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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E os convidados saltavam do bonde. O primeiro a descer foi o Freirinhas, todo vestido de brim branco de Hamburgo irrepreensível rodaque de botões de osso, uma enorme cadeia de cabelo prendendo o relógio e dependurado nela um anel de ouro, onde se lia esmaltado 'Saudade”. Trazia, por causa do pó, umas lunetas azuis, grandes, verdadeiras vidraças, que lhe davam à grande fisionomia o tom pitoresco de uma casa de campo; Um chapéu de feltro branco, peludo, alto, a que os gaiatos da província denominavam “Carneiro” e do qual o dono contava maravilhosas propriedades. “Era uma pena!... Podia a gente machucá-lo à vontade sem ofender o pêlo, de bom que era! Custara vinte mil-réis, mas valia cinqüenta a olhos fechados!” E, com a bengala de unicorne debaixo do braço, ajudava a sua gorda Lindoca a descer do bonde com dificuldade. As meninas Sarmento, acompanhadas da tia de Eufrasinha e um cachorrinho branco e felpudo. que esta trazia ao colo, saltaram, cheias de espalhafato, muitos risos, latidos, cores vivas nos chapéus e nas sombrinhas. O famoso cabelo ostentava-se, mais que nunca, em cachos acastelados e trescalantes de óleo de babosa. O cônego, discretamente risonho e sempre janota, vinha seguido por um padrezinho magricela, que desfrutava na província a especialidade de cantar ladainhas; alcunhavam-no de “Frei Lamparinas”. O Sebastião Campos, vestido de branco como o Freitas, porém de paletó e chapéu-do-chile, pulara em terra, abraçado a uma grande cesta de busca-pés, pistolas, carretilhas e bombas.

— E o mantimento! respondia ele aos olhares curiosos.

Tinha paixão pelos fogos.

— Sou perdido por isto! dizia mostrando uma luva grosseira feita de sola, com que tocava os formidáveis busca-pés.

Nos sábados de Aleluia era o seu luxo queimar um judas defronte da casa; não perdia fogo de vista nas festas de arraial e sabia fazer bichinhas, carretilhas e foguetes.

Apresentaram-se também, fora da rodinha do costume, dois novos convidados; Um levado por Manuel e o outro pelo Casusa. O primeiro era o Joaquim Furtado da Serra, bom homem, do comércio, muito amigo da família e tapado como um ovo, o que, alias, não impedia que estivesse rico. Só entendia e só conversava sobre negócios, gostava de fazer bem e era membro de várias sociedades filantrópicas. Vivia contente da vida, cheio de amigos e obsequiados, estava sempre a rir e a falar das suas três filhas. “Não puderam ir à festa de Manuel, coitadinhas! porque ficaram à cabeceira de Uma doente...” Não queria comendas nem grandezas; contava a todos como principiara no Brasil descalço, com um barril as costas, e orgulhava-se, entre gargalhadas, da sua atual independência. O outro era um rapazola de vinte e dois anos, que à primeira vista, parecia ter apenas dezesseis: magro, puxado, muito penteado e muito míope, com as unhas burmidas, o colarinho enorme e os pés apertadinhos em sapatos de polimento. Estudava no Liceu da província, usava uma cadeia de plaquê brilhantes falsos no peito da camisa e uma bengalinha equilibrada entre o indicador e o índex da mão direita; tinha uma coleção de acrósticos e recitativos da própria lavra, uns inéditos e outros já publicados a dinheiro nos jornais aos quais qualificava desvanecidamente de “seu tesouro!” Chamava-se Boaventura Rosa dos Santos; era conhecido por “Dr. Faisca” e gostava de fazer e adivinhar charadas.

Entraram todos em casa, numa desordem, acossados pela música, que atropelava Uma polca do Colas, e por Uma intempestiva carretilha que soltara Sebastião. Houve sarilho. José Roberto, debaixo de tempestuosa descompostura, obrigava D. Amância a dar meia dúzia de voltas pela varanda, indo cair ambos, perseguidos pelo Joli, sobre um banco de paparaúba. Joli era o cãozinho da Eufrásia.

No furor da terrível dança, desprendera-se o coque de Amância e fora parar no jardim. Joli saltara-lhe logo atrás e destripava-o freneticamente com os dentes.

— Olhe, seu Casusa! Gritou a velha, quase sem fôlego, você não de perca o respeito, seu pica-fumo! Quando tomar suas monas, meta-se em casa com os diabos! Credo! Que cachaceiro acabado! Vá tomar liberdade com quem lhas dá! Diabo do sem brios!

O coque foi arrancado das garras do Joli e restituído à dona.

— Vejam! Vejam em que bonito gosto me puseram o meu coque de pita! Parece uma rodilha de limpar panelas! Diabo da brincadeira estúpida! Também, em vez de criar xerimbabos, seria melhor que cada um cuidasse de sua vida, que teria muito do que cuidar!

E voltando-se para Sebastião:

— Mas o culpado é você, seu Sebastião; com você e que me tenho de haver!

— Não posso perder o meu coque novo!

— Novo quê! . contestou Casusa Eu vi pular de dentro dele uma aranha!

— É novo, e quero outro p'r'aqui!

— Está bom, meus senhores, deixem-se disso, interveio Manuel, e vamos ao café, que está esfriando!

— Mas o meu coque? Isto não pode ficar assim! — A senhora terá outro. descanse!

(continua...)

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