Por Domingos Olímpio (1903)
— Espere. Deixe-me lembrar. Ela disse mais: - "Que queria você, seu Crapiúna?" – "O que, me prometeu... Olha, diabinho, tu me tens custado os olhos da cara e se não fosse porque..." — Aqui, ela afastou pra trás, e disse-lhe: — "Se é por causa da porqueira destes brincos e daqueles molambos, pode levar tudo. Basta a dor de consciência de ter alevantado um falso... Ainda quer mais?!..." – Crapiúna, estava-se vendo, ficou fulo de raiva e em termos de arremeter para ela...
— Está bem certa do que dizes, Quinotinha?!...
— Eu? Como em Deus estar no céu... Por sinal que ele abandonou, quando ela disse que, se duvidasse, não se dava de contar tudo; que mentira por pique, para se vingar de Alexandre... que não fazia caso dela... O soldado ficou calado um instantinho e pediu-lhe que não fosse mazinha, que se falasse, seria presa com ele, desgraçando-se os dois para fazerem benefício a um homem que, além de tudo, a desprezava por causa de outra mulher. Se ficasse quieta e fizesse o que ele queria, poderiam viver, sem ninguém desconfiar, como Deus com os anjos. — "Olhe — disse ele por fim — se eu fosse malvado, poderia encalacrá-la... Mas não faço isso, porque você é o meu único amor da minha alma." Continuaram a conversar, mas tão baixinho, que não pude ouvir, até que a Chica Seridó gritou lá de dentro por ela... Então, eu disse comigo: Que gente malvada! Vou contar tudo a sra Luzia. Não contei logo, porque tive medo que ralhasse comigo por eu andar escutando conversa de gente grande...
— Ralhar contigo?!... Pois se foi Deus quem te colocou ali para seres testemunha da verdade... Fizeste muito bem, Quinotinha; assim é que faz uma menina bem-ensinada. Nem podes imaginar o bem que fazes a duas criaturas: a ele e a mim. A mim, que libertaste de um grande peso que me esmigalhava o coração.
E enlaçou a menina nos braços robustos; conchegou-a ao peito, convulso, que arfava, com alvoroço, desesperadamente beijou-a em febril transporte de ternura, como beijam aos filhos as mães amorosas.
— Agora - disse a menina, libertando-se dos afagos de Luzia - deixe-me ir que é tarde... Não diga nada., nem que lhe contei... — Vai descansada...
Quinotinha partiu a correr, e Luzia continuou o caminho para casa.
A lucidez da narrativa, duma segurança minuciosa, atestava a sinceridade da menina. Alexandre, pensava Luzia radiante, está salvo, salvo da infâmia e reabilitado para ela, por sua vez libertada das sombras cruéis da suspeita. Ele ressuscitara, e, da prisão nojenta, ascendia para o céu das suas aspirações, aureolado pelo sofrimento. E ela abençoava a voz demoníaca, aquela voz sedutora e íntima, que lhe falava com a sonoridade mística de um canto angelical, e a impelia docemente para o mártir, repetindo: "Vai, curva-te como escrava e culpada, unge as suas mãos generosas com as tuas lágrimas, porque o amas."
Se Alexandre a amasse, ele perdoar-lhe-ia; ela era, agora, culpada de haver desconfiado, por mesquinho impulso de despeito, por ter recusado ao pobre a consolação da sua presença, a caridosa visita diária à prisão, e por não resistir, à crueldade pueril de devolver-lhe as pobres flores murchas, símbolo triste de afetos mortos.
CAPÍTULO XX
Teresinha conversava com a tia Zefinha, numa rútila impaciência de olhos alegres, quando Luzia chegou a casa. Falava de Alexandre, amaldiçoando a justiça que o conservava na cadeia, havia mais de um mês, por causa de imputes feitos pelo hediondo soldado, de parceria com a Gabrina, doidivanas, positivamente, quase a despencar-se no mundo, arrastada pela falta de juízo e os péssimos exemplos, porque a morada da Chica Seridó era lugar de reunião de gente mal reputada, fregueses de suas mezinhas e feitiçarias.
O semblante claro e, claramente, expansivo de Luzia, denunciou-lhe a vontade que lhe alvoroçava o coração.
— Como vem mudada! – exclamou Teresinha – Você parece que viu passarinho verde?
— É porque tenho de quê, respondeu Luzia, beijando as mãos descarnadas da mãe.
— Vamos lá. Conte-nos isso, que também tenho boas novidades.
— Já sei quem é o ladrão...
— Ora! Isso é velho para mim, como a serra dos Cocos.
— Sabia então?...
— Olé! Não sabia, mas suspeitava.
— Pois eu sei. Foi mesmo uma coisa mandada por Deus.
E repetiu, sem reservas, a revelação de Quinotinha.
— Franqueza por franqueza – disse – Teresinha, resoluta – Eu também tenho muito que dizer, coisas que me andam embuchando há muitos dias. Primeiro que tudo, fiquem sabendo: Crapiúna está preso...
— Preso?!... – exclamaram, a um tempo, Luzia e a velha.
— A onça deste pasto está muito bem guardada no xilindró... E quem conseguiu isso?
— Esta sua criada - afirmou Teresinha, com ênfase, batendo no peito, com largo gesto de contentamento.
Contou, então, como descobrira o esconderijo do dinheiro, as aflições suportadas com heroísmos fanfarronou a coragem, o sangue frio, apesar de fraca, não era mofina, e, mais não morrera de terror quando se viu a sós com o malfazejo soldado, e passear a narrar a entrevista com o sargento Carneviva.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.