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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— O Marcos Fragoso, sr. Campelo, o filho do coronel? Acha que Flor pode casar com êle? 

— Se formos a esperar que apareça um mancebo com dotes para merecer a nossa filha, D. Genoveva, ela não casará nunca, pois onde está êsse? Nem que vamos a Lisboa procurá-lo na melhor fidalguia do reino, acharemos um marido como nós o queríamos para Flor. Assim que temos de escolher entre o que há; e o Marcos Fragoso é dos poucos; as maldades do pai, êle não as herdou, com o grosso cabedal de sua casa. 

— Diziam tanta coisa dêsse moço no Recife! observou D. Genoveva abaixando os olhos com o recato calmo de uma senhora. 

— Rapaziadas que passam; quando for marido de Flor, êle não se atreverá a faltar-nos ao respeito; pois sabe que não lhe perdoaríamos o menor descomedimento. 

— O Leandro sempre é parente. 

— Mas não é tão abastado como o Marcos Fragoso; e não tem o seu porte fidalgo, respondeu o capitão-mór que era homem das formas. 

Lá no campanário da capela, acabava de soar a primeira badalada do toque de ave-maria. O som argentino da sineta vibrando nos ares foi repercutir ao longe no borborinho da floresta, de envôlta com o mugir do gado e os rumores da herdade. 

O capitão-mór parou, e descobrindo-se, pôs o joelho em terra para fazer sua oração mental. As pessoas de sua família o imitaram; e por toda a extensão da fazenda, a faina jornaleira interrompeu-se um momento. O carregador arreara o seu fardo; o trabalhador cessara o serviço; e todos de joelhos, com as mãos postas, rezaram a singela oração da tarde. 

Ainda retiniam as últimas badaladas das trindades, quando longe, pela várzea além, começaram a ressoar as modulações afetuosas e tocantes de uma voz que vinha aboiando. 

Quem nunca ouviu essa ária rude, improvisada pelos nossos vaqueiros do sertão, não imagina o encanto que produzem os seus harpejos maviosos, quando se derramam pela solidão, ao pôr do sol, nessa hora mística do crepúsculo, em que o eco tem vibrações crebras e profundas. 

Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro; nem êle as articula, pois fala ao seu gado, com essa outra linguagem do coração, que enternece os animais e os cativa. Arrebatado pela inspiração, o bardo sertanejo fere as cordas mais afetuosas de sua alma, e vai soltando às auras da tarde em estrofes ignotas o seu hino agreste. 

A voz que aboiava naquele momento tinha um timbre forte e viril, que não perdia nunca, nem mesmo nas inflexões mais ternas e saudosas. Ainda quando sua melodia se repassava de suavíssimos enlevos, sentia-se a percussão íntima de uma alma pujante, que brandia às comoções do amor, como o bronze ferido pelo malho. 

O gado dos currais, que já se tinha acomodado e ruminava deitado, levantando-se para responder ao canto do aboiador, mugia não ruidosamente como pouco antes, mas quebrando a voz, em um tom comovido, para saudar o amigo. 

Alina estremecera, escutando os sons vibrantes da canção: e seu olhar vago, volvendo em tôrno cruzou-se além com o olhar de Agrela, que de longe a fitava. Nesse relance chocaram-se as almas de ambos. À muda interrogação da moça, o ajudante respondera afirmando; e à súplica instante que seguiu-se, opôs um pálido sorriso, cuja ironia tinha um travo amargo e triste. 

Transida de susto por êsse sorriso, a môça inclinou-se para sua companheira e murmuroulhe ao ouvido: 

— Arnaldo! 

— Aonde? perguntou Flor distraída. 

— Não ouve? 

D. Flor aplicou o ouvido. Também ela conhecia os módulos frementes daquela voz, que enchia o deserto. 

— E agora? continuou Alina palpitante. Se êle vem?… O sr. capitão-mór!… 

— Meu pai o castigará, Alina; e será um benefício para êle, que está se perdendo. Arnaldo já não é criança; carece emendar-se. 

Alina retraiu-se como uma sensitiva. Esperava achar proteção em D. Flor; e a severidade da donzela, que bem revelava neste incidente a contrariedade de seu humor, a desanimou. 

Nas outras pessoas o aboiar, que se aproximava cada vez mais, não causara a menor impressão, como coisa muito comum no sertão. Apenas alguns dos agregados e vaqueiros lembraram-se que era êsse o modo de cantar de Arnaldo; e viram que antes deles já o gado havia reconhecido o filho de seu antigo vaqueiro. 

De repente uns gritos no curral chamaram para alí a atenção. Voltou-se o capitão-mór, e inquiriu do Agrela com o olhar a causa do rumor. 

— É a Bonina que apareceu, disse o ajudante apontando para a novilha parada junto à cêrca. 

O capitão-mór para alí encaminhou-se tão satisfeito que alterou a sua habitual circunspecção. D. Flor, porém, tinha-se adiantado com Alina e já abraçava a ingrata, quando o pai aproximou-se. 

Indagou o fazendeiro do caso; e Inácio Góis, insinuando-se como o descobridor da Bonina, começara uma história em que se derramaria sua habitual loquela, quando D. Flor o atalhou:

— Alí está quem a trouxe, meu pai! 

O capitão-mór ergueu os olhos na direção indicada pela filha, e viu parado a pequena distância Arnaldo montado no cardão. O mancebo tirou o chapéu e ficou imóvel. 

(continua...)

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