Por Inglês de Sousa (1891)
Macário estava assombrado. Nunca lhe passara pela cabeça a idéia de que um padre, um homem qualquer, pudesse conceber em seu perfeito juízo um projeto tão extravagante, mas a figura, a voz, o olhar de padre Antônio tinham tal cunho de convicção e de império, a sua bela fisionomia revelava um entusiasmo tão ardente e sincero, que o sacristão sentiu-se cheio de respeito e de pena por aquele desvio da razão, que atribuía aos desgostos ultimamente sofridos no paroquiato de Silves. Macário tinha vontade de o interromper para o consolar, para dizer-lhe que não fizesse caso daquilo, que com o tempo reconheceriam a injustiça, e outras coisas cordatas que lhe acudiam à imaginação. Mas o padre, de pé no limiar da alcova, com a mão esquerda no portal e a direita descaída ao longo da batina, numa atitude de resignação invencível, com o olhar erguido para a nesga de céu azul enquadrado pela janela que lhe ficava em frente, não dera tempo a interrupções, e continuava a falar em voz firme e mansa, de leve repassada de tristeza, como o lutador que se prepara para um combate heróico sentindo a nostalgia da vida que põe em risco; e dizia agora, provocando lágrimas, as lutas que teria de travar com o selvagem, expondo o peito desarmado e nu às flechas ervadas, combatendo com paciência evangélica os furores da ignorância, o ódio dos pajés, a vingança da raça oprimida e humilhada, vencendo pela palavra de caridade e de amor os espíritos rebeldes e rudes que senhoreavam o sertão; as privações que sofreria, sedes, fomes, tormentos desconhecidos, criados pela imaginação crudelíssima dos tuxauas; o abandono em que estaria, longe do mundo, privado de todo o socorro humano, a centenares de léguas da civilização e do cristianismo, único ser pensante entre brutos, única alma crente entre milhares de entes cegos pela ignorância e pela superstição, e tudo para morrer pregado a uma árvore, desconhecido, obscuro, sem que uma lágrima amiga lhe lamentasse a sorte, sem que a mão dum afeiçoado lhe fechasse os olhos, sem que a oração de lábios católicos derramasse o último bálsamo da fé sobre o corpo estirado e nu no solo da floresta virgem.
— O que mais me pesa! bradou Macário, sacudido por soluços violentos.
Pensar que V. Rev.ma entrega-se sozinho a tão grandes perigos!
Padre Antônio pôs-lhe a mão ao ombro, cheio de confiança:
— Não, Macário, não realizarei sozinho tão gloriosa empresa. Pensei em você, Macário, para meu companheiro de jornada. Partilharemos a glória e os perigos da missão.
A compaixão que Macário estava sentindo desapareceu por encanto. As lágrimas, umas lágrimas tolas, secaram-se. O seu pasmo foi tão grande que ficou atordoado, e como se já se visse oferecido em pasto aos selvagens do Amazonas, pôs-se a exclamar repetidas vezes:
— Eu aos mundurucus, eu aos mundurucus!
E aterrado, sentindo fraquearem-lhe as pernas, saiu da sala quase às apalpadelas, e foi refugiar-se na cozinha.
Justamente a Luísa Madeirense, labutando no quintal, cantava em voz fresca e sonora:
Lá nas matas do sertão
encontrei certo gentio,
e com medo da taquara
logo lhe chamei meu tio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.