Por Aluísio Azevedo (1884)
Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dançarina requestada com as suas intransigências de mulher honesta e com os eternos desvarios de seu temperamento romântico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento de sua fantasia, transformando-o e disfarçando-o sob as singularidades de seus caprichos, dando-lhe atrações que ele por si não tinha, e sem as quais ela não o poderia suportar.
As ternuras do Borges só lhe alcançavam o coração depois de filtradas por uma rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta é para o sopro — o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.
Queria todos os beijos do esposo, sim! contanto que não viessem naturalmente, sem obstáculos a vencer ou conveniências a guardar. Era preciso que houvesse necessidade de escondê-los de alguém, de obtê-los com sacrifício de alguma coisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfianças, promover comentários.
Não consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que não fosse ela. Exigia que o marido só deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terrível, quando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistificação tornava-se indispensável para a ventura de Filomena.
O botocudo intrigava muita gente: — Seria crível que uma mulher, tão formosa e tão lúcida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?... O monstro seria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples réclame?...
E os comentários reproduziam-se entre os freqüentadores do Cirque d'hiver à proporção que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada e menos condescendente.
Em alguns passeios de distração que fez aos arredores de Paris, quase sempre escoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que não queria acompanhada de selvagem, tinha de segui-la a certa distância, usando de todos os expedientes para não ser descoberto e para que não suspeitassem de leve que ele ia à pista da brasileira.
Estava nisto empenhada a sua honra, isto é, a honra do marido de Filomena.
Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasiões alguns momentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas; tinha de saltar muros, às vezes servir-se da chaminé, introduzir-se-lhe no quarto, por alta noite, a tripetrepe, quando não fosse pressentido por nenhum dos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em pé, à espera do primeiro escândalo.
E tudo isso o torturava abertamente. — Maldita fosse a hora em que ele se fez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.
Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris invadindo as redações das folhas, os salões, os ateliers, os boulevards, os cafés, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes costureiras e o quinto andar dos magros estudantes.
Atribuíram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe canções e trolets, publicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.
E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricatura, em fotografias, em cromos, em caixinhas de fósforos, em bustos de gesso, em nervoso grevíns de terre culte. E por toda a parte a pareceram chapéus, fazendas, penteados à Filomena Borges. Seu nome serviu de título a casas de negócios; suas toillettes serviram de modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas. traduzidas em todas as línguas.
Quando ela terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa, possuía em dinheiro e em jóias mais que o necessário para viver tranqüilamente o resto de sua vida.
Por outro lado, o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o incômodo papel de botocudo e retomara o seu titulo de barão de Itassu, rogava-lhe com instância que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com ele a um cantinho feliz da pátria — a Paquetá, por exemplo, a Paquetá de que ele tinha as mais vivas saudades!
— Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era mais que tempo de regressarem! Ele estava farto de nunca ser aquilo que era, de nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito!... Para que ir mais longe?... Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham já experimentado todas as comoções; haviam percorrido já toda a escala da vida humana — riram-se com os felizes, choraram com os desgraçados — sofreram e gozaram; tiveram o que há de bom e o que há de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!
A baronesa, porém, sorria desdenhosamente às palavras do marido:
— Ela voltaria à pátria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser precedida de réclames e anúncios retumbantes! Queria entrar no Brasil com ruído, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a população, desencaixilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola, que tinha i suprema honra de lhe haver dado o berço!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.