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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Seixas desceu ao jardim e percorreu os passeios sinuosos do prado artificial coberto de fina grama, e recortado à inglesa. Os tabuleiros de margaridas e boninas, abertas ao primeiro raio de sol, recamavam com suas coroas matizadas a verde alcatifa de relva. Fúcsias e begônias lastravam pelas grades das latadas compondo graciosos bambolins como os tirsos de flores caprichosas. 

Os botões das camélias e magnólias cheios de seiva haurida com a frescura da noite, esperavam o calor do dia para desabrochar, enquanto as flores da véspera que tinham cerrado o seio à tarde, abriam-no de novo, mas pálido e langue, para despedir-se do sol, que lhes tinha dado a vida, e a crestara, como o caprichoso artista. 

Seixas, como homem de sociedade que era, conhecia a natureza de tradição apenas, ou quando muito de vista. As árvores, as flores, as perspectivas, eram para ele ornatos, que se confundiam com os tapetes, cortinas, trastes, dourados e toda a casta de adereços inventados pelo luxo. 

A força de viverem em um mundo de convenção, esses homens de sociedade tornaram-se artificiais. A natureza para eles não é a verdadeira, mas essa fictícia, que o hábito lhes embutiu, e que alguns trazem do berço, pois aí os espera a moda para fazer neles presa, transformando-lhes a mãe, em uma simples produtora de filhos. 

Freqüentemente, em seus versos, Seixas falava de estrelas, flores e brisas, de que tirava imagens para exprimir a graça da mulher e as emoções do amor. Pura imitação: como em geral os poetas da civilização, ele não recebia da realidade essas impressões, e sim de uma variada leitura. Originais somente, são aqueles engenhos que se infundem na natureza, musa inexaurível porque é divina. Para isso é preciso, ou nascer nas idades primitivas, ou desprezar a sociedade e refugiar-se na solidão. 

Naquele momento porém, assistindo ao romper do dia, ali no meio do jardim, Seixas sentia que além das cores brilhantes, das formas graciosas e dos perfumes agrestes, havia alguma coisa de imaterial que palpitava no seio desse ermo, e que infundia-se em seu ser. 

Era a alma da criação que o envolvia, e comungava sua alma a inefável serenidade da límpida e fresca manhã. 

Com a calma que derramou-se em seu espírito, ainda mais robusteceu-se a resolução tomada pouco antes. Encheu-se dessa fria resignação, que imprime à alma uma têmpera inflexível. 

Tirou-o de suas cogitações um rumor, que levantara-se ali perto. Voltou-se, e reconheceu que estava próximo à grade exterior, oculta nesse lugar pela famosa folhagem do arvoredo. Afastou os ramos e aproximou-se para conhecer a causa do ruído. Talvez receasse que o estivessem espreitando, e talvez fosse movido por essa curiosidade fútil que se apodera do homem, a quem um abalo violento arrancou às preocupações habituais. 

Um mascate de quinquilharias arreara na calçada a caixa que trazia a tiracolo, e sentado no chão, com as costas apoiadas no muro, fazia suas contas e dava balanço à mercadoria. Ou madrugara com intenção de estender o giro, ou apanhado pela noite longe de casa, a passara em alguma estalagem, e ia agora recolhendo-se, o que parecia mais provável. 

Na tampa emborcada da caixa, viam-se presos de cadarços, pregados de vários objetos, que atraíram especialmente a atenção de Seixas. 

Fez ele um movimento para diante, como se quisesse chamar o mascate. Retraiu-se porém com certo vexame; dir-se-ia que estivera a praticar uma leviandade, da qual o advertira em tempo sua razão. 

Como quer que fosse, ao cabo de alguma hesitação, venceu a primeira repugnância, mas não ao pejo do ato que ia praticar. Lançou pelos arredores um olhar perscrutador e verificando que a rua estava deserta, estendeu o braço fora da grade e bateu no ombro do mascate: 

- Chi va... exclamou o mascate voltando-se. 

Não viu as feições de Seixas que se afastara da grade, e escondia-se por trás da folhagem; mas percebeu uma moeda de dois cruzeiros que flutuava-lhe acima da cabeça, e tinha para ele de certo mais encanto do que a fisionomia do freguês. 

- Um pente e uma escova de dentes, disse Seixas em tom rápido. Depressa! 

- Questo? perguntou o mascate tirando da tampa um pente de búfalo.

- Sim, qualquer. Não posso esperar. 

O mascate passou os objetos; arrecadou a moeda e querendo apresentar o troco percebeu que o freguês havia desaparecido. 

- Che birbone! 

Entendeu o mascate que um dinheiro assim atirado fora com tanto desamor, era furtado; e por cautela foi arrumando a trouxa e fazendo-se ao largo, antes que lhe surgisse alguma complicação. 

Fazendo esta observação, lembrou-se Fernando da posição em que deixara Aurélia na véspera, e de si mesmo inquiriu que teria ela feito nessa longa noite de agonia. Naturalmente passara-a, extasiando-se no júbilo da humilhação que lhe infligira, e afinal saciada dessa vingança brutal, adormecera na febre de seu orgulho. 

(continua...)

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