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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— Anhambira, eis aí chegado o dia em que Itajiba vai ver coroados todos os seus desejos recebendo por companheira tua formosa irmã, e em que eu, amaldiçoado pelos céus e repelido pelos homens, irei longe daqui pôr termo a esta odiosa existência. Vai, meu amigo, vai ver e abraçar tua bela e feliz irmã e esse teu novo irmão que não conheces. Possas tu viver junto deles vida longa e feliz, e não te esquecer jamais do teu infortunado amigo, que ralado de amarguras, abandonado pelo céu e pelos homens, só poderá encontrar repouso no seio da morte. Vai, Anhambira, e recebe o meu último e doloroso adeus!

Anhambira respondeu-lhe chorando:

— Quão mal me conheces tu, Inimá, a mim, que sempre te amei e te acompanhei em todos os trances da vida! como acreditas que eu possa abandonar-te hoje, quando mais precisas de um amigo leal e dedicado que te alente e console no infortúnio em que jazes?... irei somente ver minha irmã e dizer-lhe o último adeus, pois não poderei viver em companhia desse estrangeiro teu rival e teu algoz, e voltarei a teu lado para acompanhar-te sempre e a toda parte que fores. Adeus, que breve estarei de novo contigo.

Nobre e leal mancebo! mal sabia ele que horríveis e sinistros pensamentos volviam em sua mente obcecada pelo ódio àquele a quem votava tão sincera e estremosa amizade! Anhambira saiu acompanhado de outro guerreiro, que Inimá mandara acompanhá-lo; depois de terem atravessado grande extensão de mata chegaram às tabas, e costeando o rio passaram pelas fogueiras através de uma imensa multidão, que se entregava com entusiasmo a toda a espécie de divertimentos, até que chegaram a uma pequena taba retirada a pouco a distância da de Oriçanga, meio escondida entre moitas de coqueiros e outros arvoredos, e onde não chegava senão mui frouxamente o clarão e o ruído das festas.

— Espera aqui, diz o companheiro de Anhambira ao entrarem na taba; eu vou chamar Guaraciaba, e dentro em um momento ela aqui estará contigo.

— Como! volve-lhe Anhambira com surpresa, por que razão não poderei eu mesmo ir lá vê-la?

— Tu não vês, replica-lhe o guerreiro, que o teu aparecimento inesperado na taba do cacique iria excitar as suspeitas do desconfiado e sombrio Itajiba, que não te conhece e te tomaria pelo próprio Inimá? amanhã poderás, se quiseres, pendurar tranqüilamente a tua rede na taba de tua irmã, e passar teus dias ao lado dela; mas por hoje é preciso cautela ainda.

Anhambira com a ingenuidade de uma alma pura acreditou, e assentado em um leito de peles esperou refletindo consigo:

— Melhor é mesmo esperá-la aqui; não serei obrigado a ver esse homem orgulhoso e fatal, que é a causa da ruína do meu amigo.

Em um espaçoso salão da taba de Oriçanga, ornado com todo o luxo de que os selvagens podem lançar mão, achava-se reunido o que se poderia chamar a corte do velho cacique. Em um ângulo da sala Guaraciaba cheia de emoção, que dá a felicidade, recostada em uma fina rede ricamente entretecida de lindas e mimosas penas, como uma rolinha deitada em ninho de flores, mal tomava parte nos brinquedos e conversas das companheiras, que a rodeavam. Estas, assentadas a seus pés sobre macias peles ou esteiras delicadamente tecidas, brincavam e garrulavam como um bando de andorinhas em manhã de primavera. Um guerreiro simplesmente ataviado, como quem viera dos combates, e não de festas e regozijos, se aproxima respeitosamente dela, e diz-lhe:

— Guaraciaba, raio de luz, flor de beleza, esposa feliz do poderoso e invencível Itajiba, venho anunciar-te que teu irmão Anhambira é vivo, e se o quiseres, poderás vê-lo neste momento.

A estas palavras Guaraciaba salta alvoroçada fora da rede, como o filho da ema que acode pressuroso ao grito da mãe que o chama com o alimento no bico.

— Que dizes, guerreiro? exclama ela; é vivo Anhambira?... quero vê-lo e já. Neste feliz dia o céu como que porfia em colmar-me de todas as aventuras!

— Sim, Guaraciaba, teu irmão é vivo, está entre nós, e te espera não longe daqui; por milagre escapamos eu e ele ao furor dos inimigos; se desejas vê-lo já, acompanha-me.

— E por que não vem ele mesmo aqui apresentar-se?

— Porque sendo amigo íntimo de Inamá não quer aparecer diante de Itajiba, e deseja falar contigo a sós; por isso me enviou para fazer-te este pedido.

— Pois irei eu mesma vê-lo, visto não estar longe, e o trarei para a taba de meu pai, onde será sempre bem-vindo.

E Guaraciaba deixou suas companheiras, às quais disse voltava naquele momento, e acompanhou pressurosa ao guerreiro, que a guiou à cabana isolada em que se achava Anhambira.

Poucos momentos depois outro guerreiro de igual aparência aproxima-se com ar misterioso de Itajiba, que na outra extremidade da sala recebia as homenagens e felicitações dos que o rodeavam, e diz-lhe em voz baixa:

— Itajiba, queres saber quanto é fiel a esposa que possuis?

Sobressaltado com tão extraordinária pergunta, Itajiba responde:

— Estás louco, guerreiro! a que propósito vem a tua pergunta? quem melhor do que eu conhece a meiga e fiel Guaraciaba?

(continua...)

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