eu, estás ouvindo, eu, teu padrinho mesmo... Bico...

Maria do Carmo não compreendeu logo a presença de João da Mata ali, no seu quarto, àquela hora.

(continua...)

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