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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Quando chegou a Itambé seria meia-noite. Fazia brando luar. Tendo sido muito abundantes as chuvas aquele ano, o mato fechara consideravelmente e quase tomara os cinco ou seis caminhos que iam ter na casa. Tunda-Cumbe dividiu a gente em partidas iguais, cada uma das quais tomou a direção conveniente pelo caminho que lhe incumbiu percorrer. A casa não poderia resistir a sessenta homens, que simultaneamente a atacassem por todos os lados; mas não surtiu o plano o menor efeito, porque antes de chegados os atacantes ao ponto, diferentes tiros, partidos de dentro dos matos e canaviais lançaram susto e pavor no animo daqueles que tomavam da surpresa ou emboscada a sua principal valentia. Tunda-Cumbe, receoso de forças que não conhecia, ordenou a retirada.

Foi o caso que tendo Matias Vidal negros e moradores de sua confiança, devidamente espalhados por dentro do mato, e empregados em vigiar durante a noite os caminhos, por sinais assentados antes tinham estes vigias dado aviso da aproximação do bando aos outros negros e moradores, que correram sem demora a impedir o passo aos assaltantes. De há muito suspeitava Matias que o Tunda-Cumbe, em oferecendo-se ocasião oportuna, não deixaria para mais tarde a sua desforra. Todavia, não estaria preparado para frustrar tão facilmente este ataque inopinado, se outra razão o não determinasse a ter prontos meios de debelar qualquer agressão, por forte e súbita que fosse. É a razão que diremos. Assentado ficara entre os nobres em casa de João da Cunha, antes de dissolvido o ajuntamento aí celebrado na noite de S.João, que, não obstante dever-se esperar, para resolução definitiva, por noticias e indicações formais das autoridades e amigos da capital, prudente era que cada um dos proprietários presentes tratasse de organizar sem perda de tempo terços defensivos, com seus moradores e escravos. Dado este importante passo, era fácil dentro em pouco tempo, no caso de necessidade, mobilizar-se em Goiana uma grande massa de gente, que acudisse ao primeiro reclamo da capital, quer para engrossar o cerco, se esta fosse a idéia predominante, quer para tomar de assalto o Recife e destruir o governo constituído pelos mascates dentro nesta vila. Se não fossem reclamados socorros, nem por isso se perderia o que estivesse feito, visto que, devendo-se ter por mais que provável que a reação se generalizasse mais dia menos dia, ter cada um dos senhores-de-engenho junto de se seu contingente, era o mesmo que estar defendido em sua família e propriedade. A demonstração pratica da excelência e sabedoria deste acordo, foi Matias Vidal o primeiro que a teve, pelo que fica escrito.

Esta lição, porém, longe de encurtar, posto que fosse incruenta, os arrojos do chefe dos bandoleiros, o incitou a investida ainda mais grave.

O dia seguinte sendo Domingo, apresentou-se ele muito cedo na vila, deliberado a praticar qualquer distúrbio, que, produzindo escândalo, para logo desse lugar a que seu nome soasse como o de um diligente e fiel servidor dos mascates, tanto em Goiana, testemunha do insulto, como no Recife, aonde logo havia de chegar a noticia dele.

Estava-se em 3 de julho. Os espíritos achavam-se por extremo excitados. Os parciais da nobreza, animados por saberem que tinha ela por se o governador, já restituído a sua liberdade, não perdiam ensejo de exaltar a sua força e ostentar o poder que dá a autoridade. Os parciais dos mascates não faziam por menos, publicando que sem dinheiro comprariam os mais nobres da terra, inventando inumeráveis relações de comunidade entre os rebeldes proeminentes e o governador geral do Brasil, d. Francisco de Souza, seu filho, e outros importantes vultos da Baia e de Portugal.

Varias eram as pessoas que na botica do Rogoberto matavam o tempo enquanto o sino da matriz não vibrava a Segunda chamada para a missa conventual. Entre essas pessoas apontavam-se Jeronimo Paes e Belchior. Serviam de assunto as ultimas noticias chegadas do Recife. Eis a substancia de tais noticias. D. Manoel, logo que se achou de novo de posse da autoridade, mandou publicar na vila o edital pelo qual eram intimados os oficiais da milícia e os demais moradores que estavam em armas a retirar-se das fortalezas com as respectivas guarnições, a fim de entrarem os povos no sossego do costume, sob pena de serem havidos por traidores e inimigos da paz, e ficarem por isso sujeitos ao rigor das leis. Não tendo querido, porém, os revoltosos aceitar estes avisos, e devendo-se por isso dar começo a procidencias mais enérgicas, para as quais, por ser de paz e perdão o seu ministério, não se julgava o mais próprio, resolveu encarregar do governo militar o ouvidor geral, dr. Luiz de Valenzuela Ortiz, o mestre de campo Christovão de Mendonça Arraez e o senado da câmara de Olinda, que se compunha do coronel Domingos Bezerra Monteiro, capitão Antonio Bezerra Cavalcanti e tenente Estevão Soares de Aragão.

(continua...)

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