Por Franklin Távora (1876)
— Ai ! disse a moça. — Não posso mais.
Tinha as faces em brasa, e os olhos, injetados, acusavam a febre ardente que a consumia desde a noite anterior.
— Não esmoreças, meu bem — disse o mancebo. — Havemos de ser felizes.
— Onde ? Neste mundo ? — perguntou ela com incredulidade. — Na terra não há felicidade, Cabeleira; na terra só há dores e prantos, saudades e remorsos.
— Pois eu te mostrarei que se pode ser feliz no deserto, no fundo das brenhas. Não matarei mais a ninguém, meu amor. Bem dentro da mata virgem, em um lugar que só eu conheço, há um olho d'água, que nunca deixou de correr. Junto deste olho d'água há uma chã, no fim da chã um bosque, e por detrás do bosque uma montanha imensa que rompe as nuvens. O olho d'água nos matará a sede todo o ano, na chã levantarei uma casinha de palha para nós; no meio do bosque abrirei um roçado que nos há de dar farinha, macaxera, feijão e milho com abundância; e quando a seca for muito forte, como esta, subiremos a serra, e aí passaremos dias melhores.
— Se assim fosse… Se assim pudesse ser… — balbuciou Luísa.
— Por que não ?
— Por que ? Porque a desgraça aí está para desmentir o seu sonho, Cabeleira.
— Olha, Luisinha. Os homens me deixarão logo que eu não os ofender mais.
Não sei ainda trabalhar, mais hei de saber. Tu me ensinarás, e eu aprenderei.
O Cabeleira disse estas palavras com a ingenuidade e doçura de uma criança. Luísa não se pôde conter; correu a ele, e pela segunda vez o apertou em seus braços e cobriu com as suas lágrimas. Ele abraçou-a e beijou-a com a efusão do primeiro amor, que, depois de longamente adormecido, desperta de súbito com as energias que cresceram durante o sono, e se fizeram forças invencíveis.
— Ali adiante — disse o Cabeleira apontando para um embastido de árvores que aparecia ao pé de um serrote — poderemos passar a noite, a nossa primeira noite de noivado.
Luísa estremeceu, e suspirou. Se não se tivesse arrimado ao braço do bandido, teria caído.
— Triste noivado, Cabeleira, triste noivado, que se cobre de prantos e luto.
— Não te amofines assim. O Cabeleira não é mais o assassino, Luisinha. O ladrão, o matador já não está aqui ao pé de ti. Quem aqui está é um homem que quer ser um homem de bem.
Deram o andar para o lugar indicado.
A este tempo o sol tinha desaparecido, e o horizonte estava já envolto nas sombras precursoras da noite. Nem leve brisa movia as folhas dos matos mudos e quedos.
Os perfis das árvores solitárias desenhavam-se, no fundo do pavoroso ermo, como perfis de fantasmas.
Os fugitivos entraram no embastido, e depois de alguns passos deram em uma clareira, espécie de asilo reservado pela natureza aos peregrinos que vagam sem rumo e sem guia.
Uma fogueira foi logo improvisada para terem luz durante a noite e evitar que se aproximassem as onças cujos uivos medonhos começaram a repercutir nas quebradas e gargantas das serras.
Procurava o mancebo galhos secos para entreter o fogo quando, ao pé de uma árvore que se levantava a um lado da clareira, deu com uma tosca cruz de pau cravada na terra.
Era quase noite, e, no meio das sombras crepusculares, confundiu ele ao princípio o emblema da redenção com um tronco de árvore cortada por algum viajante transviado, ou despedaçada pela tormenta.
Quando reconheceu o sagrado emblema, o Cabeleira, suspenso pela surpresa, sentiu-se abalado ao mesmo tempo por uma comoção desconhecida. No lugar ocupado pela cruz tinha ele assassinado um ano antes um marchante de gados para lhe roubar o dinheiro que trazia da feira em Santo Antão.
O bandido voltou o passo atrás horrorizado e correu em busca da moça, gritando, como um menino:
— Luisinha ! Luisinha !…
A moça aflita sem saber por que, lançou-se ao seu encontro e o recebeu em seus braços.
— Ninguém te há de tirar daqui — disse ela, suspeitando que o queriam prender. — Não, não, tu me pertences. Deus ajudou-me a parar-te no caminho do bem. Ninguém tem mais o direito de te perseguir.
— Eu o vi lá outra vez, Luisinha. Ele olhou-me silencioso e triste.
— Ele quem ? — perguntou ela.
— O marchante; o velho a quem assassinei para roubar. Lá está ele com os cabelos brancos ensopados em sangue.
— Meu Deus ! Meu Deus ! — exclamou a moça. — Cometeste ainda um assassinato, Cabeleira ? Meu Deus, quanto sou infeliz !
— Não, não foi agora; faz um ano; foi ali, junto do jatobá. Olha; não vês aquela cruz de pau enterrada no chão ? Foi aí que matei o sertanejo.
É impossível descrever a comoção de ambos. O sítio, a hora, tudo concorria para dar à impressão uma intensidade que ia ao fundo do coração, à medula dos ossos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.