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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Não! A minha sepultura é tão fria e eu morri tão moça... que, à noite, quando os vivos dormem, preciso vir aquecer-me nos braços de Ângelo... Não é assim, meu amor?... acrescentou ela, indo ter com o companheiro.

Este, porém, não respondeu, nem desviou os olhos das riquezas da caverna.

— E ele te ama?... perguntou o demônio à cortesã.

— Adora-me! afirmou a interrogada; e por mim ama a vida e os prazeres.

— Queres dinheiro, já sei, tornou aquele. Entra e enche-te à vontade. Leva o que quiseres; tudo o que levares, voltará multiplicado!

Alzira entrou na gruta. Ângelo quis acompanhá-la; o gênio de Ouro deteve-o de novo.

— Espera! Ouve! disse.

E tomou-o amigavelmente pelo braço, acrescentando: — Que te falta, ambicioso?... Que te falta para seres feliz?... Tens mocidade e dispões da bolsa de Alzira, a quem é permitido fartar as mãos neste inesgotável tesouro! ...

— O que me falta? volveu Ângelo. Falta-me tudo! falta-me o poder absoluto! Queria ser um homem tão poderoso, que a um gesto meu o mundo inteiro se curvasse submisso e escravo!

— Por pouco que desejavas ser Deus!

— Oh, não! Não me fale em Deus! Não lhe invejo a grandeza! Queria uma glória mais humana, queria ter as conquistas de César e Alexandre, ligadas ao genial prestígio de Homero e Dante!

O demônio sorriu, mostrando os seus dentes de ouro luminosos, e replicou depois, fechando de novo a fisionomia:

— Não posso satisfazer tanta ambição!... Conquistam-se tronos, como verá teu espírito no século futuro, porque um homem virá ao mundo, e mesmo em França, tão atrevido, que com a ponta de sua espada descobrirá as régias frontes, para guarnecer a sua cabeça de soldado com uma coroa de imperador... Sim! conquistam-se coroas de rei, mas não se conquista a coroa de louros do mendigo de Tebas, porque essa não cabe em nenhuma outra cabeça. Falaste em Dante!... faze tua alma tão grande como a dele, e serás o mais desgraçado dos homens... Abre-lhe o cérebro, abre-lhe o peito, abre-lhe os intestinos! encontrarás nessas três regiões do pensamento, do amor e da animalidade, o modelo dos círculos do inferno, que ele traçou no seu lancinante poema. E nesses círculos só uma força há que os iguala e nivela, é a dor! A dor de quem pensa, a dor de quem ama e a dor de quem tem fome! Queres ser feliz?... Vive bestialmente! opõe os teus sentidos ao teu cérebro e ao teu coração! Sê bruto, meu filho! A natureza é um pasto de bestas— espoja-te nele, se quiseres gozar a vida!

E tirou da cinta um punhal de ouro, que apresentou ao seu interlocutor, acrescentando:

— Guarda esta arma! Defende-te com ela e vencerás sempre!

Ângelo apoderou-se do punhal.

— Obrigado! exclamou. Obrigado! Com esta arma poderei dominar os meus semelhantes!

— Se foras deveras um ambicioso!... Mas não o és, pois ao contrário principiarias por tentar vencer a mim próprio, para te apoderares dos meus tesouros... Adeus! Não passas de um ambicioso vulgar!...

E recolheu-se à gruta.

Alzira saiu logo em seguida, fechando-se sobre ela o pedregulho da entrada.

Fez-se de novo escuridão completa. As aves recomeçaram a doudejar desesperadas, perseguindo agora a cortesã, como se lhe faiscassem o dinheiro que ela levava consigo.

Alzira, com efeito, vinha carregada de ouro e pedras preciosas.

— Vamo-nos daqui! disse ao companheiro.

E puseram-se a subir a montanha, com os braços na cintura um do outro.

Ângelo ia preocupado e triste.

— Que tens tu?... perguntou-lhe a amante ao fim de algum tempo de caminho.

— Nada! tartamudeou ele.

— Tremes, meu amigo!... — É do frio da noite...

E nesse instante saiu-lhes em frente meia dúzia de salteadores armados, cortando-lhes a passagem.

O amante de Alzira mal teve tempo de puxar o seu punhal e passar a amada para trás de si.

— Matem o homem e prendam a mulher, que a quero para mim! ordenou o chefe da quadrilha.

Mas os primeiros bandoleiros que se precipitaram sobre o viajante, caíram apunhalados, rolando a montanha.

— Matem-no, com um milhão de raios! exclamou furioso o chefe, levando a arma ao rosto e fazendo pontaria sobre o assaltado.

O tiro partiu, alcançando um dos bandidos, enquanto mais dois caíram aos pés de Ângelo.

— Ah! bradou o chefe, desembainhando o seu sabre; agora somos apenas um homem contra outro homem, pois veremos qual dos dois fica com esta mulher!

E atirou-se de um salto sobre o adversário, que o esperou na ponta da sua arma invencível.

— Maldito sejas! bramiu aquele já ferido. Hei de matar-te!

— Hás de morrer! tornou o outro, abrasado de cólera. Nunca mais terás olhos para cobiçar a minha amante!

E arrancando contra ele, coseu-lhe o peito a punhaladas.

— Ai! gemeu o salteador agonizando.

— Fujamos! segredou Alzira, puxando pelo braço o companheiro.

— Não! Hei de beber-lhe primeiro o sangue! Hei de beber o sangue de todo aquele que pretender arrancar-te de meus braços!

E vergou-se sobre o cadáver, colando-lhe os lábios a uma ferida do peito que sangrava.

— Ângelo! Ângelo! partamos! Olha que aí vem o dia! exclamou a cortesã.

(continua...)

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