Por Aluísio Azevedo (1895)
Ainda no corredor foi detido pelo Coruja, que lhe disse com reserva:
- Acho bom que não subas agora! Aquela sujeita do Almeida, a Ernestina, está aí A tua espera. Não subas!
- Está aí? perguntou Teobaldo deveras contrariado. Que diabo quer ainda de mim essa mulher?
- Não sei; diz o Caetano que ela já aí está há quatro horas.
- Ora esta! E, logo hoje, que eu precisava dormir!
- Recolhe-te mais tarde; ela talvez não se demore.
- Qual! Vou despachá-la! Verás!
E, enquanto subia a escada acompanhado pelo amigo:
- Não faltava mais nada!... Estou mesmo muito disposto a aturar mulheres!... Já me bastam as maçadas que me dão as outras! Além dela ninguém me procurou?
- Depois de eu chegar, não.
Teobaldo tinha por costume perguntar sempre se alguém o procurara na sua ausência. É que esperava que a fortuna viesse um belo dia ao encontro dele, como vinham as mulheres; era uma espécie de vaga confiança no acaso; um modo preguiçoso de desejar ser feliz.
Assim, quando pilhava dinheiro, arriscava algum na roleta ou na loteria.
Foi de mau humor que ele entrou na sua pequena sala, abriu a porta com um empurrão e dirigiu-se de cara fechada para a rapariga, que o esperava. - Teobaldo! exclamou esta, querendo lançar-se-lhe nos braços.
- Perdão! disse o perseguido, afastando o corpo. Não estou disposto a dar abraços; venho incomodado. Faça o favor de dizer o que deseja, mas que seja breve!
- Oh! não te reconheço! Não pareces o mesmo!...
- Diz muito bem! Eu com efeito já não sou o mesmo. Grandes transformações se deram na minha vida. - Adiante!
- Compreendo; é que amas a outra!
- Ai, ai, ai, minhas encomendas! gritou o rapaz, sem poder dominar a impaciência. Teremos ainda discussões sobre o amor? Mas, minha senhora, há uma porção de dias que não ouço falar em outra coisa! Estou farto! o que se pode chamar farto! Oh!
Ernestina pôs-se a chorar.
- Então, então! resmungou ele; deixe-se de asneiras e diga o que a trouxe.
- Ah! já não me posso iludir; amas a outra!
- Engana-se! Não amo mulher alguma!
- Nem a mim?
- Mas que lembrança foi essa a sua de vir aqui? Há mais de dois anos que nos separamos, creio que sem protestos e sem juramentos!... E vê-la assim, sem mais nem menos, tirar-se dos seus cuidados e...
- É que então eu não era livre, não podia acompanhar-te: vi via meu marido!
- Marido?
- Sim. O Almeida afinal enviuvou, casou-se comigo, e três meses depois faleceu nosmeus braços.
- Que não casasse... respondeu Teobaldo, rindo.
- És cruel!
A mesma frase da outra, pensou ele, com um suspiro de tédio.
Ernestina circunvagou os olhos em torno de si, para certificar-se de que estava a sós, e acrescentou:
- Um dia ofereceste-me a tua proteção, não é verdade? Venho reclamá-la...
- Sim, mas é que os tempos se mudaram; já não tenho com que proteger ninguém, nem a mim mesmo! Estou na espinha!
- Teobaldo! eu não vim pedir-te esmola!
- Então diga o que veio pedir.
- Vim em busca de amor! Para esquecer-me de ti fiz o que era possível; nada consegui e cá estou, disposta a afrontar o último sacrifício, contanto que fique ao teu lado. Amo! e, dizendo isto, tenho dito tudo!
- Sim?... perguntou o rapaz, apertando os olhos. Mas não me fará o obséquio de dizer que culpa tenho eu disso?
- Não sei; amo-te, e nós, as mulheres, quando amamos deveras, somos capazes de tudo! - Pois se é capaz de tudo, veja se consegue deixar-me em paz!
- Menos isso!
- Pois, olha, filha, custa-me a confessar, mas acredite que estou em uma tal situação que não me é possível absolutamente pensar em mulheres. Não imagina! Acho-me com a vida muito atrapalhada; falta-me tempo para tudo; os dias fogem-me por entre os dedos como se fossem minutos. Se a senhora é minha felicidade, não queira ser a primeira a criar-me novos obstáculos. Já tenho tantos!
- Não! Quero apenas saber se amas a uma outra mulher.
- Não! já lhe disse que não, e acrescento que se não amo, é porque não posso, é porque não tenho jeito, não tenho tempo, e é porque agora me faltam recursos para isso! Está satisfeita?
- Pois, se não amas a outra, juro-te que hei de, A força de dedicação, fazer-me amada por ti! Verás!
- Aconselho-lhe que não tente semelhante coisa! Perderia o seu tempo! O que não falta por aí são rapazes em muito melhores circunstâncias do que eu. Experimente e verá!
- Mas se só a ti desejo e amo? Se ninguém é belo, forte, inteligente como tu?
- Sempre a mesma cantiga! exclamou Teobaldo. Malditos dotes! Afinal, preferia ser mais feio do que o Coruja!
- Não blasfemes!
- Qual blasfemes, nem qual histórias! Quer saber de uma coisa? Errou a pontaria. Veio buscar amor? Pois bem - não há!
E, passeando de um lado para outro furioso:
- Oh! oh! é demais! Não tenho obrigação nenhuma de aturar isto! Apre!
Ernestina defronte daquele transbordamento de cólera, principiou a soluçar, dizendo que era a mais desgraçada das mulheres; que amava um homem que a tratava daquele modo, e, enfim, que - se Teobaldo não estivesse disposto a ser mais generoso, ela daria cabo da vida.
- Faça o que entender, minha senhora!
- Tu serás a causa. de minha desgraça!
- Paciência!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.